Chacina na CDD: corpos de 7 homens encontrados em área de mata com marcas de tiros são enterrados
Polícia investiga se vítimas foram mortas em guerra de facções ou confronto com policiais
Rio de Janeiro|Do R7

Os corpos dos sete homens encontrados mortos em área de mata na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, são enterrados na tarde desta terça-feira (22). A Polícia Civil investiga se as vítimas foram mortas em decorrência de uma briga de facção ou se morreram em confronto com policiais. A polícia também não descarta a possibilidade de haver outros corpos que ainda não foram encontrados. Já as famílias das vítimas falam em execução.
O corpo de Enzo João, 17 anos, é sepultado no cemitério do Pechincha, zona oeste. Já os corpos de Marlon César Jesus de Araújo, de 22 anos, Renan da Silva Monteiro, de 20 anos, e Leonardo Camilo da Silva, de 30 anos, são enterrados o cemitério do Caju, zona portuária.
O enterro de Robert Souza dos Anjos, 24 anos, e Rogério Alberto de Carvalho Júnior, 34 anos, ocorre no cemitério de Inhaúma, zona norte. Já o corpo de Leonardo Martins da Silva Júnior, 22 anos, é sepultado no cemitério de Ricardo de Albuquerque, também na zona norte.
A polícia investiga as circunstâncias da morte dos envolvidos. Segundo Fábio Cardoso, delegado titular da DH (Delegacia de Homicídios), todos já foram identificados e alguns tinham passagem pela polícia por tráfico de drogas.
Por outro lado, familiares das vítimas falam em execução. Segundo as famílias, os rapazes já haviam se rendido, mas teriam sido executados e, alguns deles, atingidos por tiros na nuca.
As mortes podem ter ocorrido durante confrontos em operação policial que começou na noite de sábado (19) após a queda do helicóptero da Polícia Militar, que deixou quatro agentes mortos. Após este episódio, a cúpula da Segurança decidiu ocupar a comunidade por tempo indeterminado.
Revolta de familiares
Após a madrugada de confrontos entre policiais e traficantes na Cidade de Deus, moradores da comunidade amanheceram no domingo (20) procurando familiares desaparecidos. O pastor Leonardo Martins da Silva, de 45 anos, descobriu logo cedo que o filho, Leonardo Junior, de 22, estava entre as vítimas.
"Minha revolta não é pela morte, porque eu sei que ele fazia uma coisa errada e por isso estava sujeito a morrer. É pela forma como aconteceu: atiraram pelas costas, quando ele já tinha se rendido. Isso está errado, e agora não deixam nem o rabecão entrar para recolher os corpos. Eu pago impostos, sou cidadão, tenho direito pelo menos que meu filho seja recolhido de forma decente", afirmou à reportagem, enquanto mostrava a carteira de trabalho do filho, recém-confeccionada e sem nenhum registro. "Ele queria mudar, eu pedia isso, mas não deu tempo."
Ainda com as mãos cheias de terra por ter retirado o corpo do filho de um brejo, o pastor foi pedir aos PMs que agilizassem a chegada da perícia, o que só aconteceu duas horas depois.
A declaração de óbito de Leonardo Júnior mostra que ele teve ferimentos por objeto "perfuro cortante". Para o pai dele, não há dúvida de que o filho foi executado. "É execução. Ele não tinha apenas ferimento à bala. Ele foi esfaqueado", afirmou.
A madrasta dele reagiu inconformada. "Eu não estou aqui para defender criminoso. Ele era traficante. Mas o policial se formou para fazer o bem. Por que não prenderam?", indagou Leila Martins da Silva, de 50 anos.
O pai de Leonardo contesta a hipótese levantada anteriormente pelo delegado Fábio Cardoso de que os jovens teriam sido mortos por milicianos da favela Gardênia Azul. "O último confronto foi na sexta-feira. Meu filho foi morto na madrugada de domingo, na mata. O Bope estava na mata", afirmou.
Enquanto as famílias dos mortos estavam no Instituto Médico Legal, chegou a informação de que a polícia havia entrado na casa de uma delas e revistado o imóvel. O grupo deixou o IML às pressas.
Familiares de outras vítimas preferiram não falar. Quando a perícia chegou e tirou os lençóis que cobriam os corpos, os repórteres fotográficos foram pressionados a sair do local.
Um vídeo que circulou pelas redes sociais mostra uma mulher pedindo que PMs permitam sua entrada em uma área de mangue para procurar o filho.
"Meu filho está aqui dentro, eu tenho de procurar", grita. O policial diz que está sem comunicação com outros PMs e por isso seria arriscado permitir a entrada. "Eu vou entrar. Meu filho está aí dentro do mato. Morto, morto! O sangue é meu. Eu sou mãe", repetia a mulher.
Anistia condena política de segurança pública do RJ
A Anistia Internacional divulgou nota condenando a política de segurança pública no Estado do Rio. Segundo o comunicado, o governo tem falhado em proteger a vida tanto dos moradores quanto dos agentes de segurança pública.
"As operações policiais no Rio seguem um padrão de alta letalidade, deixando centenas de pessoas mortas todos os anos, inclusive policiais no exercício de suas funções. São operações altamente militarizadas, que seguem uma lógica de guerra, que enxerga as áreas de favelas e periferias como territórios de exceção de direitos e que resultam em inúmeros outros abusos além das execuções", diz a nota da organização não governamental.















