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Opinião: sem controle sobre o que começou, MPL vê minorias violentas ganharem os holofotes

Movimento que prega a pluralidade acaba traído pelas próprias bandeiras e parcerias

São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

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Movimento Passe Livre perde o controle sobre manifestantes que agem com violência no centro de São Paulo
Movimento Passe Livre perde o controle sobre manifestantes que agem com violência no centro de São Paulo

Responsável pelo engajamento de milhares de brasileiros nas últimas semanas, o MPL (Movimento Passe Livre) se vê assombrado pelas próprias bandeiras. A conclusão ficou nítida após a violência exacerbada registrada nos arredores da sede da Prefeitura de São Paulo, na noite desta terça-feira (18), durante o sexto protesto contra o aumento da tarifa do transporte coletivo da capital.

O princípio de ser um "movimento horizontal, autônomo, independente e apartidário", que se apoia na "força das ruas" e no trabalho mútuo, oferece um interessante caminho para a pluralidade de ideias e opiniões. Num primeiro momento, é possível unir diferentes demandas em torno de um projeto conjunto. Contudo, as rédeas que estiveram firmes com o MPL nos três primeiros atos já estão soltas.


Na última segunda-feira (17), a manifestação de mais de 100 mil pessoas foi quase completamente pacífica, salvo o incidente violento registrado em frente ao Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, sede do governo paulista. Considerado "minoritário", o movimento mais radical e sem lideranças claras voltou a ganhar os holofotes com o caos instaurado no centro de São Paulo um dia depois.

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Se representantes do MPL dizem que nenhum integrante do movimento esteve presente ou participando dos atos de violência, isso não tira a responsabilidade pelo processo cuja autoria a organização não se cansa de reivindicar. Pouca gente sabe, mas mais de 30 entidades apoiam e colaboram com o MPL, e aqui aparece a pluralidade dos protestos, mas também se expõem as dissidências — e elas vão ficando mais claras a cada protesto.

A divisão em três frentes na manifestação de segunda-feira não foi ocasional. Nesta terça (18), novamente a manifestação se desintegrou em vários grupos. Ao contrário do que ocorrera nas cinco passeatas anteriores, lideranças diversas não aguardaram o sinal das lideranças do MPL para dar início ao deslocamento da massa de pessoas.


A reportagem do R7 acompanhou o momento em que, enquanto Matheus Preis, um dos líderes do MPL (responsável por negociar trajetos a cada protesto com a PM), ainda definia junto aos seus pares para onde seguir, um grande número de pessoas já descia a rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo, em direção ao terminal Dom Pedro.

Outras facções ligadas aos mais recentes protestos, como a Umes (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo), seguraram por alguns minutos o seu grupo, antes de seguir o mesmo trajeto tomado pelo MPL, o qual iria desembocar na avenida Paulista horas depois. Contudo, uma outra ala, mais radical, se dirigiu à sede da Prefeitura paulistana.


"Sem moralismo, com violência"

Enquanto a grande maioria cantava canções de ordem e pedia "sem vandalismo" e "sem violência", acabava ouvindo de volta gritos como "sem moralismo" e "com violência". A massa que não estava a fim de confusão tomou o caminho do Theatro Municipal, cruzando o viaduto do Chá, enquanto a minoria violenta permaneceu e continuou os atos de vandalismo no entorno da Prefeitura.

O radicalismo de quem ficou no centro parecia não ter limites. O grupo quebrou portas e vidros da sede do governo municipal, destruiu placas e semáforos do entorno e ainda arrumou tempo para depredar e incendiar um carro de transmissão da TV Record. Como não foram intimidados, os vândalos ganharam coragem e detonaram agências do bancos Itaú e Caixa Econômica Federal. Assim, a turba violenta ofuscava a passeata que seguia sem incidentes para a Paulista.

Além do vandalismo, o grupo ainda arrumou tempo para arrombar o comércio da região e praticar saques em massa. A reportagem do R7 acompanhou de perto toda a confusão e por duas vezes quase foi agredida. Pessoas de um hotel que foi invadido por famílias sem-teto, na rua Líbero Badaró, tiveram participação nos saques, conforme o R7 testemunhou no local.

Na busca por respostas para o que não se entende, o MPL mantém firme a perspectiva de continuar as manifestações enquanto a tarifa de R$ 3,20 não for reduzida pelo prefeito Fernando Haddad. Ao mesmo tempo que o movimento reforça que essa é sua bandeira principal, as associações plurais que estimulam discussões sobre corrupção, política, educação e saúde em todo o País começam a diluir, ao invés de aglutinar. A violência de setores que não aceitam a liderança do MPL e seus pares mais próximos só ajuda a criar uma incerteza sobre o cenário que ainda se mostra promissor.

Questionado sobre o motivo de tanta destruição na sede da Prefeitura, um manifestante que usava uma máscara para cobrir o rosto resumiu o sentimento que o motivava a instaurar tamanho terror no local naquele momento.

— Pra quebrar tudo né, nós "é loco". Enquanto não baixar, nós vamos continuar quebrando. Nós [somos] revoltados, né irmão, não aguentamos mais. Os caras ali contra o vandalismo, pô, tem que dar algum prejuízo.

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A rejeição ao protesto pacífico desta terça se aproxima ao de segunda se levarmos em conta que o mesmo Matheus Preis foi desmoralizado por um grupo mais exaltado, quando a manifestação pacífica se perdeu, e desta vez não por culpa da PM. Um novo protesto está marcado para a próxima quinta-feira (20), às 17h, na praça do Ciclista. A se repetir a falta de controle sobre segmentos que compõem as manifestações em São Paulo, o MPL colocará tudo o que ganhou em xeque.

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