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Como a era digital muda a educação financeira de crianças e adolescentes

Entenda como ferramentas modernas, incluindo aplicativos e jogos, ajudam os jovens a aprender sobre o valor do dinheiro

Radar Tecnológico|Juliano SchimiguelOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Crianças e adolescentes estão aprendendo sobre finanças através de experiências digitais como aplicativos e jogos, além de práticas tradicionais.
  • O uso de jogos como Minecraft e álbuns de figurinhas ajudam a desenvolver habilidades de barganha, troca e valorização do dinheiro.
  • Especialistas como Gustavo Perini e Simone Britto destacam a importância de integrar conceitos financeiros na educação infantil de forma prática e digital.
  • Instituições financeiras estão criando produtos específicos para jovens, promovendo a educação financeira através de contas digitais e cartões supervisionados.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Do Cofrinho ao Aplicativo
Do cofrinho ao aplicativo: a relação das crianças com o dinheiro já mudou Imagem gerada por Inteligência Artificial com apoio do ChatGPT/OpenAI

Um tema muito importante a ser discutido hoje em dia é a educação financeira de crianças e adolescentes.

Antigamente, alguns de nossos pais adotavam uma prática peculiar e interessante. Eles levavam seus filhos para ajudar em suas atividades de trabalho, principalmente naqueles trabalhos mais informais e autônomos.


Ao mesmo tempo que as crianças iam se acostumando e valorizando a atividade de trabalho, e iam também percebendo o esforço que seus pais tinham para conseguir comprar as coisas e sustentar uma família; ainda acabavam recebendo algum dinheiro pelo auxílio aos seus pais.

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Dessa forma, as crianças davam valor ao trabalho e ao dinheiro; aprendiam a poupar, exerciam seu poder de compra, barganha e valorização do dinheiro que tinham em mãos. Isso não deixava de ser uma forma de educação financeira.


Isso pode parecer algo simples, mas é muito importante, pois engloba a formação cidadã do indivíduo, para que ele saiba conviver em sociedade, e não seja enganado em compras básicas do dia a dia, como numa loja ou supermercado, por exemplo. Ou ainda, para que entenda operações simples como juros ou parcelamento numa loja de departamentos.

É claro que os tempos mudaram e vivemos em outro momento. E o mundo digital colabora nesse sentido!


O simples fato de uma criança colecionar o álbum de figurinhas da Copa já auxilia a intensificar habilidades relacionadas ao valor de um saquinho de figurinhas; ao peso de um saquinho de figurinhas (no caso daqueles saquinhos que vêm com uma figurinha a mais); o valor agregado de figurinhas lendárias, que, caso as tenha repetido, poderia trocar com outros jovens, exercendo seu poder de barganha e troca, por exemplo, trocando uma figurinha lendária por 20 comuns.

No mundo tecnológico, em específico, podemos destacar o jogo Minecraft, cuja propriedade intelectual pertence à Microsoft. O Minecraft é um jogo eletrônico de sobrevivência, onde os jogadores exploram um mundo aberto tridimensional organizado em blocos, podendo descobrir e extrair matérias-primas, ferramentas artesanais, construir estruturas ou terraplanagens, e podendo combater inimigos controlados por computador, bem como, cooperar ou competir contra outros jogadores no mesmo mundo.


No Minecraft, jovens e adolescentes poderiam exercer o poder de compra de itens, como roupas, habilidades específicas, personagens raros, etc. Poderia acontecer uma situação hipotética em que o jovem compraria um personagem por um valor mais baixo e, depois, venderia mais caro, fazendo seu dinheiro investido multiplicar, digamos assim!

No caso desses jogos, os jovens podem inclusive receber valores por meio de Pix em suas contas. Isso, dessa forma, ajuda a trabalhar as habilidades financeiras do jovem!

Foto do Entrevistado: Gustavo Perini do Amaral
Gustavo Perini do Amaral é mestre e doutor em Ensino de Matemática Arquivo Pessoal/Gustavo Perini do Amaral

Para Gustavo Perini do Amaral, professor de Matemática da rede pública estadual do Espírito Santo, que atua na educação básica há mais de 25 anos, geralmente a discussão sobre o tema finanças costuma restringir-se à fase adulta, focando em aspectos como gestão de recursos, trabalho e consumo; e que a análise da infância é deixada de lado.

Gustavo possui mestrado e doutorado profissionais em Ensino de Matemática pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES). Sua trajetória acadêmica está voltada para a pesquisa no ensino de Educação Matemática Financeira.

