Major diz que foi atacado por presos e nega tiros dentro das celas no massacre do Carandiru
Ele falou que havia informação de que detentos usariam "agulhas sujas de sangue" no ataque
São Paulo|Julia Carolina, do R7

O major Marcelo González Marques, que era tenente na época do massacre do Carandiru, afirmou durante interrogatório nesta quarta-feira (31) que os policiais militares que invadiram a Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992 foram recebidos com tiros no terceiro pavimento (2º andar). Ele disse ainda que não houve tiros disparados em direção as celas.
De acordo Marques, durante uma reunião — que contou com a participação de responsáveis pela administraçao do Carandiru, autoridades civis —, o coronel Ubiratan recebeu aval do secretário de Segurança Púbica para que a PM entrasse na Casa de Detenção. Ainda segundo sua versão, havia informações de que os presos portavam armas brancas e de fogo e que poderiam portar agulhas e sacos com sangue ou urina de portadores do vírus HIV.
Em seu interrogatório, o major contou que, logo no pátio da Casa de Detenção, os policiais foram recebidos com os presos atirando objetos neles, como “máquinas de escrever, vasos sanitários, e sacos com urinas, além de armas brancas”. Segundo ele, porém, não houve embate entre os presos no pátio. Logo depois, eles entraram no pavilhão nove da Casa de Detenção.
— Vi presos feridos já na primeira barricada, no acesso às escadas por onde subiríamos ao segundo andar do pavilhão. Eles estavam sangrando.
Segundo o PM, desse local, ele conseguia ouvir disparo de arma de fogo de dentro do pavilhão. O major contou que no 3º pavimento houve confrontos os presos e os PMs. Ele afirmou ter certeza de que, nos embates, os presos usaram armas de fogo porque conseguia ver clarão dos tiros.
Em um dos confrontos, segundo o major, ele foi atingido por um objeto cortante no braço e ficou ferido. De acordo com o policial, após os embates, a situação foi sendo controlada. Ele admitiu, durante o interrogatório, que disparou entre três ou quatro tiros.
Contradições
A acusação do caso usou depoimentos anteriores para mostrar contradições no depoimento do major, como o número de confrontos e como eles ocorreram.
Indagado pelo assistente de acusação, ele negou que viu presos feridos deitados no chão do pavimento e disse que não chegou a presenciar detentos sem roupas. Ao ser questionado se também não tinha visto “nenhum preso sem cabeça”, ele concordou que não. A pergunta foi uma referência ao depoimento do coronel Valter Alves de Mendonça, primeiro réu a ser interrogado hoje.
Primeiros interrogatórios
Antes do depoimento do major, 18 réus acusados de participação na morte de 73 presos no episódio conhecido como massacre do Carandiru preferiram ficar em silêncio. O júri entra em seu terceiro dia nesta quarta-feira (31), no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Todos afirmaram que são inocentes e que receberam orientações da advogada, Ieda Ribeiro de Souza, para ficarem calados. Apesar disso, a acusação fez perguntas.
O primeiro réu a ser ouvido foi o coronel da Polícia Militar Valter Alves de Mendonça. Seu interrogatório durou aproximadamente três horas. A testemunha destacou em várias ocasiões “não se lembrar” de detalhes. Ele, inclusive, renegou declarações dadas por ele durante uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre o massacre em outubro de 1992, na Casa de Detenção.
Coronel da PM relembra preso sem cabeça e fala em “medo de tomar tiro”
Em pergunta feita pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, ele afirmou que, pela Rota, ele não tinha experiência em invasões a presídios, apenas em “cadeias distritais”. Mais adiante, confrontado pela promotoria, porém, o coronel destacou já ter debelado uma rebelião no Carandiru, “em 1981 ou 1982”, em uma situação que envolvia reféns e teve mortes.
Em seu interrogatório, Mendonça afirmou que as primeiras equipes da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) a entrarem no pavilhão nove encontraram alguns presos, que foram reunidos no meio do pátio, e “quatro corpos, um deles sem cabeça”, de acordo com Mendonça.
Após um preso indicar a entrada e as escadas, os policiais encontraram barricadas, fumaça e “mais dois corpos”. A tropa então subiu, “em meio a muito óleo avermelhado”, segundo palavras do coronel, quando teriam ocorrido os confrontos.
Primeiro dia
O primeiro dia foi marcado pela dispensa de sete das oito testemunhas da acusação. Apenas o perito criminal Osvaldo Negrini foi interrogado. Ele disse ter visto um “mar de cadáveres” e presenciado um “rio de sangue” ao chegar à Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992. O depoimento de Negrini começou por volta das 14h10 e terminou pouco depois das 16h30.
Segundo dia
No segundo dia do júri, os jurados ouviram no plenário o ex-secretário de Segurança Pedro Franco de Campos e o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Além deles, mais duas testemunhas protegidas prestaram depoimento.
A defesa ainda exibiu dois vídeos com depoimentos dos desembargadores Luiz San Juan França e Ivo de Almeida. França era juiz da Vara das Execuções Criminais da Capital em 1992, ano em que 111 detentos da então Casa de Detenção de São Paulo foram mortos após a entrada da Tropa de Choque da Polícia Militar para conter uma rebelião na unidade prisional. Já Almeida era corregedor dos Presídios da Capital na época dos fatos.
Relembre o caso
O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no Pavilhão 9. Com a confusão, a Tropa de Choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta. A ação deixou 111 mortos. Ao todo, 286 policiais militares entraram no Complexo Penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio.
Em abril de 2013, 26 policiais militares foram levados ao banco dos réus pela morte de 15 detentos no segundo pavimento do pavilhão nove no massacre do Carandiru. Após sete dias de julgamento, a maioria foi condenada por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Naquela ocasião, seis homens e uma mulher formaram o Conselho de Sentença.
Dos 26 policiais, 23 foram condenados a 156 anos de prisão, inicialmente, em regime fechado. Os réus receberam a pena mínima de 12 anos por cada uma das mortes dos 13 detentos. Os condenados poderão recorrer em liberdade. Outros três PMs foram absolvidos pelo júri, que acatou o pedido feito pela acusação.
Antes deles, Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém, um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia.
Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.
Dezessete testemunhas foram convocadas. Onze de acusação e seis de defesa. Do total, 12 eram aguardadas no tribunal, enquanto as outras cinco teriam vídeos dos seus depoimentos apresentados no plenário.













