Nos EUA, câncer já afeta mais as mulheres e os mais jovens
Casos estão aumentando entre as que têm menos de 50 anos (os chamados ‘prematuros’) e as que estão na faixa entre 50 e 64
Saúde|Roni Caryn Rabin, do The New York Times

Os norte-americanos estão sobrevivendo ao câncer em maior número, mas a doença está atingindo mais adultos jovens e de meia-idade e mais mulheres, segundo divulgou a Sociedade Norte-Americana do Câncer (ACS, em inglês) em 16 de janeiro. E, apesar da melhora geral nos níveis de supervivência, os negros e indígenas estão morrendo de duas a três vezes mais que os brancos.
Essas tendências representam uma alteração drástica em uma condição que sempre foi considerada consequência da idade e que até então afetava mais homens. Mostram o declínio das versões relacionadas ao tabagismo e de próstata entre os homens mais velhos e um crescimento desconcertante de ocorrências em pessoas nascidas a partir da década de 50.
O câncer é a segunda maior causa de mortes nos EUA, mas a primeira entre os que têm menos de 85 anos. A projeção do novo relatório é de que 2.041.910 novos casos ocorram este ano e que, destes, 618.120 resultem em morte.
Seis dos dez tipos de câncer mais comuns estão em alta, incluindo o de mama e o de útero, como também o colorretal entre pessoas com menos de 65 anos, e o de próstata, o melanoma e o pancreático. “Essa evolução é mais desfavorável para as mulheres. De todas as versões que estão em alta, algumas afetam mais os homens, mas o desequilíbrio está no fato de que o maior aumento se dá entre elas”, afirmou Rebecca L. Siegel, pesquisadora de saúde pública da ACS e principal autora do relatório.
As mulheres também estão sendo diagnosticadas mais jovens: os casos estão aumentando entre as que têm menos de 50 anos (os chamados “prematuros”) e as que estão na faixa entre 50 e 64. “Apesar do crescimento de casos de algumas versões precoces, como o colorretal e o de testículo, no geral a proporção é a mesma em homens com menos de 50 anos e menor entre os que têm entre 50 e 64 anos”, continuou ela.
O estudo define diversas outras tendências perturbadoras. Uma delas é a de alta de novos casos de câncer cervical (na cérvix, passagem entre o útero e a vagina) – amplamente considerado como tratável nos EUA – entre mulheres na faixa dos 30 aos 44 anos. Na verdade, sua incidência despencou desde meados dos anos 70, quando o papanicolau preventivo se popularizou, mas as enquetes recentes revelam que muitas estão adiando a visita ao ginecologista.
Uma pesquisa da Harris Poll feita em 2024 com mais de 1.100 norte-americanas para a empresa de tecnologia médica BD concluiu que 72% admitiram ter adiado uma consulta que incluiria o exame, e metade admitiu nem saber a frequência com que deveria fazer o exame preventivo. (A recomendação atual é meio confusa: deve ser feito a cada três anos a partir dos 21, ou combinado com o de papilomavírus humano, que pode causar câncer cervical, a cada cinco.)
Outro detalhe perturbador que teve início em 2021 foi que a incidência de casos de câncer pulmonar abaixo dos 65 anos foi maior nelas no que neles: 15,7 casos para cada cem mil mulheres contra 15,4 para cada cem mil homens. Na verdade, esse tipo de câncer está em declínio há mais de uma década, mas vem caindo mais rápido entre o público masculino porque elas começam a fumar mais tarde e demoram mais para largar.
Houve também uma alta no número de fumantes nascidos depois de 1965, quando o Ministério da Saúde dos EUA começou os alertas de que o cigarro causa câncer. Segundo a ACS, o tabagismo continua sendo a principal causa de mortes preveníveis nos EUA e será responsável por quase 500 mortes diárias em 2025, a maioria por câncer pulmonar. “Há uma grande preocupação em relação à contribuição da versão eletrônica, ou vape, para o agravamento dessa condição no futuro, considerando-se seu potencial cancerígeno e sua imensa popularidade”, disse o documento.
A incidência do câncer de mama também vem subindo lentamente há anos, chegando a 1% no ano entre 2012 e 2021, com os maiores aumentos entre as mulheres com menos de 50 anos, entre as norte-americanas hispânicas, as de ascendência asiática e as originárias das ilhas do Pacífico. Essa alta é impulsionada principalmente pela detecção de tumores localizados, por certos cânceres estimulados por hormônios e, em parte, por alterações nos padrões de fertilidade. A gestação e a amamentação no peito protegem contra ele, mas muitas norte-americanas estão adiando a gravidez – ou optando por nem ter filho(s).
Outros fatores de risco incluem a genética, o histórico familiar e o alto consumo etílico, hábito que cresceu entre as mulheres com menos de 50 anos; no caso das mais velhas, o fator de risco pode ser o excesso de peso. De acordo com a ACS, o câncer uterino é o único cuja taxa de sobrevivência caiu nos últimos 40 anos. A taxa de mortalidade do câncer hepático também subiu no público feminino, bem como a versão bucal em ambos os sexos.
A incidência do câncer pancreático está em alta para eles e elas há décadas – ou melhor, desde que os registros tiveram início, nos anos 30, quando eram cinco para cada cem mil homens e mulheres, chegando aos atuais 13 para cada cem mil homens e dez para cada cem mil mulheres. Entre as inúmeras modalidades, é a terceira que causa mais mortes – e, como ocorre com outras, acredita-se que a obesidade contribua para o aparecimento.
Pouco progresso se fez no entendimento e no tratamento do câncer de pâncreas, deixando muitos cientistas e médicos frustrados; geralmente, é diagnosticado já em estado mais avançado, com a taxa de sobrevivência de cinco anos de apenas 13%. “Precisamos avançar principalmente para saber o que leva à sua expansão, que tratamento pode reduzi-lo, como preveni-lo e como detectá-lo no início”, declarou Amy Abernethy, oncologista e uma das fundadoras da Highlander Health, cujo foco é acelerar a pesquisa clínica.
Alguns especialistas estão começando a reconhecer que a exposição ambiental pode contribuir para a evolução precoce da doença, além dos fatores tradicionais como estilo de vida, genética e histórico familiar. “A meu ver, o aumento não de um, mas de vários tipos de câncer entre pessoas mais jovens, especialmente entre as mulheres, sugere algo mais amplo do que variações na genética individual ou populacional. É inegável que aponta para a possibilidade de influência da exposição ambiental e do estilo de vida do país. As iniciativas públicas voltadas para a redução de comportamentos de risco focam as pessoas mais expostas e os mais idosos, que ainda respondem pela maior incidência”, disse Neil Iyengar, oncologista do Memorial Sloan Kettering Cancer Center.
Para Siegel, as alterações de estilo de vida e comportamento podem reduzir as chances de desenvolvimento de vários tipos de câncer. “Não sei se as pessoas percebem o nível de controle que têm sobre o nível de risco. Há muita coisa que podemos fazer, mas a mais importante é não fumar.”
Entre as outras: manter um peso saudável; não consumir bebida alcoólica, e, se o fizer, que seja com moderação; manter uma dieta rica em frutas, legumes e verduras e pobre em carnes vermelhas e processadas; praticar atividade física; fazer exames preventivos regulares. “São muitas coisas, mas as escolhas são individuais. Se for o caso, concentre-se em uma só, naquela que for mais fácil. Mesmo as pequenas mudanças fazem uma diferença enorme.”
c. 2025 The New York Times Company















