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Ex-PM acusado de matar estudante em Mogi das Cruzes é absolvido

Julgamento durou mais de 10 horas e o ex-PM expulso da corporação Fernando Cardoso Prado de Oliveira foi absolvido 

São Paulo|Kaique Dalapola, do R7

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Julgamento foi realizado nesta terça-feira (30) em Mogi das Cruzes (SP)
Julgamento foi realizado nesta terça-feira (30) em Mogi das Cruzes (SP)

Em audiência que durou mais de dez horas, no Fórum de Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), o júri absolveu o policial militar expulso da corporação Fernando Cardoso Prado de Oliveira pela morte do estudante Matheus Aparecido da Silva, 16 anos, tentativa de homicídio contra outros dois rapazes, e ter matado, supostamente sem querer, um comparsa, na madrugada de 15 de novembro de 2013, no bairro de São João, em Mogi das Cruzes.

Leia mais:Seis pessoas morrem durante ataques em Mogi das Cruzes


Para se defender, o ex-PM disse que a situação “foi forjada pela Polícia Civil”. Cardoso acredita que os policiais civis cederam à pressão das mães e o apontam como responsável pelo crime para dar uma resposta.

O ex-policial militar está preso desde setembro de 2015. Além da acusação que foi julgado nesta terça, Cardoso é investigado em outros oito inquéritos policiais de homicídio. Para o MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), o ex-PM integrava um “grupo de extermínio” que agia contra suspeitos de serem usuários ou traficantes de drogas.


Foto tirada pela perícia no local do crime
Foto tirada pela perícia no local do crime

Enquanto Cardoso falava para os jurados que a Polícia Civil era responsável por sua prisão, um dos defensores do ex-PM, o advogado Paulo Cesar Pinto, se aproximou e sinalizou para ele parar. Em seguida, o silêncio momentâneo tomou conta da sala de audiência.

Além do réu, os sete jurados ouviram o depoimento de quatro testemunhas de defesa — a esposa e três policiais militares — e quatro testemunhas de defesa, que estão sob proteção judicial.


De acordo com o ex-PM, em discurso parecido com o da esposa, na noite que antecedeu o crime, ele havia ido buscar a mulher no serviço, em uma perfumaria no centro de Mogi das Cruzes, por volta das 23h, e voltou para casa, no município vizinho de Suzano (também na Grande São Paulo).

O casal ainda disse que quando voltaram para casa, foram dormir porque o ex-PM acordaria cedo para fazer um “bico”. A esposa disse não saber qual seria esse serviço extra. Já o ex-policial afirma que era na segurança de pontos comerciais.


Pela manhã, Cardoso diz que recebeu uma ligação do padrasto de seu amigo de infância Felipe Bueno Ferreira, dizendo que ele havia sido assassinado.

A promotoria aponta que Ferreira estava na noite do crime, juntamente com o ex-PM Cardoso e outros dois homens não identificados, e foi morto por acidente. Ele teria sido atingido por um disparo da arma do ex-policial enquanto atiravam contra o estudante.

O exame balístico aponta que a arma de Cardoso foi a utilizada para cometer os dois homicídios. O ex-PM fala que sua arma foi violada para fraudar o laudo.

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Policial combatente

No depoimento do ex-PM Cardoso e das quatros testemunhas que depuseram a seu favor, uma palavra esteve em comum: combatente.

O próprio réu explica, dizendo que “tinha o compromisso de atuar fortemente contra o tráfico de drogas porque é o início para outros crimes.

De acordo com um tenente da PM, que atua na Força Tática e conhecia ex-PM na época dos crimes, “o pessoal temia o policial [Cardoso] por causa de sua atuação” e todas as possíveis denúncias contra ele teriam sido “instruídas por advogados contratados pelo crime organizado”.

Outro policial que defendeu Cardoso, um cabo que está afastado por problemas de saúde, disse não ter conhecimento sobre nenhuma das outras oito investigações contra o ex-PM por homícidio, nem sabe quem são as vítimas, mas acredita que “todos mentiram”.

Já um tenente-coronel que comandou o batalhão onde Cardoso atuava, no bairro de Jundiapeba, um ano antes do crime, disse que o ex-PM era “comprometido no combate aos crimes que ocorria e, na época, liderava o ranking que pegava flagrante no tráfico”.

O tenente-coronel ainda disse que, enquanto o comandava, “houve algumas denúncias contra Cardoso, mas foram todas devidamente apuradas”. Ele afirmou que não tinha conhecimento dos crimes que o ex-PM é acusado.

Tensão entre as famílias

Por volta das 9h da manhã, quatro horas antes do previsto para iniciar o julgamento, familiares de vítimas de violência do Estado começaram chegar para fazer um ato em frente ao Fórum.

Faixas com fotos de jovens mortos pelas forças policiais paulistas na zona leste de São Paulo e em Mogi das Cruzes foram penduradas, ao lado da bandeira do Movimento Mães de Maio, na grade em frente ao Fórum.

Por volta do meio-dia, familiares do ex-PM Cardoso chegaram no local para acompanhar o julgamento. “O clima ficou tenso por que a mãe dele veio querer falar para gente que ele era inocente”, diz Maria Aparecida Marttos, do grupo Mães Mogianas — que perdeu o filho em um dos ataques a tiros na cidade.

A tensão durou pouco, rapidamente outra mãe tentou apaziguar: “ela é mãe igual a gente, não tem culpa pelo filho”.

A mãe do ex-PM, Rosemeire Cardoso de Oliveira, 59 anos, diz estar “muito triste” e entender a dor das mães que pedem por justiça. No entanto, acredita que Cardoso é inocente.

“Ele sempre foi um bom filho. Ele não fez nada e quem fez está solto. Eu acredito que por ele ser muito inocente alguém fez isso para prejudicar ele”, disse Rosemeire.

No final, uma integrante das Mães Mogianas pediu “desculpas se falou alguma palavra que a ofendeu”. E a mãe do PM reforçou que “entende a dor das mães”.

Lágrimas dos dois lados

As mães de vítimas de crimes do Estado começaram a entrar na sala da audiência por volta das 16h30. Meia-hora depois, quando todas já estavam sentadas no local, o ex-PM entrou. Pelo menos duas mães não seguraram as lágrimas ao ficar poucos metros do suposto assassino de seus filhos.

O primeiro depoimento aberto para o público, da esposa de Cardoso, também foi marcado por lágrimas. Falando da saudade que o filho do casal, de seis anos, sente do pai, a mulher chorou. Na cadeira ao lado da sala, entre dois PMs de escolta, Cardoso também chorou.

Fechando os interrogatórios, mais choro: desta vez do réu. Com óculos, não foi possível ver as lágrimas de Cardoso enquanto citava a bíblia para os jurados. “Eu entendo a dor dessas mães, mas também estou sofrendo porque não matei ninguém. A bíblia diz ‘não matarás’”.

Depois da fala do réu, intervalo de meia-hora. Às 19h30 o promotor se dirigiu aos jurados. Em seguida, foi a vez da defesa fazer o mesmo. Até sair a sentença.

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