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Noé e o pernilongo

Prisma|Marcio Zebini

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Já não era sem tempo. Finalmente foi encontrado, não em fragmentos, como a maioria dos itens de arqueologia, mas quase na íntegra, o processo por improbidade administrativa movido contra Noé. Isso. Ele mesmo. O da Arca.

Antes de mais nada, vamos nos ater aos fatos. O que teria feito o Promotor de Olheiras, como ficou conhecido, inflar com tanta ferocidade a multidão contra Noé, acuado no banco dos réus? 


O pernilongo. Não ele exatamente. Mas a existência dele. O ato impensado do dono do barco que teria levado a humanidade ao convívio eterno com o zunido maldito.

O promotor gritava exaltado enquanto andava de um lado para o outro do Tribunal: "Qual a função desse bicho na cadeia alimentar?", "Que espécie de homem se permite um desleixo tamanho permitindo o embarque de tais criaturas?". E por aí seguiu.


Noé, resignado, repetiu exaustivamente a sua versão de que poderia ter errado sim, mas era por uma alteração de última hora do Porteiro Selecionador de Espécies Entrantes. E que, em nenhum momento, agira de má fé.

O promotor, diante do verão tropical do Tribunal do Equador, não aceitava recuar um só centímetro na acusação, mostrando as próprias olheiras, adquiridas por não dormir há dias, vítima dos ataques noturnos impiedosos dos insetos em questão.


Mas Noé insistiu no argumento, dizendo que ninguém quis substituir o elefante, já fatigado de portaria por ter bloqueado dois pares de mamutes, grandes até para ele. E chatos. Iam, pediam, choravam e se afastavam. Voltavam e imploraravam repetidas vezes. Mas era a regra: bicho grande, no bico do corvo, sinto muito. Na trigésima oitava vez o elefante ergueu a tromba e a apoiou sobre a testa naquele gesto típico do "pra mim, deu" e simplesmente abandonou o posto. 

Sem saída, Noé pediu as pressas a ajuda do primeiro bicho que achou com um tamanho razoável: o urso polar. O bicho, já meio mareado, foi até lá e ficou mexendo a pata em sinal de "passa aí, moçada" sem olhar muito bem ao redor. Foi a chance dos pernilongos. Um casal. O suficiente. Mesmo antes de acabar a tal enchente já haviam milhões dos bichos infestando a arca.


O tribunal estava dividido. Afinal, Noé era um cara ponta firme. Mas, convenhamos, escolher um urso, polar, de porteiro? O que esse féladamãe podia saber de pernilongo? E a turma do júri voltava a bandear pro lado do promotor, questionando o intelecto de Noé.

E assim foi. Por dias. Meses. Um julgamento sem fim. Também, há de se concordar que não tinham mais muitas outras coisas pra se fazer naquele tempo. 

A última parte resgatada dos transcritos do julgamento é uma apelação do Dr. Olheiras para que o julgamento terminasse e o réu fosse absolvido caso ele se comprometesse a extinguir o pernilongo da face do universo (não só da Terra). 

Fica a dúvida do destino que teve Noé. Mas a gente tem uma ideia, confere? O pernilongo continua por aí, firme e forte.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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