Recordar é viver: terapia usa lembranças do futebol para combater o Alzheimer
Revista simulou edições antigas e estimulou idosos a falarem sobre a paixão pela bola
Saúde|Eugenio Goussinsky, do R7

Em 3 de maio de 1969, José Macia tinha 34 anos e encerrava uma carreira de mais de 15 anos como jogador do Santos F.C. Era uma bela noite de quarta-feira e o cheiro de maresia que perfuma os jogos na Vila Belmiro começava a se misturar um pouco com o aroma de saudade. Pepe, como é conhecido, fazia sua última partida pelo clube. Mas, apesar da tristeza pela despedida, enquanto dava a volta olímpica acompanhado pela sua inseparável companheira, Lélia, ele já iniciava uma nova vida, em que teria anos de saúde plena baseado naquilo que o acompanhou sempre: as lembranças.
E são essas recordações que, além de uma vida regrada, o ajudam a ter uma qualidade de vida adequada e evitar doenças como a de Alzheimer. Hoje, aos 80 anos, ele se lembra de tudo: da data das partidas, das escalações, dos autores dos gols. E também dos momentos como treinador: que clube dirigiu, qual ano, quais jogadores trabalharam com ele...Tudo isso ajuda a manter a sua mente ativa.
— Lembrar de todos os acontecimentos me ajuda muito em relação ao Alzheimer. Para você ter uma ideia, do Santos, que tem pessoas capacitadas que trabalham no arquivo e no Memorial, sempre me ligam para tirar dúvidas sobre data de jogos, quem fez os gols e outros detalhes.
Desde o início como jogador, Pepe sempre teve o hábito de organizar as informações. Até agora, quando começa, ele não para: "no jogo do dia tal, entramos com Gilmar, Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. No intervalo, caiu uma chuva e eu gostava de jogar em campo molhado...
— Ainda como amador, anotava todos os jogos dos quais participava, com escalações, autores dos gols em fichas técnicas. Montei dois cadernos inteiros que foram doados para o Memorial de Conquistas do Santos. Me lembro bem de tudo principalmente porque gosto de futebol. Sempre gostei.

O exemplo do ex-jogador santista ilustra um novo tipo de atividade que começa a ganhar espaço na Espanha. Em parceria com a Universidade Autônoma de Barcelona, a revista Líbero montou quatro edições especias relativas aos anos 40, 50, 60 e 70, com imagens e textos simulando aquela época. O projeto é denominado Futebol versus Alzheimer — uma paixão contra uma enfermidade.
As edições foram usadas como terapia em Centros de Tratamento de Alzheimer em Barcelona e motivaram um grupo de idosos a recordarem momentos futebolísticos que os marcaram. Isso aumentou o ânimo deles e trouxe uma interação que foi muito benéfica também para o trabalho dos médicos e terapeutas.
O neurologista Mateus Trindade, do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que este tipo de atividade é válida por dois aspectos.
— Exercitar a memória é fundamental para aspectos cognitivos dos pacientes. Este contato com o futebol ajuda não só aqueles que já estão diagnisticados com a doença, como também contribui como prevenção para os que não não têm Alzheimer.
O médico ressalta que o fator emocional serve como um grande impulso nesta atividade.
— Toda a lembrança que é ligada a questões afetivas é mais fácil de vir à tona. Se a pessoa gosta do assunto, vai lembrar. Por essa carga emocional, o futebol, para aqueles que sempre foram apaixonados pelo esporte, essa iniciativa é positiva. A emoção é um fator que potencializa a prevenção da memória.
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Outro benefício, segundo o geriatra Paulo Camiz, do Hospital das Clínicas de São Paulo, é a interação social que o futebol propicia também para os idosos, bem ao estilo da velha frase "recordar é viver".
— De uma maneira geral, essa abordagem de lembranças futebolísticas é voltada para a socialização das pessoas. A depressão é um fator de risco para o Alzheimer. E a socialização não deixa de ser uma forma de prevenção da depressão. O futebol também tem um papel de socializar e combater esse fator de risco.
Descrita pela primeira vez em 1906 (pelo médico Alois Alzheimer), a doença de Alzheimer se caracteriza pelo declínio de neurônios responsáveis pela memória, com origem na parte do cérebro denominada hipocampo. Em geral, acomete pessoas com idade acima dos 65 anos e na maioria das vezes tem um caráter progressivo.
A causa exata ainda não é conhecida, com hipóteses ligadas a questões genéticas, de falta de certas proteínas ou neurotransmissores, entre outros. Os fatores ambientais também podem contribuir com a doença, que vai apagando as lembranças, tendo características de senilidade.
Mas Pepe está longe dessa condição. Termina o seu relato informando que, no dia em que se despediu, entrou nos minutos finais e sua equipe perdeu o jogo para o Palmeiras. E esnoba.
— Gol do Copeu, aos 15 do primeiro tempo.
As escalações? Deixei para que contasse na próxima entrevista, porque, certamente, disso ele não se esquecerá.
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