Pouco investimento e trabalhando em casa: saiba como dois brasileiros iniciaram o próprio negócio
Pedro escolheu o caminho das microfranquias; Já Luciana está desenvolvendo a própria marca
Economia|Diego Junqueira, do R7

Quando o governo federal acabou com a isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) no setor automobilístico em janeiro de 2015, Pedro Américo Espanhol, de 31 anos, entendeu que estava chegando ao fim sua carreira como vendedor de carros.
Depois de tentar se firmar como motorista de caminhão por um ano, ele foi encontrar ocupação e independência financeira após investir R$ 11 mil em uma franquia de manutenção de piscinas, na zona norte de São Paulo.
Já a revisora de texto Luciana Pereira, de 36 anos, moradora do Gama (DF), se surpreendeu quando uma decepção pessoal — a perda de um livro de receitas — provocou uma mudança em sua vida.
Ao iniciar um blog para superar as velhas receitas perdidas, Luciana começou a fazer encomendas para amigos e, no boca-a-boca, se transformou em confeiteira. Atualmente ela se prepara para a grande virada. Ela ainda trabalha como revisora, mas faz pós-graduação em gastronomia e trabalha como confeiteira em casa. A meta é, daqui a três anos, abrir um ateliê de confeitaria.
Os pequenos negócios estão explodindo no Brasil há muito tempo, mas ganharam fôlego extra desde que a crise econômica começou a fazer estragos nos postos formais de trabalho — já são ao menos 12 milhões de desocupados.
Veja a seguir como esses dois trabalhadores estão superando as incertezas do desemprego.
Pedro Américo Espanhol e as piscinas
“Trabalhei em concessionária do começo de 2012 até o começo de 2015. Já não estava complementando a renda e aí acabou o IPI, o dólar subiu e deixou os importados mais caros. Minha comissão foi lá embaixo. Eu já tinha um caminhão para fazer transporte. Era o que dava mais dinheiro. Eu colocava uma pessoa para trabalhar, mas depois assumi como motorista em 2015, fazendo entrega de porta em porta. Mas quando chegou o fim do ano deu uma baixada no comércio eletrônico. Eu não tinha entregas para fazer. Pela falta de trabalho na concessionária e pela queda no comércio eletrônico, eu acabei vendendo o caminhão.
Nesse tempo de crise, as empresas oferecem um salário muito baixo, então decidi trabalhar para mim mesmo. Eu sou uma pessoa muito sistemática quanto a investimentos. Eu morava de aluguel, mas me mudei para a casa da minha sogra. Construí em cima da casa dela com o dinheiro da venda do caminhão. O que me restou de dinheiro, que foi por volta de R$ 15 mil, era para comprar a franquia.
Fui à feira de empreendedorismo do Sebrae no começo de 2016. Eu já tinha a ideia de pegar uma microfranquia, até pela rentabilidade. Pensando na minha carga de conhecimento, procurei por prestação de serviços. Mas as marcas ofereciam só o nome, não davam suporte, e eu queria aprimorar minha experiência.
Eu já tinha pensado na iGUi Trata Bem. Sabia que faltavam técnicos na região, porque a gente não vê muita loja de piscina e manutenção, diferente de mercado, mecânica, loja de móveis planejados.
Eu sabia mexer com parte elétrica e encanamento de piscinas, sabia o básico, não tinha curso. Mas a empresa me deu os princípios básicos para eu encaixar o que conhecia. Decidi comprar a franquia. Recebi um curso técnico em química de agua, aprendi a instalar o quadro de comando e o sistema de filtragem, a marca me colocou diante do que eu ia encontrar no dia-a-dia.
A franquia custou R$ 11 mil. Eles me deram em torno de R$ 5.000 em produtos, e isso você transforma em R$ 10 mil só com as vendas.
Achei que fosse sazonal esse mercado, que rendesse só no verão. Eu adquiri no começo de março e aí já veio a época de frio. Chegamos a 12 °C em São Paulo e a 0 °C no alto de Santana, e mesmo assim obtive resposta da empresa. Tive procura de clientes pela falta de profissionais na região.
Eu comecei no primeiro mês como home office e usava meu carro para fazer atendimentos. Minha esposa, que estava desempregada, veio trabalhar comigo.
Vendo o déficit de lojas que dessem suporte nesse mercado, e até para ter captação maior de clientes, logo no segundo mês eu adquiri uma loja-contêiner, em parceria com uma loja da marca em Guarulhos. A parceria com a loja foi a grande sacada.
A maioria dos problemas eu estava preparado para lidar. A grande questão é que você precisa de uma parceria com uma loja maior, assim eu pude obter aqueles 10% que me faltavam em parte técnica. Hoje eu trabalho com manutenção, venda, instalação e química de água.
