Erros na perícia viram munição da defesa para absolver Gil Rugai

Desaparecimento de prova fundamental e erro em vídeo foram explorados pelos advogados 

Primeiro dia do julgamento de Gil Rugai teve quase nove horas de duração
Primeiro dia do julgamento de Gil Rugai teve quase nove horas de duração Eduardo Enomoto/R7

O desaparecimento de uma peça-chave do processo e um erro no vídeo beneficiaram a defesa do ex-seminarista Gil Rugai, acusado de matar a tiros o pai e a madrasta em março de 2004, durante o primeiro dia do julgamento do caso no Fórum Criminal da Barra Funda.

Os erros vieram à tona durante o depoimento do perito Adriano Yssamu Yonanime, o último desta terça-feira (19). Ele fazia parte de uma equipe de peritos que preparou o laudo do Instituto de Criminalística na época do crime.

O primeiro questionamento feito pelos advogados de defesa, Marcelo Feller e Thiago Anastácio, foi em relação à marca que teria ficado na porta do cômodo onde estava o pai do réu, Luiz Carlos Rugai, antes de ser baleado.

O suposto assassino teria dado um chute com o pé direito e arrombado a porta. Porém, o pedaço da estrutura com a marca da pisada sumiu e, até o final do primeiro dia do julgamento, não havia chegado ao Fórum Criminal da Barra Funda.

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O perito Ricardo Molina, contratado pela defesa do ex-seminarista para fazer um laudo particular em relação a provas apresentadas pela acusação, classificou o laudo como uma “piada”.

— O pedaço da porta onde estava o pé desapareceu. Como nós vamos fazer a contraprova? A defesa já pediu duas vezes e ninguém achou esse material.

Em seu depoimento, Yonanime reafirmou que a peça foi enviada. Segundo o assistente de acusação, Ubirajara Mangini, o desparecimento terá que ser investigado.

— Isso vai ter que se verificar no fórum internamente. Como é que foi recebido isso, porque o IC [Instituto de Criminalística], muitas vezes, manda para uma delegacia que efetivamente encaminha para cá.

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Vídeo

Outro problema revelado pela defesa durante o depoimento do perito Yonanime foi o vídeo que integra o laudo pericial do caso. Na simulação, é feita uma sobreposição do pé direito do Gil Rugai com um sapato de pé esquerdo, calçado que também seria do réu.

Na animação, a defesa mostrou a dificuldade de colocar o pé dentro do calçado já que eles estavam trocados.

O erro foi reconhecido pelo perito Adriano que citou a máxima "errar é humano". Ele ainda disse que a "agonia para confeccionar o laudo" teria contribuído para o fato.

— A gente trabalhou demais em cima desse laudo. A equipe toda desgastada. Então isso pode ter provocado esse deslize.

Questionada sobre o vídeo denominado pelo IC de “realidade virtual”, que estaria anexado ao processo desde 2004, a acusação minimizou o erro. De acordo com Ubirajara, ele não viu a animação.

— Na verdade, nós não nos preocupamos com a realidade virtual, nos preocupamos com o laudo em si. E o laudo tecnicamente comprova que aquela pisada é compatível com o pé do Gil Rugai.

Para ele, a perícia escrita foi bem feita.

— O laudo elaborado pelos peritos está perfeito na medição do pé, da marca.

Ainda segundo Ubirajara, a certeza que se tem até agora é que o pé de Gil Rugai é compatível com a marca deixada na porta.

Porém a “perfeição” do laudo escrito defendido pela acusação foi criticada pela defesa. Os advogados do réu informaram que em uma das partes do documento existe uma imagem que mostra o sapato de um lado e o pé do outro sem fazer uma sobreposição entre eles.

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A comparação teria ficado mais prejudicada com o erro no vídeo da realidade virtual onde a sobreposição foi feita, só que de forma trocada, com o pé direito do Gil Rugai em um sapato de pé esquerdo.

Para o advogado de defesa, Marcelo Feller, episódios como esse mancham a credibilidade do IC.

— Essa sucessão de erros é que traz o Gil Rugai a julgamento. Apontando provas inequívocas que mediante um breve questionamento caem.