A investida das lojas de suplementos no mercado impulsionado pelo Ozempic
Pesquisas estimam que cerca de 70 milhões de americanos terão experimentado medicamentos do tipo até 2028
Saúde|Jordyn Holman, do The New York Times

À proporção que medicamentos para diabetes e para a perda de peso, como o Ozempic e o Wegovy, foram surgindo nos últimos anos, muita gente abriu mão dos produtos dietéticos e nutricionais convencionais. Atualmente, duas varejistas especializadas em suplementos nutricionais – a GNC e a Vitamin Shoppe – estão testando novas estratégias para conquistar as pessoas que estão optando por essas medicações ou que têm algum interesse nelas.
Em suas mais de 2.300 lojas, há agora uma seção de suplementos para produtos que a GNC acredita que vão atrair pessoas que tomam o Ozempic, que contém o composto chamado semaglutida, e outros medicamentos conhecidos como GLP-1. A rede de lojas também está treinando seus funcionários para ajudar os clientes a avaliar quais substâncias podem ser úteis para controlar os efeitos colaterais comuns dessas medicações controladas.
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Michael Costello, CEO da GNC, mencionou que a empresa viu um “grande potencial” em ajudar quem toma esses medicamentos para perder peso. “Enquanto analisávamos as tendências entre as pessoas e quais eram suas preferências, o Ozempic e obviamente o Wegovy e outros peptídeos semelhantes a glucagon 1 (GLP-1) começaram a fazer muito sucesso. Notamos que muitas dessas medicações causavam efeitos colaterais significativos”, explicou Costello, em entrevista.
Não se sabe ao certo quantas pessoas tomam o Ozempic e outros medicamentos similares para perda de peso, mas Costello fez referência a um estudo da Goldman Sachs, empresa de serviços financeiros, que estima que até 70 milhões de americanos já terão experimentado essas medicações até 2028.
A GNC acredita que pode expandir sua categoria de controle de peso por intermédio desse esforço. Atualmente, tais produtos representam menos de 10% dos negócios da empresa, que, por outro lado, afirmou que essas vendas cresceram mais de 20 por cento recentemente.
As varejistas, as empresas de alimentos e outras estão tentando descobrir como o Ozempic e outros medicamentos semelhantes vão afetar ou ajudar seu negócio e, se necessário, o que devem fazer em resposta a isso.
Adaptações de mercado
Em outubro, o Walmart, que tem uma presença forte no setor farmacêutico, declarou ter observado que as pessoas que estavam tomando medicamentos com GLP-1 compravam um pouco menos de comida que os outros clientes. No mês anterior, um executivo da Nestlé, maior empresa alimentícia do mundo, mostrou otimismo em relação aos consumidores que optam pelas refeições Lean Cuisine, as quais são “exatamente o que você comeria se estivesse usando esse tipo de medicamento”. Já as redes de academia Life Time Fitness e Equinox estão oferecendo programas de treinamento adaptados para pessoas que usam essas medicações.
Os executivos da GNC afirmam ter selecionado mais de 20 produtos que poderiam ser usados para tratar os efeitos colaterais comuns desses medicamentos, como a fadiga ocasional, a deficiência de nutrientes, a redução da densidade óssea e a perda de massa muscular. A empresa já comercializava alguns deles, mas outros são novidade. Os suplementos incluem multivitamínicos diários para mulheres, cápsulas de raiz de gengibre e um shake de chocolate com baixo teor calórico. Na nova seção, placas que listam os efeitos colaterais foram posicionadas ao lado das prateleiras dos suplementos que podem aliviá-los.

Nenhum suplemento oferecido pela GNC em sua loja replanejada foi fabricado especificamente para usuários dos novos medicamentos para perda de peso nem foi clinicamente testado. Médicos especialistas afirmam que a maioria das pessoas pode obter todos os nutrientes de que precisa com uma dieta equilibrada e que alguns suplementos podem não ser eficazes e causar efeitos colaterais próprios. “A maioria dos pacientes não precisa de suplementos”, disse a dra. Maria Daniela Hurtado Andrade, professora assistente na Clínica Mayo de Jacksonville, na Flórida, cujas pesquisas se concentram na redução da obesidade. Ela também trata pacientes que estão usando medicamentos GLP-1.
