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"Tive anorexia aos 12 anos. Fazia de tudo para evitar a comida"

Sociedade cobra tanto os padrões, que aos 12 anos eu estava preocupada em não engordar

Saúde|Giorgia Cavicchioli, do R7

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Quando eu tive anorexia, nem sabia que esse era o nome
Quando eu tive anorexia, nem sabia que esse era o nome

Eu tinha 12 anos. A sociedade é tão dura que ainda no começo da adolescência eu já estava preocupada em não engordar. A idade era certa para brincar com amigos, mas estava preocupada com a minha forma física. Tinha medo ser gorda, em vez de curtir uma das mais belas fases da vida.

Quando eu tive a anorexia, nem sabia que esse era o nome. Eu nem sabia que isso existia. Eu não procurei como emagrecer em sites e em revistas. Em um triste dia, eu simplesmente parei de comer. Até hoje eu fico me perguntando quando isso aconteceu. Mas juro que não consigo lembrar. Não sei se é um mecanismo de defesa do meu organismo ou se eu simplesmente não lembro por fazer muito tempo.


Mesmo assim, penso e existem possibilidades: o bullying que eu sofria na escola (que naquela época nem tinha esse nome), o meu medo de crescer, a minha vontade extrema de querer agradar e os padrões impostos pela sociedade. Talvez seja um desses motivos que me fez ficar assim, talvez dois deles, talvez todos...

A grande questão não é procurar um motivo. O fato é que tenho que admitir que tive essa doença. Hoje, sei bem o que é. E ela é tudo menos frescura ou falta do que fazer, como dizem algumas pessoas. É algo tão incômodo e triste para quem tem a doença que é até difícil de explicar o que se sente. Mas vou tentar: eu, basicamente, tinha medo da comida. Medo mesmo. Eu me tremia toda, ficava desconfortável, queria que a hora da alimentação acabasse logo. Eu não queria estar lá. Eu me sentia sufocada, achando que ia morrer, achando que cada garfada que eu colocava na boca iria me matar.


Eu evitava qualquer situação em que a comida estivesse envolvida. Se tinha alguma festa de parente com brigadeiros, por exemplo? Eu não queria ir. Se meus pais me chamavam para almoçar? Eu não queria ir. Se todos se reuniam em volta da mesa para conversar sobre o dia e fazer a refeição? Eu fazia daquele momento um inferno. Eu, simplesmente, não comia. Já li casos de pessoas que comiam um tomate, ou uma alface. Eu não comia nada.

Quando eu ia pra escola, jogava o meu lanche na privada. Eu entrava em desespero só de saber que aquela comida estava na minha mochila e eu ia ter que comer em algum momento. Por isso, logo que eu chegava na escola, ia até o banheiro e jogava tudo na privada. Tudo mesmo. Ao dar descarga, aquilo me dava uma paz imensa. Eu pensava: “pronto! Me livrei do inimigo”.


Quando eu voltava da escola, minha mãe me dava o almoço. Eu esperava qualquer distração dela e jogava tudo na privada, no ralo da pia, dava tudo pra minha cachorra comer, jogava pela janela... Eu fazia de tudo para evitar a comida. Eu fingia que estava dormindo na hora da janta para não comer. Eu falava que não estava com fome, mentia que já tinha comido na casa de uma amiga... Tudo para não comer. Tudo para evitar esse contato. Quando era inevitável, eu sentava na mesa fazia um escândalo para comer. Meus pais, desesperados, pediam para que eu comesse um pouco. Eu não queria. Chorava, esperneava... Não queria.

Eu colocava comida entre os dentes para depois jogar tudo fora, eu cuspia a comida no papel para não ter que ingerir aquelas calorias “a mais”. Eu fazia as maiores loucuras possíveis e imagináveis para não comer. E essas são as coisas que eu lembro. Muitas coisas eu esqueci, muitas coisas eu tento não lembrar. Mas tem coisas que eu lembro bem claramente.


Não sei em que momento a minha família percebeu que era caso de vida ou morte. Mas eu tenho certeza que foram eles que me salvaram. Principalmente, minha mãe. Ela salvou uma vida. Foi uma heroína. Ela me deu à luz várias vezes: quando eu nasci, quando me levava para o hospital, quando me levava para a terapia, quando me acordava no meio da noite e falava: “você vai comer. Não adianta fazer escândalo. Você vai comer”. Sempre firme.

Lembro que, naquela época, eu não conseguia me expressar direito falando. Pensando nisso, eu e ela trocávamos cartinhas. A gente morava na mesma casa, mas eu escrevia para ela e ela me respondia. Ela foi minha verdadeira salvação. Ela me incentivava, dizia que tudo iria dar certo, que eu ia atingir o meu “peso ideal” (nunca esqueço esse termo) e que a gente iria comprar roupas novas juntas quando eu estivesse melhor.

