Cidades inteligentes: tecnologia a serviço das pessoas ou das máquinas?
Sensores, inteligência artificial, big data e monitoramento prometem cidades mais eficientes
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A transformação digital já deixou de ser uma promessa futurista para se tornar realidade nas grandes cidades. Sensores espalhados pelas ruas, câmeras inteligentes, aplicativos de mobilidade, sistemas de monitoramento em tempo real e algoritmos capazes de organizar o trânsito já fazem parte da rotina urbana de milhões de pessoas.
Muitas vezes sem perceber, a população já convive diariamente com tecnologias que influenciam deslocamentos, segurança, consumo de energia e até decisões da gestão pública.
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O conceito de cidades inteligentes, conhecido mundialmente como smart cities, vem justamente da integração entre tecnologia, conectividade e planejamento urbano. A proposta é utilizar dados e sistemas computacionais para tornar os serviços públicos mais eficientes, sustentáveis e conectados às necessidades da população.
Na prática, isso significa desde semáforos inteligentes que ajustam automaticamente o tempo de abertura conforme o fluxo de veículos até sistemas capazes de emitir alertas de risco climático diretamente na tela do celular dos moradores.
No Brasil, o tema ganhou ainda mais força nos últimos anos. A publicação da Portaria nº 1.012/2025 pelo Ministério das Cidades estabeleceu diretrizes nacionais para estratégias municipais de transformação digital, incentivando o uso de tecnologias voltadas à mobilidade urbana, conectividade, iluminação pública inteligente, monitoramento ambiental e segurança.
O avanço das chamadas cidades inteligentes já deixou de ser apenas tendência e passou a integrar oficialmente o planejamento urbano brasileiro.
Os reflexos dessa transformação aparecem em rankings nacionais que avaliam conectividade, inovação e sustentabilidade. Cidades como Vitória, Florianópolis, Niterói, São Paulo e Curitiba aparecem entre os principais destaques do país em iniciativas de modernização urbana.
A presença crescente de municípios de médio porte entre os líderes mostra que a corrida tecnológica não está restrita apenas às grandes capitais, mas vem avançando em diferentes regiões brasileiras.
Por trás desse cenário existe uma infraestrutura tecnológica cada vez mais complexa. Sensores urbanos, redes 5G, computação em nuvem, inteligência artificial e análise de Big Data trabalham de forma integrada para coletar, transmitir e processar informações em tempo real.
Especialistas apontam que as cidades estão se tornando grandes ecossistemas digitais, onde decisões automatizadas passam a influenciar diretamente o funcionamento urbano.
Mas o avanço das smart cities também traz questionamentos importantes. O aumento do monitoramento urbano, o uso intensivo de dados pessoais e a dependência de algoritmos levantam debates sobre privacidade, inclusão digital e transparência.
Afinal, até que ponto a tecnologia está tornando as cidades mais humanas, e não apenas mais eficientes? Essa discussão já mobiliza pesquisadores, gestores públicos e especialistas em tecnologia em diferentes partes do mundo.
Vale a pena destacarmos o conceito de Henri Lefebvre de 1968, relacionado ao direito à cidade: o direito de todos participarem da construção da cidade. Podemos pensar numa atualização deste conceito, nestes moldes: direito ao acesso digital, direito aos dados, e direito à transparência dos algoritmos. E surge uma pergunta importante: a tecnologia neste caso estaria democratizando ou excluindo?
Trouxemos três entrevistados para falar sobre o tema relacionado a cidades inteligentes.

O primeiro entrevistado foi Fábio Tatsubo, que atualmente é Chefe de Departamento de Política Pública dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na Ouvidoria da Prefeitura de Santos.
Ele está à frente deste departamento desde 2022. Tatsubo também coordena o Comitê ODS Santos 2030 desde 2018. Entre 2017 e 2019, foi premiado com seis projetos no Prêmio Boas Práticas pela Rede de Ouvidorias do CGU - Controladoria Geral da União / Ministério da Transparência.
“Cidades inteligentes são cidades humanas e sustentáveis, que utilizam a tecnologia como ferramenta para transformar dados em soluções reais, tornando os serviços públicos mais eficientes, aproximando a sociedade, a universidade e a iniciativa privada das políticas públicas municipais, e construindo um ambiente urbano mais inclusivo e resiliente”, diz Tatsubo.
Para ele, o conceito vai além da digitalização: trata-se de criar soluções urbanas que promovam mobilidade, segurança, participação cidadã e sustentabilidade, a partir de uma governança colaborativa.
Cidades inteligentes representam um “caminho estratégico para enfrentar os desafios contemporâneos, como mudanças climáticas, desigualdades sociais e pressões sobre infraestrutura, ao mesmo tempo em que fortalecem a economia local e a qualidade de vida da população”.

