Depois da queimadura: medicina regenerativa transforma reconstrução de pacientes com sequelas graves
Tratamentos modernos devolvem mobilidade, conforto e qualidade de vida para pessoas que sofreram queimaduras e necroses de pele
Feed TV - Saúde|Do R7

Uma queimadura grave acontece em poucos segundos. A recuperação, porém, pode levar meses ou até anos. Quando a fase de emergência termina e a alta hospitalar chega, começa um desafio que poucas pessoas conhecem: reconstruir uma pele que perdeu elasticidade, função e, muitas vezes, compromete movimentos essenciais do corpo.
É justamente nessa etapa que a cirurgia plástica reparadora assume um papel decisivo. Mais do que melhorar a aparência das cicatrizes, o objetivo é devolver qualidade de vida, independência e conforto ao paciente.
Segundo especialistas, a reconstrução costuma ser um processo gradual, planejado de acordo com a evolução de cada caso. Dependendo da gravidade da queimadura, podem ser necessários enxertos, retalhos cirúrgicos e técnicas mais modernas voltadas à regeneração dos tecidos.
A cicatriz pode continuar causando problemas durante anos
Muitas pessoas acreditam que o tratamento termina quando a pele cicatriza. Na prática, isso raramente acontece.
Após queimaduras profundas, é comum surgir a chamada cicatriz retrátil, uma alteração que endurece a pele e reduz sua elasticidade. Esse processo pode limitar movimentos do pescoço, braços, mãos, pernas e até da boca, dificultando atividades simples do cotidiano.
Vestir uma roupa, dirigir, pentear os cabelos, levantar os braços ou fechar completamente a mão podem se tornar movimentos dolorosos ou até impossíveis em alguns pacientes.
Além das limitações físicas, as sequelas costumam provocar impactos emocionais importantes, principalmente quando atingem regiões como rosto, mãos e pescoço. Por isso, o acompanhamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar, incluindo cirurgia plástica, fisioterapia, terapia ocupacional e suporte psicológico.
Quando o problema é a necrose de pele
Outra condição que frequentemente exige reconstrução é a necrose de pele.
Ela ocorre quando determinada região perde sua circulação sanguínea e o tecido deixa de receber oxigênio, levando à morte celular. Esse quadro pode surgir após cirurgias, infecções graves, acidentes, doenças vasculares ou outras situações que comprometem o fluxo sanguíneo.
Embora tenha causas diferentes das queimaduras, o objetivo do tratamento é semelhante: reconstruir uma área funcional, resistente e capaz de oferecer melhor qualidade de vida ao paciente.
Como acontece a reconstrução
O tratamento costuma seguir etapas bem definidas, respeitando o tempo de recuperação de cada organismo.
Fase
O que acontece
Objetivo principal
Fase aguda
Atendimento inicial após o acidente
Estabilizar o paciente e controlar a lesão
Cicatrização
Formação do novo tecido
Evitar infecções e reduzir o risco de retrações
Reconstrução
Procedimentos reparadores
Recuperar mobilidade, função e aparência
Regeneração tecidual
Quando há indicação médica
Melhorar a qualidade da cicatrização e do tecido reconstruído
Cada paciente apresenta necessidades diferentes. A extensão da queimadura, a profundidade da lesão, a idade e as condições clínicas influenciam diretamente no planejamento do tratamento.
A medicina regenerativa abriu uma nova perspectiva
Nos últimos anos, a medicina regenerativa passou a integrar protocolos de reconstrução em casos selecionados.
Entre os avanços está o uso de células estromais obtidas da própria gordura do paciente. Após um processamento específico, essas células podem ser utilizadas para favorecer a regeneração dos tecidos e contribuir para uma cicatrização de melhor qualidade.
A técnica passou a ser autorizada pela Anvisa em 2021 e vem sendo incorporada por centros especializados em cirurgia plástica reparadora.
Em Ribeirão Preto, a cirurgiã plástica Dra. Aneliza Vittorazzi, formada pela Faculdade de Medicina da USP e com residência no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP-USP), está entre as profissionais que utilizam protocolos que associam cirurgia reparadora e medicina regenerativa no tratamento de queimaduras, necroses e sequelas complexas.
A proposta não é substituir as técnicas tradicionais, mas ampliar as possibilidades de recuperação dos tecidos, sempre após avaliação individualizada.
Quem pode se beneficiar desse tipo de tratamento
Os protocolos de reconstrução costumam atender pacientes com diferentes histórias clínicas, entre elas:
Em todos esses casos, o planejamento considera não apenas a cicatriz, mas também a função da região afetada e o impacto na rotina do paciente.
O maior resultado nem sempre é estético
Na cirurgia plástica reparadora, recuperar a aparência é importante, mas frequentemente não é o principal objetivo.
Para muitos pacientes, o verdadeiro ganho está em conseguir voltar a movimentar um braço sem dor, abrir completamente a mão, virar o pescoço com liberdade ou simplesmente retomar atividades que antes pareciam impossíveis.
É essa combinação entre reconstrução funcional e melhora da qualidade de vida que tem direcionado os avanços mais recentes da especialidade.
Como resume a Dra. Aneliza Vittorazzi: “Cada cicatriz de queimadura representa uma história de superação. Nosso objetivo é devolver função, conforto e qualidade de vida, respeitando o tempo de recuperação e as necessidades individuais de cada paciente.”

Perguntas frequentes
Toda queimadura precisa de cirurgia?
Não. A indicação depende da profundidade da lesão, da presença de retrações e da perda de função. Muitas queimaduras evoluem satisfatoriamente apenas com tratamento clínico.
As células estromais substituem a cirurgia?
Não. Elas podem complementar o tratamento em casos selecionados, contribuindo para a regeneração dos tecidos, mas não substituem procedimentos reparadores quando estes são necessários.
Quanto tempo após a queimadura é possível iniciar a reconstrução?
Cada caso possui um tempo diferente. Em geral, a reconstrução é planejada após a estabilização da cicatrização e uma avaliação completa do paciente.
Crianças também podem realizar esse tratamento?
Sim. O acompanhamento costuma ser contínuo, já que o crescimento pode modificar o comportamento das cicatrizes ao longo dos anos.
Cirurgias reparadoras são cobertas pelos planos de saúde?
Em muitos casos, sim. Quando existe indicação funcional ou reparadora, pode haver cobertura, mas isso depende das regras de cada operadora e da análise individual do procedimento.















