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Em diário atribuído a "maníaco das dentistas", polícia encontra lições de curso de detetive e desenhos

Saber representar "qualquer papel" e "estudar o que fazer" estão entre os ensinamentos

São Paulo|Ana Cláudia Barros, do R7

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Desenho de mulher feito em diário atribuído ao suspeito de abusar de mulheres em consultório odontológicos
Desenho de mulher feito em diário atribuído ao suspeito de abusar de mulheres em consultório odontológicos

Era em um pequeno caderno espiral que o homem suspeito de invadir consultórios odontológicos em São Paulo e a mulher apontada como sua comparsa guardavam as lições do curso de detetive que ambos fizeram, segundo a polícia. O R7 folheou o que o delegado João Gilberto Pacífico, responsável pela apuração do caso, entende ser uma espécie de “diário”. O material foi apreendido durante operação do 30º Distrito Policial em um hotel no centro e é peça da investigação.

Frederico Adriano Sovenhi, 45 anos, havia escapado no início deste ano do HCTP (Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico) Professor André Teixeira Lima de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, onde cumpria pena de 18 anos e oito meses de reclusão em regime fechado por ter cometido três estupros. Após a fuga, teria, conforme informação da polícia, assaltado consultórios dentários e abusado sexualmente de algumas das vítimas. Onze inquéritos foram instaurados contra ele no 30º DP. O homem foi preso no último dia 6, na região central.


Nas páginas do caderno apreendido, a maioria escrita a lápis e com letra aparentemente feminina, há anotações referentes a temas, como “estudo da vida pregressa”, “princípios básicos de uma observação” e o “emprego da campana”. Diz um trecho:

— Campana é expressão de gíria. Significa observação discreta nas imediações de algum lugar, para conhecer os movimentos de pessoas ou pessoa, ou para fiscalizar a chegada ou aparecimento de alguém. Significa ainda o seguimento de alguém, de modo discreto, para conhecer seus movimentos e ligações.


O texto destaca ainda as diferentes modalidades de campana e que ela é “empregada por detetives particulares, policiais e criminosos”. 

— Os ladrões lançam mão do primeiro tipo de campana-vigilância de locais ou fixa para conhecer os hábitos e movimentos dos moradores, locais onde pretendem operar, e ainda, para evitar surpresas por parte de moradores ou policiais, durante a ação.


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“Conhecimentos indispensáveis”


Entre os “conhecimentos indispensáveis a um bom Detetive Particular”, estão, segundo anotações encontradas no caderno, noções de direito penal e processual, de medicina legal e polícia técnica, de identificação e datiloscopia, de relações públicas, além de conhecimentos gerais.

No rol das instruções reservadas ao profissional da área, Frederico Adriano aprendeu que era importante saber “se introduzir em qualquer ambiente social, sem chamar a atenção do objeto visado, e de preferência sem ser percebido”. Aprendeu ainda a relevância de “como sair de qualquer ambiente por mais sórdido que seja, sem chamar a atenção dos demais”.

“Manter-se calmo e paciente diante de qualquer situação por mais desagradável que seja” foi outro ensinamento do curso, que sugere ao futuro detetive desenvolver a capacidade de ser um “exímio artista”.

— (...) isto é, saber apresentar qualquer papel, simular situações, tais como: medo, alegria, tolerância, disfarçando sempre seus verdadeiros objetivos, sem deixar o adversário perceber pelas aparências. Nunca perder o controle dos nervos nem mesmo sendo pilhado em flagrante. Procurar controlar-se em qualquer situação adversa.

Como planejar

O suspeito e a companheira também foram orientados a “estudar o que fazer”, antes de agir. Outra dica do curso foi “antes de entrar em uma área de serviço, estudá-la com cautela para evitar surpresas”. Os ensinamentos parecem ter sido seguidos à risca por ambos. De acordo com a polícia, Frederico Adriano e a outra suspeita marcavam consultas com as vítimas e só depois realizavam os ataques.

Dias antes da prisão do foragido, que está no CDP III (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, na capital paulista, o delegado Pacífico havia declarado:

— Ele [Frederico Adriano] utilizava, às vezes, essa companheira para marcar consulta para ter o horário definido, sabendo, então, que não estaria mais gente aguardando, já que as dentistas trabalham com horário marcado. Ao invés de ela [suspeita] ir, ia ele e dizia que a mulher tinha marcado consulta e que queria saber se ela estava lá. Daí, ele se certificava de que não tinha ninguém no consultório, já que o horário seria da mulher, então, agia.

Na avaliação do delegado, o grau de planejamento empregado nas ações do suspeito se deve, em parte, aos conhecimentos adquiridos durante o curso, feito em maio deste ano, conforme indicam as datas no “diário”, que está sendo analisado pela polícia.

— Ele aperfeiçoou a maneira como iria cometer os crimes.

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Em uma das lições, dedicada a armas de fogo, o assunto aparece dividido por tópicos, como funcionamento, modo de carregar, modo de percussão, calibre, entre outros. Já entre os "mandamentos do detetive particular", estão conceitos positivos, como "jurar defender sempre os fracos e oprimidos", "respeitar o próximo como ser humano", "as autoridades e a ordem constituída" e "não obrigar ninguém a nada, mesmo que a posição permita a você tudo exigir. Peça por favor e espere".

Desenhos

Além das lições do curso de detetive particular, o caderno apresentava anotações de palavras em inglês e dois desenhos de figuras femininas. Em uma das páginas, havia a tradução da canção “Jerusalém”, do músico norte-americano Matisyahu.

Alguns trechos apareciam sublinhados com caneta vermelha. Entre eles, “apague os demônios de sua memória. Mude seu nome e sua identidade. Medo da verdade e da nossa negra história”.

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