O segundo entrevistado foi Rivail Vanin de Andrade, que é professor permanente do programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Gestão Ambiental da Universidade Positivo/UP, em Curitiba. Ele tem doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) na área de Paisagem e Ambiente.
Rivail destacou em sua fala particularmente os investimentos tecnológicos na gestão urbana da cidade de Curitiba, como tendo privilegiado um viés excessivamente técnico.
Para ele, a “complexidade dinâmica da metrópole é reduzida a um encadeamento de algoritmos e desafios de processamento de dados, desconsiderando que o suporte físico-natural da cidade, bem como as vivências cotidianas de sua população, é indissociável da prática do planejamento”.
O professor reforça que a tecnologia não pode ser considerada o fim; ela deve atuar como mediadora na qualificação das decisões, sob pena de “cristalizarmos uma gestão pública que, embora seja precisa na telemetria (tecnologia que permite a medição, coleta e transmissão automática de dados de sensores ou equipamentos remotos para uma central de monitoramento), carece de sensibilidade perceptiva”.
Para Rivail, é importante “identificar os pontos cegos inerentes ao modelo de gêmeos digitais (um gêmeo digital - digital twin: é uma réplica virtual exata de um objeto, processo, sistema ou ambiente físico), que tende a tratar a cidade como uma variável de processamento de dados”.
Rivail ainda coloca que “a gestão territorial contemporânea exige o reconhecimento de que os dados, tal como o espaço, não são neutros; eles refletem as desigualdades históricas de produção social do espaço urbano”. O desafio não seria somente integrar bases de dados, mas transpor a barreira entre o “digital” e o “físico”, para que a infraestrutura fosse universalizada.

O último entrevistado foi Anderson Marcos dos Santos, que é doutor em Sociologia pela Unicamp, mestre em Direito pela UFPR, graduado em Direito pela PUC/PR; e também coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Positivo.
Para o professor Anderson, a “ascensão das discussões e das iniciativas de construção de cidades inteligentes apresenta a tecnologia como principal solução para problemas históricos de mobilidade, segurança, saneamento e gestão pública”.
No Brasil, projetos como o Smart Sampa, o Centro de Operações do Rio de Janeiro, a Muralha Digital em Curitiba e o Porto Digital no Recife incorporaram sensores, big data e inteligência artificial à gestão urbana, prometendo mais eficiência e qualidade de vida para seus cidadãos.
Ainda para ele, não obstante à “relevância dessas iniciativas e o otimismo que as cerca, a mera digitalização dos serviços urbanos não é suficiente para enfrentar as contradições profundas da realidade brasileira”.
Em um primeiro plano, populações periféricas, idosas ou de baixa renda frequentemente ficam à margem das plataformas digitais, seja pela falta de acesso à internet, pelo baixo letramento tecnológico ou simplesmente por não figurarem como público-alvo dos investimentos.
Em um plano mais estrutural, persiste a “exclusão de grande parcela da população do acesso à moradia digna, à infraestrutura urbana e ao saneamento básico, mazelas que nenhum algoritmo, por si só, é capaz de resolver”.
O doutor pela Unicamp ainda complementa que, nesse contexto, emerge um “lado sombrio da tecnologização das cidades: aquilo que para alguns representa agilidade, eficiência e segurança, para outros pode significar apenas vigilância e controle social”.
Sistemas de reconhecimento facial já implantados em diversas cidades brasileiras levantam sérios questionamentos sobre privacidade, discriminação algorítmica e uso abusivo de dados pela segurança pública — estudos apontam altas taxas de erro (Ferreira, 2026; Silva, 2022; Ramos, 2019; Nunes, 2019).
O entrevistado reforça ainda que a “inteligência” urbana, quando não acompanhada de participação popular, transparência e compromisso com a justiça social, “corre o risco de aprofundar a exclusão em vez de combatê-la”.
Para ele, garantir o direito à cidade na era digital exige, portanto, que a tecnologia seja tratada como meio, e não como fim, e que seja subordinada a um projeto coletivo e democrático.
Nos últimos dias 27 a 29 de junho, ocorreu o 3º CCBS – Congresso Cidades Brasileiras Sustentáveis, na Universidade Positivo (UP), em Curitiba, coordenado pela Profa. Dra. Clarissa Bueno Wandscheer.
O evento foi uma co-organização entre os PPG Gestão Ambiental (UP), PPG Direito (UP), PPG Ensino de Ciências e Matemática (Univ. Cruzeiro do Sul), PPG Ciências (Unifran).
Na oportunidade, este colunista que vos fala apresentou uma conferência e também coordenou (junto ao Prof. Dr. Anderson Marcos dos Santos) um grupo de trabalho (GT8) intitulado: Cidades Inteligentes e Futuro do Humano – Planejamento, Algoritmos e o Direito à Cidade. Minha palestra pode ser assistida aqui:
Prof. Dr. Juliano Schimiguel
Tem doutorado e mestrado em Ciência da Computação pelo Instituto de Computação da Unicamp. É coordenador do mestrado profissional em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (São Paulo, SP). Pesquisador permanente nos PPG ECM e EC. É docente na Unianchieta (Jundiaí/SP) e editor-chefe da Revista Ubiquidade.
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