Médicos brasileiros ameaçam denunciar estrangeiros para polícia
Saúde|Do R7
Eduardo Davis. Brasília, 24 ago (EFE).- A chegada ao Brasil dos primeiros médicos estrangeiros contratados como parte do programa do governo federal Mais Médicos provocou reação de organizações do setor, que ameaçaram denunciar seus colegas para a polícia por "exercício ilegal da profissão". A atitude frente aos estrangeiros que começaram a chegar ao país na sexta-feira e continuarão a desembarcar neste fim de semana provocou reações de reprovação em alguns profissionais que aceitaram a oferta feita pelo governo da presidente Dilma Rousseff. "Por favor, não me recebam mal. O governo brasileiro pediu ajuda e vim", afirmou na noite de ontem o espanhol Rafael de Quina Fruto, de 59 anos, cuja esposa é brasileira. Quina Fruto, que chegou à cidade de Recife, contou que tinha trabalho em seu país, segundo ele com um salário melhor, mas quis agradar a sua esposa, que desejava voltar ao Brasil. "Viveu doze anos comigo na Espanha. Queria voltar e decidi agradá-la. Vim por amor. Não me recebam mal", declarou o médico, que se for aprovado em exames de português e relativos à sua profissão trabalhará em uma região pobre do estado de Pernambuco. Segundo o governo, uma das razões das deficiências na saúde, que foram uma das reclamações apontadas nas recentes manifestações no país, é a falta de médicos, principalmente nas áreas mais pobres do Brasil, nas quais os profissionais do setor resistem a trabalhar. O Brasil tem uma taxa de 1,8 médicos por cada 1.000 habitantes, baixa em relação a outros países e que chega a 3,7 no Uruguai, 3,2 na Argentina e quatro na Espanha. Apesar disso, organizações do setor ficaram contra o projeto e entraram com ações no Supremo Tribunal Federal (STF) para impedir o trabalho dos estrangeiros e ameaçaram denunciá-los para a polícia. A maior trincheira dessa resistência está nos Conselhos Regionais de Medicina, órgãos colegiados que regulam a profissão e classificam como uma "afronta" a contratação de médicos estrangeiros. "Não será dado o registro a um estrangeiro só porque a presidente quer", declarou o presidente do Conselho Regional de Medicina do Maranhão, Abdon Murad Neto. O presidente do Conselho Regional do Paraná, Alexandre Bley, foi além e afirmou que um médico que trabalhe sem contar com o registro nesses organismos profissionais estará "fazendo exercício ilegal da profissão e isso no Brasil é um caso de polícia". O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, rebateu as ameaças e assegurou que os médicos estrangeiros têm total "garantia jurídica" para trabalhar. Segundo Padilha, as críticas que permitam melhorar o programa são "bem-vindas", mas não "as ameaças, que são contra a saúde da população que não tem médicos". A contratação de estrangeiros foi anunciada em julho passado e se restringe às zonas mais remotas e pobres do país. Por meio do programa Mais Médicos foram abertas 15.460 vagas na rede de saúde pública e aproximadamente mil brasileiros se apresentaram para ocupá-las. O restante foi oferecido para médicos estrangeiros ou que se formaram fora do país. Até agora foram contratados 244 médicos graduados em outros países, dos quais 145 são estrangeiros e 99 são brasileiros que estudaram no exterior. Além disso, nesta semana foi anunciado um acordo com Cuba, assinado com base na Organização Pan-Americana da Saúde (OPS), por meio do qual 4.000 médicos da ilha trabalharão no Brasil. O salário oferecido pelo governo brasileiro é de R$ 10.000 por mês, mas no caso dos cubanos o governo da ilha receberá o salário por meio da OPS e pagará seus profissionais. O ministro Padilha admitiu que desconhece quanto cada médico cubano receberá pois isso depende do governo de Havana. Segundo dados divulgados na imprensa, o governo cubano, em casos similares, fica com mais de 50% do salário dos médicos, informação que não foi confirmada por nenhuma fonte oficial. EFE ed/dk