Para ele, o objetivo pedagógico na infância supera o mero gerenciamento ou acúmulo de capital, visando à “compreensão da realidade associada ao seu bem-estar integral e à formação cidadã crítica”.

A criança, até aproximadamente 10 anos de idade, encontra-se em pleno processo de transição e consolidação de suas estruturas mentais, período em que o conceito de abstração ainda está em formação, como ensina Piaget em Seis Estudos de Psicologia, de 1999.

Nessa fase, a apreensão de conceitos e valores econômicos depende diretamente da coordenação de ações e da manipulação da realidade material. Paralelamente ao aprendizado e ao desenvolvimento das interações sociais, o uso de instrumentos culturais, como a moeda/dinheiro, é necessário para a compreensão econômica.

Para Gustavo, os conceitos financeiros devem estar vinculados à exploração sensorial e ao manuseio de materiais concretos, como cédulas e moedas físicas, “fundamentais para que o educando coordene noções de equivalência, troca e valor”.

Contudo, a “sociedade contemporânea impõe o desafio da desmaterialização do dinheiro por meio das transações digitais, mediadas muitas vezes por jogos virtuais de acúmulo mecânico”.

“Em idades mais precoces, por exemplo, a criança tende a escolher duas cédulas de menor valor em detrimento de uma única nota de valor superior, baseando sua decisão na quantidade visual imediata, pois a estrutura de abstração do valor lógico-matemático ainda não se consolidou”, diz Gustavo.

Ele conclui ainda que “a transição do pensamento puramente concreto para a capacidade de abstração na infância demanda uma base sólida amparada na experiência sobre a manipulação concreta e no diálogo”.

O contato com o dinheiro em sua forma física e a introdução de cenários de investigação matemática crítica por meio de situações reais são necessárias no ambiente escolar e familiar.

Foto da Entrevistada Simone Britto
Simone Britto é mestre em Matemática Aplicada Arquivo Pessoal/Simone Britto

Já para Simone Britto, mestre em Matemática Aplicada pelo IME/USP e especialista em inteligência artificial pela Escola Politécnica da USP, a “transformação digital mudou a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o dinheiro”.

Simone possui mais de 20 anos de experiência em finanças, riscos, modelagem quantitativa e transformação digital, atuando em instituições financeiras e grandes empresas. Atualmente desenvolve soluções analíticas e de inteligência artificial para apoio à tomada de decisão, unindo matemática, tecnologia e negócios.

Se antes a educação financeira estava limitada ao cofrinho e ao dinheiro em espécie, hoje ela acontece por meio de aplicativos, contas digitais, cartões e transferências instantâneas.

Nesse cenário, os “bancos passaram a desenvolver produtos específicos para o público jovem, permitindo que adolescentes tenham acesso a contas digitais e cartões com supervisão dos responsáveis”, criando uma oportunidade prática para o aprendizado financeiro desde cedo.

Atualmente, instituições como Nubank, Inter, C6 Bank, Banco do Brasil e Next já oferecem soluções voltadas para esse público, refletindo uma tendência crescente de inclusão financeira e educação digital para jovens.

Para Simone, o “uso de cartões por adolescentes pode ser uma importante ferramenta educacional” quando acompanhado de orientação.

Ao receber uma mesada digital ou um valor pré-definido para administrar, o jovem passa a tomar decisões de consumo, aprender a estabelecer prioridades e compreender que os recursos são limitados.

Além disso, os “pais conseguem acompanhar movimentações em tempo real, definir limites de gastos e transformar situações do dia a dia em conversas sobre planejamento, consumo consciente e responsabilidade financeira”.

Imagem: Educação Financeira Digital
Educação financeira digital: o futuro começa agora Imagem gerada por Inteligência Artificial com apoio do ChatGPT/OpenAI

Simone reforça ainda que “as soluções digitais também aproximam os jovens de conceitos que serão essenciais na vida adulta, como orçamento, poupança, investimentos e planejamento de objetivos”.

Muitos aplicativos já oferecem recursos educativos, metas de economia, categorização de despesas e relatórios de gastos, tornando o aprendizado mais visual e interativo.

Dessa forma, a tecnologia deixa de ser apenas um meio de pagamento e passa a ser uma ferramenta de formação financeira, reforçando a importância da educação financeira e da formação de investidores conscientes.

Prof. Dr. Juliano Schimiguel

Tem doutorado e mestrado em Ciência da Computação pelo Instituto de Computação da Unicamp. É coordenador do mestrado profissional em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (São Paulo, SP). Pesquisador permanente nos PPG ECM e EC. É docente na Unianchieta (Jundiaí/SP) e editor-chefe da Revista Ubiquidade.

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