Dólar fecha a R$ 4,90, queda de mais de 1% contra o real, após anúncio de juros dos EUA
Moeda americana chegou a quase R$ 5,04, mas despencou depois de o Fed descartar aumento de 0,75 ponto percentual no futuro
Economia|Do R7

A cotação do dólar sofreu uma reviravolta na tarde desta quarta-feira (4) e fechou em queda de 1,26%, a R$ 4,9020, diferença de 13,6 centavos abaixo do pico do pregão, quando chegou a R$ 5,0377. A mudança de rumo foi motivada pelo anúncio da política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, que jogou um balde de água fria nas apostas mais agressivas do mercado.
Primeiramente, o presidente da instituição, Jerome Powell, disse que o Fed elevou sua taxa básica de juros para 0,5 ponto percentual. Depois, ele afirmou que as autoridades de política monetária não consideram intensificar o aperto nas próximas reuniões, com um aumento de 0,75 ponto percentual dos juros, como temiam alguns agentes financeiros.
A fala aliviou instantaneamente a maioria dos mercados de ativos arriscados do mundo, que tendem a sofrer em ambientes de poucos estímulos e de liquidez reduzida nos Estados Unidos.
O início da fala de Powell, por volta de 15h30 (hora de Brasília), marcou o pico da sessão no mercado de câmbio local, momento em que o dólar saltou 1,47%, cotado a R$ 5,0377. Às 15h55, logo após a entrevista do banqueiro, a moeda despencou em questão de minutos.
A divisa americana à vista manteve as perdas pelo resto do pregão, chegando a R$ 4,8930 na mínima do dia, baixa de 1,44%, mas fechou em queda de 1,26%, a R$ 4,9020.
Nesse patamar, o dólar pode voltar a ficar abaixo de um nível técnico importante, sua média móvel linear de 50 dias (R$ 4,9006), pela primeira vez desde o dia 25 de abril.
Depois que Powell aparentemente fechou a porta para um ajuste de 0,75 ponto percentual nos juros, a reversão dos ganhos acompanhou forte aceleração no recuo do índice do dólar no exterior, em linha com a baixa dos rendimentos da dívida soberana americana. Os mercados de ações, por sua vez, aproveitaram a notícia, com os principais índices de Wall Street fechando em alta de cerca de 3% cada um, e o Ibovespa ganhando mais de 1,5%.
"O Fed começa o discurso 'hawk', mas entrega as 'pombas' no final", disse em post no Twitter Sérgio Machado, sócio e gestor da Trópico, usando dois termos comuns no jargão da política monetária: "hawk" (falcão, em inglês) é empregado para descrever um posicionamento mais duro no combate à inflação, e "dove" (pomba) remete a uma postura mais leniente, flexível.
Dessa forma, o "mercado vai do inferno ao paraíso, dólar vem de mais de 1% de alta para mais de 1% de baixa. Vamos aproveitar enquanto dura", completou o gestor.
Gustavo Arruda, estrategista da RB Investimentos, disse que, apesar da sinalização de que um ajuste de 0,75 ponto nos juros esteja fora de cogitação por ora, o discurso de Powell sugere que os custos dos empréstimos irão para um patamar mais elevado do que está sendo precificado atualmente pelos mercados, dada a preocupação com a aceleração da inflação.
A decisão de política monetária desta quarta-feira ainda representou uma guinada mais agressiva do Fed no combate à alta dos preços, pois, em março, o banco havia elevado os juros em apenas 0,25 ponto percentual. O endurecimento já esperado de sua postura vem em um momento em que a inflação americana roda às taxas mais altas em 40 anos.
A perspectiva de custos de empréstimos mais altos nos EUA tende a beneficiar o dólar; na semana passada, por exemplo, essas apostas impulsionaram seu índice ao maior patamar em mais de 20 anos. O mercado local também sente esse efeito: a moeda americana interrompeu a sequência de perdas mensais consecutivas em abril, quando saltou 3,8% ante o real.
O dólar ainda cai 12% no acumulado de 2022, depois de registrar, no período de janeiro a março deste ano, seu pior desempenho trimestral desde meados de 2009. Boa parte dessas perdas foi alimentada pelo amplo diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, já que isso torna a rentável dívida local atraente para agentes estrangeiros.
Juros no Brasil
A Selic (taxa básica de juros brasileira) saiu de uma mínima histórica de 2%, atingida durante a pandemia, e está atualmente em 11,75%. Nesta quarta-feira, após o fechamento dos mercados, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve anunciar aumento de 1 ponto percentual na taxa, a 12,75%.
Com um ajuste dessa magnitude praticamente certo, "a dúvida fica para os próximos passos de política monetária" do BC, escreveu em blog Dan Kawa, diretor da TAG Investimentos. "Creio que o BCB deixará a porta aberta [para mais altas de juros] e se dará flexibilidade neste sentido, diante das surpresas ainda negativas de inflação."
Na B3, às 17h09 (hora de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento caía 1,11%, a R$ 4,9475.











