Economista francês diz que "dinheiro prejudica a incerteza do esporte"
Economia|Do R7
O economista francês Didier Primault, co-diretor do Centro de Economia e de Direito do Esporte de Limoges (CDES), disse à AFP que investimentos às vezes "irracionais" de bilionários estrangeiros no futebol europeu criam um desequilíbrio no mercado, colocando em perigo a "gloriosa incerteza do esporte".
- Podemos comparar investidores como os russos Roman Abramovitch, dono do Chelsea, Dmitri Rybolovlev (Mônaco), ou o indonésio Erick Thohir (Inter de Milão)?
"Existem motivações distintas. Geralmente, são empresas, países ou indivíduos que buscam ganhar legitimidade e estabelecer uma nova imagem na Europa ocidental. Às vezes, trata-se de uma forma de tornar fortunas adquiridas de forma duvidosa em dinheiro respeitável ou até de disfarçar lavagem de dinheiro. Mesmo assim, todos têm ambição esportiva. Com o Málaga, o Catar tinha a mesma lógica que Abu Dhabi com o Manchester City na Inglaterra: injetar muito dinheiro para atrapalhar a hegemonia do Real e do Barça. Com o PSG, eles estão usando a imagem de Paris por um preço que saiu até barato, embora tenham investido valores astronômicos na compra de jogadores. Também existem investimentos mais 'clássicos'. Investidores americanos compraram o Liverpool ou o Manchester United para fazer dinheiro".
- Apesar de investir milhões em contratações, o Chelsea não conseguiu causar uma revolução da hierarquia esportiva na Inglaterra e na Europa. Será que isso mostra que o dinheiro não é tudo no futebol?
"É verdade que o Chelsea não conseguiu se impor de vez como o clube de referência na Inglaterra e na Europa. Mesmo assim, o fato de um clube ser controlado por capital estrangeiro induz um certo desequilíbrio. A entrada maciça de dinheiro tem um efeito imediato sobre o mercado. A primeira coisa que os novos proprietário fazem é comprar os melhores jogadores por um preço muito alto. Isso cria uma inflação e às vezes um desequilíbrio esportivo em relação a outros clubes que não podem acompanhar esse ritmo de investimentos. Clubes tradicionais como Celtic, Ajax, Lisboa ou Lyon não têm como ser competitivos na Liga dos Campeões. Não existe mais a 'gloriosa incerteza do esporte'".
- Como explicar o fato de alguns investirem em clubes frágeis economicamente?
"O investimento sem retorno em clubes de futebol não é novidade. Na Itália, a Fiat carrega o Juventus nas costas desde sempre. Há geralmente uma grande diferença entre a importância do investimento e o retorno. O fenômeno mais recente é a tendência de injetar montantes astronômicos muito rápido e de forma irracional. Começou na Inglaterra, com o Chelsea em 2003 e o Manchester City em 2008, e acabou se estendendo a toda a Europa, com o Málaga ou o PSG. Sempre há uma lógica econômica: a ideia é fazer dinheiro ou vender o clube quando passa a ser mais valorizado".
- Qual é o futuro destas práticas com a perspectiva da aplicação das regras do 'Fair Play' (jogo limpo) financeiro da Uefa?
"Acho muito difícil investidores continuarem a injetar tanto dinheiro nos clubes sem desrespeitar as regras do Fair Play financeiro. Se eles investirem apenas na contratação de jogadores e no pagamento de salários, vão acabar ficando fora do eixo. É preciso aumentar as receitas geradas pelo futebol. Na França, o PSG é capaz de fazer isso, mas parece mais complicado para o Mônaco. A justiça europeia terá um papel fundamental na aplicação do Fair Play financeiro. Se decidir que trata-se de uma violação do direito à concorrência da UE, o 'fair play' financeiro está morto".
- Alguns países, como a Alemanha, proíbem que investidores privados detenham mais de 49% das ações de um clube. Esta regra está ameaçada?
"A Alemanha, de fato, está desrespeitando o direito europeu à concorrência. Porém, eu ficaria preocupado se resolverem prejudicar o único campeonato europeu que dá lucro, com a maior média de público do mundo. Incomodar a Alemanha não deve ser uma prioridade para a UE".
Declarações colhidas por Françoise CHAPTAL
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