Refugiados da América Central sofrem violência em dobro durante passagem pelo México
Relatório da MSF, divulgado nesta quinta-feira (11), afirma que região vive crise humanitária
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Para fugir da violência, parte da população de países da América Central acaba sendo vítima da violência, principalmente no México, para onde a maioria vai em busca de refúgio nos Estados Unidos. O relatório Forçados a Fugir do Triângulo Norte da América Central, uma Crise Humanitária Esquecida, divulgado nesta quinta-feira (11) pela ONG MSF (Médicos sem Fronteiras), mostra que 68,3% das pessoas entrevistadas, que foram forçadas a sair de Guatemala, Honduras e El Salvador em função dos altos índices de violência que assolam estes países, disseram ter sofrido violência durante a passagem pelo México.
Isso tudo depois de terem sido obrigadas a deixar sua terra natal muitas vezes às pressas, desesperadas em busca da sobrevivência, temerosas em serem os próximas alvos de ataques brutais, nesse clima de verdadeira guerra civil não declarada. A organização de assistência considera que a região vive uma crise humanitária.
Pelas estatísticas da MSF, que construiu o estudo baseado em entrevistas e números oficiais de entidades médicas e autoridades locais, 39,2% dos 470 entrevistados citaram os ataques diretos, ameaças - a eles e a suas famílias -, extorsão e recrutamento forçado por gangues criminosas como as principais razões para deixar seu país. Neste cenário, cerca de 500 mil pessoas ultrapassam as fronteiras do México anualmente, segundo dados do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) do país.
A cada 10 refugiados atendidos pelas equipes de saúde mental de MSF em 2015 e 2016, nove sofreram violência em seus países de origem ou durante a rota migratória para o México e os Estados Unidos. No levantamento, 24% das pessoas atendidas por médicos após passarem pelo México e Estados Unidos tiveram como causa dos problemas de saúde lesões físicas e traumatismos causados por agressões intencionais.
E quando eles chegam aos destinos, quase sem assistência médica, psicológica e vulneráveis à violência sexual, muitas vezes são deportados ou detidos, em situações que apenas os deixam mais expostos à violência, segundo declaração do coordenador geral da MSF no México, Bertrand Rossier, no relatório.
— Tentativas de conter a imigração reforçando as fronteiras nacionais e aumentando as detenções e as deportações, como temos visto no México e nos Estados Unidos, ignoram a crise humanitária e não coíbem o tráfico e o contrabando. Essas estratégias têm consequências devastadoras na saúde e na vida das pessoas em deslocamento.
Proteção inadequada
Para o professor Marcelo M. Valença, especialista em Direito Internacional da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), essa questão da violência sofrida pelos refugiados é decorrente também da crise social pela qual o México passa. Neste caso, seria um tipo distinto de rejeição, se comparada a países da União Europeia que, apesar das dificuldades, mantêm um padrão de vida mais alto e no entanto também não aceitam a chegada de imigrantes.
— Não tenho os detalhes do estudo do MSF, mas imagino que esta violência pode ser analisada sob vários aspectos. Um deles é a presença do crime organizado no México, que pode dirigir sua violência a pessoas mais enfraquecidas, como os deslocados que chegam desamparados. Também as tensões sociais no México podem influenciar, com a presença de comunidades nativas e de outros segmentos que já buscam melhores condições junto ao governo. Com o aumento de uma população carente, muitos locais temem enfrentar ainda mais dificuldades. São dois tipos de violência que se juntam: a que causou a fuga dos deslocados e a que existe no país para onde eles se dirigem.
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Um fator que dificulta, segundo o relatório da MSF, é que estes cidadãos são considerados migrantes econômicos e ficam sujeitos a uma legislação que não acolhe o real problema - o da fuga da violência -, que torna crucial a necessidade da saída, conforme afirma Rossier.
— Certamente há pessoas que deixam esses países em busca de melhores oportunidades econômicas, mas a fotografia que emerge do nosso relatório é a de pessoas aterrorizadas lutando para salvar suas vidas e as de suas famílias.
Diante deste drama, a MSF exortou as autoridades destes países a garantirem alternativas à detenção, respeitando o conceito da não repatriação. A recomendação é para que, de maneira urgente, os governos busquem dar a adequada proteção a essas pessoas, incluindo o asilo e aumento de cotas de relocação e reunificação familiar, para que elas não paguem em dobro pelo fato de serem vítimas.