As roupas eram outra questão. Elas ficaram tão largas que eu precisava colocar um alfinete para que elas não caíssem quando eu estivesse andando. Eu usava duas, três calças, uma por cima da outra para dar “volume”. Mesmo assim, eu me olhava no espelho e me achava gorda, enorme, nojenta. Eu chorava todos os dias me olhando no espelho. Pensava que sempre podia perder um quilo a mais, dois a mais, três a mais... “Assim vou ficar perfeita”, pensava eu. Só queria lembrar, de novo, que eu tinha 12 anos. 12, gente! Como uma sociedade pode exigir perfeição das mulheres de uma forma tão agressiva que uma menina pode ficar mais preocupada com o seu peso do que em brincar... em ser criança?

Eu cheguei a pesar 32 kg ainda com 12 anos. Foi o máximo de magreza que cheguei. Lembro que a psiquiatra me pesou e apareceu esse número. Ela me olhou bem nos olhos e disse: "você quer morrer?" Acho que foi aí que veio o “susto”. Minha mãe chorava e eu me sentia culpada por estar dando a ela aquele sofrimento todo.

E não foi só o peso que mudou: minha menstruação parou, meu cabelo começou a cair, eu não ia mais ao banheiro (até porque, como eu não comia, não tinha porque ir ao banheiro), minha pele ficou seca e eu parecia uma caveira andando. Eu, aos 12 anos, tomava remédios tarja preta para me curar dessa doença que veio acompanhada de uma depressão devastadora.

Mas naquele dia em que a psiquiatra me perguntou se eu queria morrer, eu decidi que não. NÃO QUERIA MORRER. Então, por conta própria, comecei a voltar a comer. Era difícil sentir aquele medo, aquela sensação terrível que eu sentia ao comer. Mas eu sabia que precisava. Eu sabia que eu tinha que comer aquela comida. Não pense que foi fácil. A cada dia era um escândalo novo, gritos, choros, socos, chutes... Mas eu comia. Eu fazia um escândalo, mas comia. E assim foi indo, dia após dia. Até que, ao atingir 49 Kg, minha médica me liberou do tratamento.

Naquele dia, eu e minha mãe saímos do consultório e fomos fazer o que tínhamos combinado na cartinha: a gente foi comprar roupa! Estávamos tão felizes e ao mesmo tempo emocionadas... Foi lindo. Não foi um momento de futilidade de “vamos às compras”. Foi um momento de vitória e de união com a minha salvadora.

Aos poucos, as coisas foram voltando “ao normal”. Eu fui me alimentando melhor, meu cabelo foi crescendo e a minha menstruação voltou. Nessa época, eu já tinha 13 anos. Não foi fácil. Foi praticamente um ano de luta. Mas vencemos. Digo vencemos, no plural mesmo, porque eu e minha família vencemos. A vitória foi um conjunto de ações: tratamento médico, força de vontade e ajuda das pessoas que realmente me amam.

Hoje, aos 25 anos, 13 anos depois do que aconteceu, eu posso dizer que tem momentos em que ainda me sinto insegura, mas não vou deixar nunca mais me afetar por um padrão de beleza que não existe, que eu nunca alcançaria. Agora, eu olho para mim e sinto orgulho do que sou. Mesmo com os meus defeitos e com as consequências da anorexia como, por exemplo, minhas estrias. Tem dias que olho e penso: “porque eu fiz isso comigo mesma? Olha só que coisa horrível que eu sempre vou ter na minha bunda”. Mas logo em seguida penso que elas mostram a minha história, mostram quem eu sou. E penso mais: penso que a culpa não foi minha. Que a sociedade exigiu demais de uma menina de 12 anos que não sabia como agir para agradar. Uma menina que queria ser aceita, que queria ser amada por pessoas que nunca a amariam, mesmo que ela fosse a perfeição em pessoa.

Hoje, dou valor ao que importa: a ser uma pessoa boa e amar quem me ama (família e amigos verdadeiros). Hoje, já adulta, eu vejo que, com ajuda do feminismo, eu me libertei dessa e de outras amarras que a sociedade me impôs.

Para você que está sofrendo com a anorexia hoje, fica aqui o meu recado: você é perfeito(a) como é. Seja forte! Não ligue para o que as pessoas falam de você. Elas vão falar de você de qualquer maneira. Ame quem te ama e seja uma pessoa boa. O resto é resto. Coma, brinque, ria, socialize com os amigos, aproveite a sua vida. Não perca a sua vida por conta dessa sociedade que vai te cobrar mesmo que você morra por conta da anorexia. Eles vão olhar você morto no caixão e vão falar: “nossa. Mas era uma frescura com comida. Era só comer que não morreria”.

Entende? A sociedade sempre vai te cobrar algo que você não pode ser. Se concentre no que você é e no que pode oferecer de bom para as pessoas. Mais uma vez: seja forte! Se apegue a coisas boas e a pessoas boas. Você vai vencer! Você vai ser feliz de novo. Hoje, eu estou viva e posso te falar isso: eu venci. Porque você não pode vencer também?

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