Premiê britânico ordenou cerco a revelações de Snowden, dizem fontes
A Grã-Bretanha diz que suas agências de segurança do país atuam de acordo com a lei
Internacional|Do R7

Dois assessores diretos do primeiro-ministro britânico, David Cameron, pressionaram o jornal The Guardian para entregar ou destruir arquivos digitais secretos fornecidos pelo norte-americano Edward Snowden, disseram fontes políticas nesta quarta-feira (21).
A revelação sobre o envolvimento de Jeremy Heywood e Kim Darroch, respectivamente chefe de gabinete e assessor de segurança nacional, coloca Cameron no centro da tempestade desencadeada pela resposta de Londres ao noticiário envolvendo Snowden, ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, hoje asilado na Rússia.
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Cameron, que está de férias no sudoeste da Inglaterra, não se pronunciou.
No começo de junho, o Guardian revelou, com base em informações vazadas por Snowden, a existência de um programa norte-americano de vigilância eletrônica e telefônica de grande escala que conta com a colaboração dos serviços secretos britânicos.
O Guardian, ativistas da liberdade de expressão e advogados especializados em direitos humanos dizem que o governo britânico cometeu uma agressão ao jornalismo independente quando pressionou o jornal a entregar o material dado por Snowden, e também ao deter, no fim de semana, um brasileiro que fazia conexão em Londres transportando outros arquivos digitais relativos ao mesmo caso.
O editor do Guardian, Alan Rusbridger, disse na terça-feira (20) que depois de publicar essas informações ele foi procurado por "um funcionário de altíssimo escalão que dizia representar as opiniões do primeiro-ministro" e por "figuras das sombras de Whitehall", uma alusão ao bairro governamental em Londres.
A Grã-Bretanha diz que suas agências de segurança atuam de acordo com a lei e que os vazamentos propiciados por Snowden são uma ameaça à segurança nacional.
Rusbridger disse que o jornal foi ameaçado de um processo judicial se não destruísse ou entregasse todos os arquivos fornecidos por Snowden. Dois agentes de inteligência posteriormente supervisionaram a destruição dos discos rígidos na sede do Guardian, mas o editor disse que isso não impedirá o jornal de continuar fazendo revelações, já que havia cópias no exterior.
O principal jornalista envolvido nas revelações, Glenn Greenwald, vive no Rio de Janeiro. O companheiro dele, David Miranda, passou nove horas detido por autoridades britânicas no aeroporto Heathrow, em Londres, e teve confiscados os aparelhos eletrônicos nos quais havia armazenado arquivos entregues a ele por uma emissária de Snowden em Berlim.
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Na terça-feira (20), a Casa Branca disse que não comentaria a destruição do material entregue por Snowden, mas o porta-voz John Earnest disse que seria inimaginável que autoridades dos EUA destruíssem discos rígidos de uma empresa de comunicação para proteger a segurança nacional.
"É muito difícil imaginar um cenário em que isso fosse apropriado", disse ele.
Várias fontes disseram que Heywood e Daroch estavam entre as autoridades que mantiveram contato com o jornal. Heywood é o mais graduado funcionário público da Grã-Bretanha, e principal assessor administrativo de Cameron; Darroch é o principal conselheiro do premiê para questões de segurança nacional.
"O primeiro-ministro pediu ao chefe de gabinete que lidasse com essa questão, isso é verdade", disse uma fonte à Reuters.
"Não se surpreenda de ouvir que (Darroch) também tem envolvimento nisso" afirmou outra fonte.
A secretária do Interior, Theresa May, defendeu as ações do governo. "Acho que as questões de segurança nacional são corretamente tratadas no nível apropriado dentro do governo, e não acho surpreendente que alguém num altíssimo escalão dentro do governo se envolva nessa questão em particular", afirmou ela à BBC.
A advogada de Miranda, Gwendolen Morgan, disse que haverá uma audiência na Alta Corte de Londres na quinta-feira para decidir sobre o pedido de liminar urgente para evitar que autoridades britânicas examinem todos os dados apreendidos de seu cliente e compartilhem com terceiros.
"O objetivo desses procedimentos é proteger a confidencialidade do material jornalístico sensível que foi apreendido", disse Morgan no pedido apresentado ao tribunal.
O Brasil disse ao governo britânico que considerava "injustificável" a detenção do seu cidadão, enquanto Miranda anunciou que entraria com um processo contra a polícia e o governo britânicos acusando-os de abuso de poder no combate ao terrorismo para se apropriarem de material jornalístico sensível.
A opinião pública está dividida sobre o assunto. Uma pesquisa divulgada pela YouGov nesta quarta-feira mostrou que 66% dos entrevistados apoiavam o uso dos poderes pela polícia para deter Miranda, mas 44% acreditavam que a lei foi usada de forma inadequada.
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