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Açaí e biquíni brasileiros conquistam o mundo por meio de pequenas e médias empresas

Com ajuda da internet, empresários têm buscado clientes estrangeiros para fugir da crise

Economia|Fernando Mellis, do R7

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Exportações em fevereiro tiveram alta de 4,6%, em relação a 2015
Exportações em fevereiro tiveram alta de 4,6%, em relação a 2015

Em lojas do Havaí, turistas e norte-americanos compram biquínis fabricados no Rio Grande do Sul. Na Austrália, suco de açaí da Amazônia é vendido em supermercados. Hoje, as exportações desses produtos, famosos em todo o mundo, dependem cada vez menos das grandes corporações.

Dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), de 2014, mostram que 55,4% do açaí é enviado para fora do País por pequenas e médias empresas.


Quase 84% dos exportadores de roupas de banho também são empresas do mesmo porte.

Essa conquista de mercado nos últimos anos tem sido possível com ajuda de uma ferramenta que é barata e está presente em todo o planeta: a internet.


As exportações brasileiras fecharam fevereiro com alta de 4,6%, em relação ao mesmo mês de 2015. Pela primeira vez em 17 meses, esse resultado foi positivo e a balança comercial registrou superávit de US$ 3 bilhões — o maior para fevereiro em toda a série histórica, iniciada em 1989.

Dona da Zabelê Modas, a gaúcha Carolina Coelho enfrentava muita dificuldade até meados de 2010. O negócio de biquínis no mercado nacional tinha tudo para não dar certo.


— Eu estava até então trabalhando com o mercado nacional, ia a feiras e vendia para lojistas. Mas era muito difícil. Chegou uma hora que eu tinha mais cobrança para fazer do que trabalho mesmo. Eu comecei a ter muito prejuízo por causa da inadimplência. Aí que pensei que exportar poderia ser uma alternativa melhor.

Sem conhecer os processos e a parte burocrática, ela conta que procurou agências de exportação, mas não se sentiu segura.


— A coisa de exportar parecia um bicho de sete cabeças. Eles falavam em radar, em despachante, um universo muito complicado.

Ela conheceu, então, um site voltado para os pequenos e médios empreendedores que desejam importar ou exportar. Por meio do Alibaba, Carolina mudou completamente de mercado.

— Hoje, 90% do meu faturamento é exportação. Os Estados Unidos, principalmente Havaí e Miami, representam 60% das vendas. Os outros 40% são, Taiti, Israel, Austrália, Chile e Uruguai. Mas já vendi até para o Oriente Médio. Nem sabia que usavam biquíni lá.

Fernanda Stefani (foto) envia ingredientes típicos do Norte do Brasil para mais de 30 países
Fernanda Stefani (foto) envia ingredientes típicos do Norte do Brasil para mais de 30 países

“Made in Amazônia”

Desde 2009, quando fundou a 100% Amazônia, Fernanda Stefani já tinha como objetivo exportar. Açaí, cupuaçu e outras frutas da região Norte são enviadas, em forma de polpa, suco, óleo ou manteiga, para mais de 30 países. A empresa comercializa até cervejas à base de ingredientes amazônicos.

— A Amazônia é muito longe. Mas tem um lugar que a gente está na mesma distância de qualquer pessoa neste planeta, que é a distância do mouse. Desde o começo da abertura da empresa, a gente viu a necessidade de ter uma estratégia de internet.

A 100% Amazônia não tem fábricas. A produção é feita por meio de cooperativas contratadas, conforme explica Fernanda.

— A gente tem um grupo de pessoas na empresa que são especialistas em várias áreas, que são químicos, engenheiros de alimentos. Trabalhamos com cooperativas e com agroindústrias de cooperativas que produzem com padrões internacionais de segurança alimentar, de farmacologia. Fechamos contrato e algumas vezes financiamos as produções.

Hoje, a empresa tem armazéns em São Paulo e na Bélgica, que funcionam como centros de distribuição. O açaí, carro-chefe do negócio, sai da Amazônia, é enviado para o Sudeste e depois exportado.

— Temos uma área que faz marcas próprias de clientes. Hoje são oito marcas próprias de polpa de açaí, em Israel, Inglaterra, Estados Unidos, Chile, Peru, Austrália, estamos começando uma nova em Cingapura e este ano ainda no Vietnã.

