São Paulo Família diz que universitário em SP foi preso injustamente e acusa PM

Família diz que universitário em SP foi preso injustamente e acusa PM

Winícius Molina, de 21 anos, foi abordado em 2019 na zona norte e estava sem habilitação. Ele teria sido apontado como autor de um assalto em 2018 

  • São Paulo | Joyce Ribeiro, do R7

Winícius Molina está preso há mais de 2 meses por suspeita de assalto

Winícius Molina está preso há mais de 2 meses por suspeita de assalto

Reprodução / Arquivo Pessoal

Winícius Molina da Gama Silva, de 21 anos, é estudante do último ano de TI (Tecnologia da Informação) e trabalha em um mercado. Os sonhos dele foram interrompidos quando foi preso durante o cumprimento de um mandado de prisão preventiva. Ele é acusado de um roubo de carga ainda em 2018, mas a família do jovem afirma que ele foi vítima de um erro policial.

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Ainda no dia 17 de março de 2019, à noite, Winícius estava no carro da mãe com a namorada. Os dois iriam comprar um lanche quando foram parados por policiais. A abordagem ocorreu a cerca de 300 metros do 5º Batalhão da PM no Tucuruvi, zona norte da capital, região onde o jovem mora.

A conduta de policiais deste batalhão está sob investigação e o prédio foi cercado em uma ação da Corregedoria no último dia 25. Mas a investigação teria começado ainda no ano passado.

O alerta foi aceso na família de Winícius, que garante ter ocorrido uma injustiça na prisão do jovem. "Eu não durmo, já acordo pensando nele, choro, meu coração tá em carne viva. Falo que tenho um contâiner nas minhas costas", afirmou ao R7 Wanessa Molina, auxiliar administrativo e mãe de Winícius.

Na época da abordagem, Winícius não tinha carteira de habilitação, mas nada suspeito foi encontrado no veículo. No entanto, segundo os familiares, os policiais mostraram a ele uma foto e perguntaram se ele era. O jovem confirmou que sim. A partir daí, os PMs afirmaram que mandariam a foto para a vítima fazer o reconhecimento em um assalto ocorrido em 14 de junho de 2018, na alameda Lorena, nos Jardins.

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"Meu filho nunca entrou em delegacia e nem tem passagem. Eles pediram pra ele falar que estava envolvido, como ele não disse o que queriam ouvir, eles disseram que iriam prejudicar ele, que ele tinha uma arma no carro", contou a mãe.

Winícius foi detido após o reconhecimento da vítima por participação no assalto. Na delegacia, uma arma 32, sem munição, enferrujada, foi apresentada e teria sido encontrada no carro. A mãe afirma que não havia arma no veículo e que ela não foi mostrada a eles. Após o pagamento de fiança no valor de R$ 2 mil, ele foi liberado.

No entanto, o processo criminal correu na justiça e, no dia 18 de abril, Winícius foi surpreendido no trabalho. Segundo a mãe, às 9h ela recebeu a mensagem dizendo "a polícia veio me pegar".

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Winícius foi levado primeiramente para a Luz, onde ficou cerca de 4 horas. De lá, foi pra 77º DP, na Santa Cecília, onde passou a noite. No dia seguinte, foi conduzido para o CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, onde ficou por alguns dias. Hoje ele está no CDP da Vila Independência em uma cela com mais de 30 pessoas.

Por causa da pandemia do novo coronavírus, visitas não são permitidas. As notícias chegam por cartas ou pelo advogado. "Ele dorme no chão, ficou vários dias sem banho de sol, já pegou sarna, furúnculo. Até levei pomada e antialérgico. Não consigo, como mãe, proteger meu filho", lamentou Wanessa.

Contradições

O assalto do qual Winícius é acusado ocorreu em 14 de junho de 2018, data da abertura da Copa do Mundo de futebol na Rússia. Segundo a família, o jovem estava em casa, na região da Parada Inglesa, na zona norte, para acompanhar a partida. Uma foto dele foi tirada na ocasião.

