Além de barrar o câncer, filtro solar ajuda na aparência
Pessoas que usaram protetor solar todos os dias tinham uma pele mais flexível e suave
Saúde|The New York Times

Pessoas que passam frequentemente o filtro solar todos os dias podem retardar, ou até mesmo evitar por algum tempo, o surgimento de rugas e flacidez na pele, segundo um estudo recente. Embora dermatologistas falem há muito tempo para as pessoas usarem filtro solar com o objetivo de diminuir os efeitos do envelhecimento, essa é a primeira vez que uma pesquisa científica mostra os efeitos reais da prática sobre a aparência da pele, segundo os pesquisadores.
O estudo envolveu 900 pessoas de pele branca com idades entre 25 e 55 anos na Austrália, onde a exposição intensa ao sol faz parte do dia a dia. A maioria tinha pele clara e quase todos tomavam sol. Praticamente todos usavam protetor solar ao menos durante parte do tempo e dois terços usavam chapéu quando saiam no sol.
Entretanto, os pesquisadores queriam descobrir o que aconteceria com a pele se as pessoas tentassem usar um filtro com fator de proteção solar alto durante o dia todo ao longo de quatro anos e meio. Metade dos participantes receberam instruções para continuarem a fazer o que faziam e a outra metade para passar protetor todos os dias.
Os pesquisadores publicaram os resultados na revista The Annals of Internal Medicine, e indicam que as pessoas que passaram a usar protetor solar todos os dias tinham uma pele claramente mais flexível e suave que as pessoas que mantiveram as práticas de costume.
O estudo incluiu quase 900 pessoas aleatoriamente indicadas a tomar um suplemento nutricional de betacaroteno, ou um placebo para ver se o suplemento ajudava a prevenir o envelhecimento da pele. Porém, o resultado foi negativo.
A parcela do estudo envolvendo o protetor solar impressionou outros pesquisadores. O Dr. David R. Bickers, professor de dermatologia da Universidade de Columbia, que não estava envolvido na pesquisa, afirmou que o estudo "deixa claro que o uso extensivo e consistente de protetor solar pode alterar os rumos de um fotoenvelhecimento inevitável".
Pesquisadores desenvolvem protetor solar que combate rugas e flacidez
Até o momento, afirmou, a maior parte dos estudos de danos causados à pele foram conduzidos com ratos, não com pessoas, e não ficava claro se os resultados seriam os mesmos.
A Dra. Barbara A. Gilchrest, professora de dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston e editora da revista científica Journal of Investigative Dermatology, afirmou que também achou o estudo convincente.
Gilchrest, que não estava envolvida com o estudo, destacou que os sujeitos pesquisados não passavam o dia todo se bronzeando, mas que tentavam proteger a pele.
— Eles não pegaram gente que ficava o dia todo fritando na praia e tiraram elas do sol. Todas as pessoas estudadas já tinham bons hábitos de proteção contra o sol desde o princípio.
Ninguém havia feito um estudo desse tipo porque a simples ideia é desafiadora, segundo dermatologistas. Centenas de pessoas saudáveis precisaram concordar em seguir as definições da pesquisa durante anos.
O filtro solar utilizado por quem deveria passá-lo todos os dias tinha FPS 15, que filtra 92 por cento dos raios do sol. Uma pessoa que geralmente ficaria queimada em 10 minutos, levaria 150 minutos para se queimar com o FPS 15. As pessoas que foram convocadas a usar o protetor solar tinham até mesmo que pesar as embalagens do produto para comprovar que o estavam utilizando.
"Conseguir que tantas pessoas façam o que foi pedido durante tanto tempo não é nada fácil", afirmou Bickers. "Para mim, é impressionante que tenham alcançado o comprometimento que conquistaram."
O estudo com filtro solar foi patrocinado pelo Conselho Nacional de Pesquisa Médica e em Saúde da Austrália. Nenhuma marca de protetor contribuiu.
Pesquisadores estudaram apenas pessoas de pele branca da cidade de Nambour, a cerca de 1.000 quilômetros ao norte de Sydney. Os participantes concordaram em permitir que os pesquisadores fizessem moldes de silicone no início e no fim do estudo, para avaliar como as peles haviam reagido.
Filtro solar só protege se aplicado na quantidade certa
A principal pesquisadora do estudo, Adele C. Green, cientista sênior do Instituto de Pesquisa Médica de Queensland e os colegas de lá e da Universidade de Queensland já haviam demonstrado que esse tipo de método fornece o mesmo tipo de informação que uma biópsia da pele. Com a biópsia, os dermatologistas buscam a elastina, o tecido elástico da pele, que se degrada com o passar do tempo, contribuindo para o surgimento de rugas e flacidez da pele.
É fácil ver os efeitos do envelhecimento em uma biópsia, afirmou o Dr. David J. Leffell, professor de dermatologia e cirurgia em Yale.
— Ao invés de belas fibras rosadas, você vê um material roxo e amorfo. É quase como olhar para uma fotografia através lentes cobertas com vaselina.
Os moldes de silicone permitiram que os especialistas observassem as mudanças correspondentes na superfície da pele. Ao fazer o molde, o participante primeiro esticava a pele de mão segurando um tubo de papelão. Em seguida, o pesquisador cobria a mão com silicone e formava o molde.
Assessores que não sabiam se os sujeitos estavam ou não usando protetor solar examinaram as linhas nos moldes de silicone, dando notas de 0 a 6.
A nota 0 representava um fotoenvelhecimento nulo.
"É como uma pele de bebê, muito flexível", afirmou Green. "Havia uma rede fina de linhas no microscópio."
Uma pessoa com nota 6 tinha uma pele severamente envelhecida, sem elasticidade e com linhas profundas. Cada ponta da escala representava uma pele mais áspera e enrugada nas mãos, na face ou em qualquer outro lugar onde a pele pudesse ser avaliada. No rosto, cada ponto é associado a um número maior de veias e capilares visíveis.
No início do estudo, a nota média em ambos os grupos de participantes era 4, o que significa que eles apresentavam um fotoenvelhecimento moderado. Ao final, pessoas que passavam protetor solar diariamente mantiveram a média 4, ao passo que o grupo controle chegou à média 5.
O estudo não responde como pessoas se pessoas com mais de 55 anos também teriam pele mais jovem se usassem protetor solar, destacou Green. Após os 55, os efeitos do envelhecimento sobre a pele começam a se destacar e os efeitos da luz ultravioleta sobre a pele são cumulativos.
Fator mínimo de protetor solar passará a ser 6
Não se sabe ao certo quanto o protetor solar pode ajudar se o uso for iniciado em outro momento, mas Green aconselha o uso mesmo assim, afirmou, uma vez que ele pode proteger contra o câncer de pele.
O estudo também não responde se pessoas de pele mais escura podem proteger a pele de rugas e da flacidez por meio do uso de protetor solar.
Pessoas de pele clara têm muito mais problemas com o fotoenvelhecimento e o câncer de pele, se comparadas a pessoas de pele escura, afirmou Gilchrest. Mas ao ser questionada se pessoas de pele escura teriam pele mais jovem com o uso de protetor solar, ela afirmou que acreditava que sim.













