Profissões do futuro: mulheres ocupam apenas uma de cada cinco vagas no Brasil
Pesquisa indica que elas estão sub-representadas nas áreas tecnológicas em expansão e concentradas em funções sob risco
Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

As transformações tecnológicas e digitais estão redesenhando o mercado de trabalho, mas a presença feminina nas áreas mais promissoras da economia ainda é reduzida no Brasil.
Um estudo da Fiemg (Gerência de Economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) mostra que as mulheres ocupam apenas 20,7% das chamadas “profissões do futuro”, enquanto os homens representam 79,3% dos vínculos formais nessas ocupações.
O rol de ocupações inclui áreas com grande potencial de crescimento, como especialistas em big data, engenheiros de fintech, profissionais de inteligência artificial e machine learning, desenvolvedores de software e especialistas em gestão de segurança digital.
Segundo o levantamento, só 0,6% das mulheres inseridas no mercado formal trabalham nessas ocupações, enquanto o percentual chega a 1,8% entre os homens.
Para a coordenadora da Gerência de Economia da Fiemg, Juliana Gagliardi, o cenário é resultado de fatores estruturais que ainda limitam a entrada feminina nos setores mais tecnológicos da economia.
“As profissões do futuro estão concentradas em áreas intensivas em tecnologia, dados, software e inteligência artificial, setores que exigem formação específica e trajetória profissional mais técnica. Como a entrada feminina nessas áreas já é historicamente menor, a oferta de mão de obra feminina para esses postos também acaba sendo reduzida”, analisa.
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Postos ameaçados
A especialista também destaca que há um efeito de trajetória ocupacional que influencia essa desigualdade.
“Muitas mulheres já estão inseridas em funções administrativas, de apoio e atendimento, que exigem outro tipo de qualificação e acabam gerando menor mobilidade para áreas tecnológicas”, explica.
Além de terem pouca presença nas profissões em expansão, as mulheres estão concentradas em ocupações com maior risco de retração.
Atendentes de serviços postais, caixas bancários, operadores de digitação e de caixa, além de assistentes administrativos, estão entre as funções com o declínio mais acelerado projetado até 2030.
De acordo com o estudo, 16,8% de toda a força de trabalho feminina formal está empregada nessas ocupações — mais que o dobro da proporção observada entre os homens, que é de 6,7%.
Ampliação de vulnerabilidades e desigualdades
Para Gagliardi, essa configuração cria uma dupla vulnerabilidade para as mulheres no mercado de trabalho diante das transformações tecnológicas.
“Quando a automação e a digitalização avançam sobre funções rotineiras, administrativas e operacionais, a tendência é haver perda de postos e transições ocupacionais mais difíceis para quem está concentrado nessas atividades. Como as mulheres são maioria nessas ocupações, o choque recai de forma desproporcional sobre elas”, constata.
Segundo a economista, esse cenário pode impactar diretamente a renda feminina e ampliar desigualdades. “Isso pode gerar maior rotatividade, mais migração para ocupações de menor remuneração ou maior instabilidade, e até aumento da informalidade. Como consequência, a desigualdade de renda entre homens e mulheres pode se aprofundar.”
A sub-representação feminina nas áreas tecnológicas também pode afetar o crescimento econômico do país. “Do ponto de vista econômico, isso significa usar mal uma parcela importante do talento disponível no país. Se os setores mais promissores são justamente aqueles ligados a dados, software, IA e segurança digital, e as mulheres participam pouco deles, o Brasil reduz sua base de profissionais capazes de atender à expansão dessas atividades”, avalia.
Para a especialista, ampliar a participação das mulheres nas áreas de tecnologia é fundamental para aumentar a competitividade da economia brasileira. “Quando metade da população participa pouco dessas áreas, o país fica com menor diversidade de competências, menor oferta de profissionais qualificados e menor potencial de inovação nas empresas”, observa.
Políticas de qualificação e requalificação
Gagliardi defende que políticas de qualificação e requalificação profissional podem ajudar a reduzir essa desigualdade. “É necessário investir em programas de capacitação, incentivo à formação em STEM e ações de requalificação profissional para reduzir a desigualdade de gênero e preparar a força de trabalho para as mudanças em curso no mercado.”
📌 Formação em STEM é uma abordagem educacional e profissional que integra ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
Segundo ela, essas iniciativas devem priorizar tanto a entrada de mais mulheres nas áreas tecnológicas quanto a transição profissional daquelas que hoje ocupam funções mais vulneráveis à automação.
“Essas ações devem focar não apenas em atrair e capacitar mais mulheres para as áreas tecnológicas em expansão, mas também em garantir ferramentas e oportunidades de transição profissional contínua para aquelas que hoje ocupam funções de apoio e atendimento ameaçadas de retração”, conclui.
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