Mas na alameda Lorena, nos Jardins, por volta das 9h, uma carga de cigarros era roubada. A vítima teria ficado com o suspeito dentro de uma UBS (Unidade Básica de Saúde) no Parque Edu Chaves, na zona norte, até que a carga fosse descarregada.

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"Ele nem conhece esses lados da cidade, está sendo acusado de forma injusta. Queremos que ele responda em liberdade. Foram policiais mal intencionados que pegaram o meu filho", desabafou o pai, o comerciante Alecsandro Dantas da Gama Silva.

Winícius trabalha em um mercado e está no último ano da faculdade

Winícius trabalha em um mercado e está no último ano da faculdade

Reprodução / Arquivo Pessoal

Naquela ocasião, a vítima registrou um boletim de ocorrência e afirmou que o suspeito teria sido chamado de Willian e o descreveu como sendo negro, tinha um cavanhaque ralo e uma verruga na testa.

Winícius é branco, tem pouca barba e apenas uma pinta na testa. Ainda assim, foi "reconhecido sem sombra de dúvidas" pela vítima quase um ano depois do crime.

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Desde então, o advogado da família tenta mostrar à justiça as contradições, mas não teve sucesso. O pedido de habeas corpus foi negado porque, segundo a mãe, "ele seria um perigo para a sociedade", uma vez que teria cometido um assalto em 2018 e estava andando armado em 2019.

"Ele está preso por causa desse reconhecimento. É tudo muito estranho. Os policiais terem a foto do meu filho, ligar para a vítima, a arma e não termos acesso às câmeras", ressaltou Alecsandro.

A defesa de Winícius apresentou denúncia aos policiais envolvidos na abordagem. O pedido foi reforçado quando a família viu na TV a investigação da Corregedoria sobre o batalhão da PM em questão. Mas, mais uma vez, a juíza pediu que o advogado retirasse as denúncias contra os PMs e não solicitou as câmeras do dia do assalto e da UBS.

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Winícius teve o contrato de trabalho suspenso e sequer conseguiu trancar a faculdade. A família nega que ele tenha qualquer desavença e espera que ele seja solto o quanto antes.

Depoimento de amigos

Inconformados com a prisão de Winícius, parentes foram até a sede do 5º Batalhão para chamar a atenção da mídia e da Corregedoria da PM sobre o caso. Amigos e parentes iniciaram um movimento nas redes sociais com a #winiciuslivre, #winiciusjustica e #somostodoswinicius. 

Colegas e familiares gravaram, em vídeo, depoimentos sobre Winícius. Um deles é de Mateus Bueno, amigo do jovem há 10 anos. "É um cara excepcional, sempre estudou, trabalhou pra ter as coisas dele, nunca foi desse tipo de vida, de roubo, que ele tá sendo acusado. Ele não tá sozinho".

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Outra amiga, Camille Vistoria, afirmou que ele sempre foi uma "pessoa boa, caráter bom, cultivou a família, é um menino trabalhador, estudioso. O que está acontecendo com ele é uma injustiça".

Leandro Ferreira destacou que o amigo nunca se envolveu com nada errado e mandou um recado: "Faço um apelo porque queria que ele não tivesse passando por essa situação, mas ele está, queremos apuração correta dos fatos".

Outros colegas e parentes ressaltaram a personalidade de Winícius: bom filho e amigo, responsável, educado, de família íntegra e trabalhador. Todos protestam contra a prisão dele e cobram justiça. 

O outro lado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que, diante das denúncias apresentadas pela família, a Polícia Militar instaurou uma investigação preliminar para apurar os fatos.

Relatou também que o homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de fogo em 17 de março de 2019. Ele foi apresentado ao 73º DP (Jaçanã) e liberado após pagamento de fiança.

Segundo a SSP, durante o registro da ocorrência, o indiciado foi reconhecido por uma vítima como autor de um roubo de carga de cigarros ocorrido na área do 78º DP (Jardins). Em novembro de 2019, o Poder Judiciário encaminhou o inquérito policial do roubo ao 73º DP para continuidade das diligências. Em 17 de dezembro, foi relatado à Justiça e não retornou mais ao DP.

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