Negociação virtual

No Alibaba — plataforma de negócios entre empresas, para venda no atacado —, estão presentes hoje mais de 2 milhões de brasileiros. Eles podem comprar e vender de cerca de 50 milhões de empresas em todo o mundo. Segundo o diretor de marketing e negócios para a América Latina do Alibaba, Alex Tsai, algo assim não existia há dez anos.

— No mercado da América Latina não tem outro tipo de plataforma focada e apoiando pequenas e médias empresas. Grandes empresas não precisam disso. Tradicionalmente, os empresários têm que ir para feiras, para conhecer novos clientes. Antes tinha que viajar para conhecer o fornecedor. Mas com a ideia do comércio eletrônico, tudo isso passa a ser possível online. As grandes empresas vão para feiras, associações, câmaras. Mas o pequeno empresário, só tinha a busca no Google.

Um dos grandes desafios da plataforma é a confiança. Carolina conta que os compradores estrangeiros pagam antecipadamente, o que aumenta o medo de que algo dê errado.

— Por pagarem antecipadamente, eles ficam em cima, querem saber quem eu sou, se eu existo mesmo. Tem um cliente de Israel que me ligava até de madrugada.

Na tentativa de vencer esse receio, o Alibaba aposta em um serviço que funciona como uma garantia. Se o cliente não estiver satisfeito com a qualidade do produto ou não o receber, será ressarcido.

O MDIC destaca que "embora sua utilidade seja inegável, o Alibaba serve apenas à comercialização dos produtos. Além da comercialização, para que uma empresa participe do comércio exterior são necessárias outras ações, como: inteligência comercial, adequação de produtos e processos, promoção comercial, financiamento, etc.". 

O ministério criou o portal Invest & Export Brasil, onde os empresários podem encontrar informações e ferramentas para exportar. Por exemplo, a Vitrine do Exportador reúne cerca de 20 mil exportadores de bens. Compradores estrangeiros podem entrar em contato por meio do site.

Crise

O mau momento da economia brasileira é, na visão de Tsai, um estímulo para que empreendedores busquem clientes em outros países.

— Normalmente, os empresários brasileiros são mais focados no mercado interno. Mas nesses últimos dois anos, eu vi claramente essa troca de pensamento. O Brasil está em crise, mas ele é só um país no mundo inteiro. Por exemplo, a China tem 1,2 bilhão de pessoas. É um enorme mercado.

De olho nesse potencial, o Alibaba fechou uma parceria com o Sebrae-SP, com objetivo de estimular pequenos e médios empresários a exportar.

— Se você olha para o Brasil, apesar da crise, os números do comércio exterior, do comércio eletrônico, tudo isso está crescendo. [...] O Alibaba pode oferecer as ferramentas e serviços para empreendedores que desejam exportar. O Sebrae, como instituição focada em capacitação e consultoria, dá o conhecimento. Eles sabem o que uma empresa pequena vai ter que fazer para exportar.

Na Zabelê, Carolina diz que exportar se tornou algo ainda mais atraente nos últimos anos. Ela conta que conseguiu aumentar a competitividade graças à alta do dólar.

— O câmbio me ajudou muito agora. Quando o dólar estava a R$ 2, chegou uma época em que a nossa economia já estava começando a ter inflação [alta], o preço dos tecidos subia todo ano e comecei a ficar apertada, não conseguia oferecer preço bom. Meus clientes estavam migrando para comprar na China. Eu não podia pagar para a pessoa usar o meu biquíni. Mas agora, com o câmbio favorável, eu consegui manter meu preço em dólar sem repassar os custos. Eu faço promoções e consigo chegar lá no preço do chinês.

O MDIC acrescenta que a alta da moeda-norte americana tem incentivado as empresas a exportar e que é uma oportunidade de aumentar a escala de produção e reduzir as oscilações na cadeia produtiva. “O câmbio promove sim uma conjuntura favorável às exportações, mas a empresa deve aproveitar a oportunidade para consolidar a prática da atividade exportadora. Ganha o empresário, porque tende a auferir lucros maiores e a oferecer produtos mais sofisticados; e ganha o País, na medida em que essa atividade gera renda e empregos adicionais”, acrescenta a pasta.

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