Neto registra história de avó centenária em livro em Porto Alegre
Dona Maria, moradora do bairro Sarandi, tem 100 anos de memórias eternizadas pelo neto
Balanço Geral RS|Do R7
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“É saber viver”: Dona Maria dá receita de como chegar aos 100 anos
Dona Maria completou 100 anos, viveu duas grandes enchentes em Porto Alegre e virou personagem de um livro escrito pelo próprio neto.
É no bairro Sarandi que a história de Dona Maria começa. Foi numa casa da região que ela criou os seis filhos e ela mesma conta, com orgulho, que foi a primeira moradora do local:
"Depois de três dias é que começou a vir os outros."
Dona Maria nasceu em 1926 e faz aniversário junto com a cidade de Porto Alegre, no dia 26 de março.
Quando foi morar no Sarandi, a área ainda tinha muita mata preservada. Ela viu e viveu a construção do bairro, passou pela enchente de 1941 e também pela de 2024.
Hoje, com 100 anos de idade, Dona Maria vive em uma casa de repouso. O corpo responde mais devagar, mas a memória segue viva como antes. Contar a história dela é contar também muito sobre o lugar onde morou por tantas décadas.
O neto decidiu registrar a memória da avó
A iniciativa de colocar no papel as vivências de Dona Maria partiu do neto, Tiago Maria.
Escritor, professor de Língua Portuguesa e criado boa parte da infância no Sarandi, ele cresceu ouvindo histórias sobre como tudo era quando a avó chegou à rua: a forma carinhosa como os vizinhos se relacionavam, a evolução do transporte coletivo e o crescimento da região na Zona Norte.
Tiago estudou nas escolas do bairro e, hoje, dá aulas em uma delas, além de atuar como agente cultural na região.
Porém, ele foi vendo essas histórias se perderem aos poucos e entendeu que precisava colaborar para mantê-las vivas.
Segundo o professor, é importante registrar as falas e experiências dos mais velhos para que essas referências familiares possam passar de geração em geração.
"Foi um trabalho delicioso de escuta afetiva."
Enchentes, viuvez e a liberdade
Uma das lembranças de Dona Maria registradas no livro é o fato de ter ficado viúva muito cedo, aos 50 anos.
Foi um momento difícil, em que precisou ser forte para criar os seis filhos homens.
Ao mesmo tempo, ela guarda com carinho a lembrança da liberdade que as crianças tinham naquela época. Uma infância vivida subindo em árvores e jogando bola na rua, enquanto os adultos tomavam chimarrão na frente de casa.
Na frente da antiga residência de Dona Maria, a equipe encontrou Dona Zilda, uma antiga vizinha e amiga.
A aposentada lembra da rotina de décadas atrás:
"Tomava mate todo dia, uma na casa da outra. E assim nós andava."As grandes coisas da vida são feitas por gente comum
Entre os motivos que levaram Tiago a escrever o livro sobre as histórias da avó está a vontade de mostrar que, no fim das contas, as grandes coisas da vida são feitas por pessoas comuns.
Aquelas que saem de casa todos os dias para trabalhar, que criam filhos e que fazem coisas capazes de melhorar a vida de alguém lá na frente.
Não precisam ser gestos grandiosos. Pode ser apenas cuidar do filho de uma mãe solo enquanto ela descansa um pouco porque o bebê passou a noite toda acordado.
Coisas que Marias, Zildas e tantas outras pessoas comuns são capazes de realizar, mudando a vida de alguém.O segredo dos 100 anos
Hoje, vivendo em uma casa de repouso e cuidando da saúde, Dona Maria conta qual é o segredo para chegar aos 100 anos, ou até ultrapassar essa marca:
"É saber viver, não beber, não passar noites acordada, não viver na orgia e cuidar da vida normal, como ela é."