Executivos das redes de varejo comentaram que colocaram essa seleção de produtos nos expositores depois de consultar médicos, toxicologistas, nutricionistas e outros profissionais. “Todas as recomendações que a GNC está fazendo em apoio aos medicamentos GLP-1 têm um respaldo científico, resultado de nossas consultas com médicos e da análise de opiniões de profissionais certificados no assunto”, afirmou em comunicado Rachel Jones, diretora de ciência e inovação de produtos da GNC.
Algumas varejistas foram ainda mais longe: a Vitamin Shoppe, pela primeira vez desde que iniciou suas operações em 1977, se uniu à WellSync, da área de telessaúde, que fornece receitas de medicamentos GLP-1, para oferecer aos clientes uma opção farmacêutica – mostrando a seriedade com que os executivos do setor estão encarando o Ozempic e produtos similares. “Sem dúvida, houve quem dissesse: ‘Se vocês não oferecem isso, vou procurar em outro lugar’”, comentou Lee Wright, CEO da Vitamin Shoppe, em entrevista.
A empresa, assim como a GNC, está destacando produtos como a proteína em pó em suas lojas para atrair quem toma o Ozempic ou medicamentos semelhantes. Até o início de maio, a Vitamin Shoppe e sua marca associada, Super Supplements, terão displays em suas 700 lojas anunciando sua parceria e fornecendo um QR Code que direciona os consumidores para o portal de telessaúde.
O mercado de suplementos relacionado a medicamentos GLP-1 é totalmente novo. Não houve grandes testes clínicos que provassem a eficácia desses produtos para a redução dos desconfortos associados ao uso dos remédios. E, segundo alguns médicos, muitos dos efeitos colaterais comuns das medicações para perda de peso podem diminuir com o tempo e ser facilmente gerenciados, reduzindo a necessidade de usar suplementos em longo prazo.
Hurtado comentou que, por exemplo, em vez de recomendar suplementos probióticos, que contêm microrganismos vivos, como bactérias, ela incentiva que seus pacientes incluam em sua dieta alimentos que os contêm, como o iogurte ou o kefir. Depois de uma avaliação detalhada, ela recomenda, em alguns casos, suplementos, shakes ou proteína em pó para pacientes que não consomem o nutriente em quantidade suficiente. “Acho que é extremamente importante ter essa supervisão médica para que possamos verdadeiramente controlar ou reduzir a incidência de efeitos colaterais graves que, na minha opinião, podem aparecer se o paciente não for acompanhado de perto.”
Os diretores da GNC e da Vitamin Shoppe disseram que seus funcionários – a quem se referem como entusiastas ou “coaches” de saúde – não substituem os médicos. Os executivos também apontaram que os métodos e as estratégias empresariais foram desenvolvidos em colaboração com nutricionistas.
Tudo isso é louvável, comentou Hurtado, mas ela teme que os funcionários dessas lojas não estejam tão bem-informados quanto os médicos sobre como interpretar e tratar os sintomas. Para isso, é necessário saber que perguntas fazer, algo para o qual os profissionais de saúde certificados são treinados, explicou. “Não acredito que um varejista tenha a capacidade de pensar nas perguntas que precisam ser feitas para estreitar esse diferencial e entender a que a diarreia – ou qualquer outro efeito colateral – está relacionada.”
Mas é improvável que essas preocupações impeçam os distribuidores varejistas e os fabricantes de suplementos de se aprofundar no que muitos analistas acreditam ser um mercado de crescimento rápido.
Há quatro anos, antes que o Ozempic se tornasse um medicamento tão bem-sucedido, a Supergut, empresa sediada em Los Angeles, começou a vender suplementos prebióticos, que alimentam microrganismos. Comercializava esses produtos, como shakes e lanches em barras, em parte como uma forma de ajudar as pessoas a controlar os níveis de açúcar no sangue. Dois anos depois, a Supergut começou a destacar os possíveis benefícios de seus produtos para a saúde intestinal e dedicou uma seção de seu site aos medicamentos GLP-1. “Essa é a maneira como vamos nos conectar à consciência do consumidor. Somos super-relevantes para este momento e para a era do Ozempic”, disse Marc Washington, CEO da Supergut, que acrescentou que, nos últimos seis meses, as vendas quadruplicaram.
A GNC está abastecendo suas prateleiras com produtos da Supergut na seção de medicamentos GLP-1 de suas lojas, sendo a primeira vez que a marca é comercializada em uma rede nacional. Washington afirmou que também está conversando com outros distribuidores do país.
c. 2024 The New York Times Company
