A venda só é feita por essa loja maior, mas eu faço a captação do cliente. Vou à loja para mostrar as piscinas. Aí eu e meu parceiro faturamos. Após a venda, eu presto assistência completa.
Com a loja que abri, tenho exposição maior e mais clientes. Minha esposa fica na loja e eu fico na rua. O trabalho é muito dinâmico. Ganhamos uma média de R$ 4.000 a R$ 6.000 por mês, dependendo do clima. Quando faz sol, você começa a vender produtos e prestar mais assistência. Começou a chover, para tudo. Eu e meu parceiro já estamos pensando em adquirir um ou dois quiosques e espalhar pela região para aumentar o fluxo de clientes.
O que me deixava mais preocupado [antes de comprar a franquia] era a questão da crise, de ver muita empresa demitindo e com pouco sucesso. As empresas começaram a tratar funcionários meramente como escravos. Eles não queriam pagar nem o salário mínimo. Não estava valendo a pena. Para ganhar um salário eu tinha de vender quatro carros. Hoje eu ganho R$ 4.000 vendendo quatro piscinas. Sou o meu próprio patrão e não tenho que sacrificar sábados e domingos.
Luciana, a Diva da confeitaria
“Eu sou revisora desde 2002. Quando eu casei, em 2010, eu perdi meu caderno de receitas na mudança, então criei um blog para não perder mais as receitas, que é o Diva em Casa. Eram receitas que fui aprendendo desde criança, receitas de família e que eu via na televisão.
Alguns amigos recém-casados que não sabiam cozinhar acessavam o blog para copiar as receitas. Eles então começaram a repassar o endereço do blog.
Quando eu engravidei, em 2011, decidi trabalhar em casa como revisora, como MEI (microempreendedora individual), e acabou calhando de pegar encomendas também, de bolos e salgados.
A primeira encomenda foi para o aniversário de um amigo. Daí começou a espalhar e vários amigos meus me pediam bolo no aniversário.
Desde 2012 me dividido entre revisora e confeiteira. Hoje gasto metade do meu tempo como revisora e a outra metade como confeiteira.
A área de comunicação [em que trabalho como revisora] não está muito tranquila para trabalhar. Eu fui revisora de um jornal de Brasília por duas vezes e lá ocorreram muitas demissões. Eu comecei a perceber esse movimento, começou a atrasar pagamento, como em outros lugares, então optei por sair enquanto ainda estava na fase amigável. Trabalhei no jornal antes de engravidar, depois fui para um outro grupo de comunicação durante a gravidez e voltei para o jornal quando voltei para o mercado formal, mas estou fora de empresas desde setembro.
Tenho interesse em voltar para o mercado formal, mas só se for em horário de gente normal. Trabalhar de fim de semana ou chegar em casa de madrugada eu não faço mais. Foi isso o que me levou a sair do jornal também, que fica em Brasília. Como eu moro no Gama, às vezes chegava em casa às 3 horas da manhã.
Quando me dediquei mais a essa questão de ser MEI, eu comecei a estudar mais e a atender quem me pedia encomendas.
Além dos bolos tradicionais, por conta de amigos que são diabéticos ou têm intolerância à lactose, eu comecei a fazer bolos para quem tem restrição, e isso acaba sendo um nicho também.
Minhas encomendas então acabam sendo fora de padrão, porque quem é confeiteiro em casa tem que atender o que o cliente pede. Muitos dos meus clientes de bolo especial são os filhos que me procuram porque os pais são idosos e diabéticos ou hipertensos. Então não posso fazer bolo com qualquer adoçante. Então tive que estudar técnica dietética para entender como funcionava e conseguir fazer.
Cresci no boca-a-boca. Percebia que precisava saber algo então corria atrás para estudar aquilo.
Eu não tive de fazer investimentos para começar a trabalhar em casa. Como revisora eu já tinha computador e os meus livros, e na confeitaria eu aproveitei a estrutura que tenho em casa. Tenho interesse em criar uma cozinha separada, até porque é uma exigência da vigilância sanitária. Quero também criar um ateliê em casa e, daqui uns três anos, abrir uma loja. Mas vou a passos pequenos. Pra chegar lá, hoje eu faço um curso de pós-graduação em docência em gastronomia.
Eu já tinha feito alguns cursos online no Sebrae. Eles têm consultores que visitam os MEIs, e o que me orientaram foi consultar o Sebrae quando quiser abrir a loja. Mesmo assim estou terminando também pós em gestão de processo para entender o funcionamento de empresas, receitas e como posso otimizar isso.
Como o blog e o Instagram estão ficando conhecidos, então fica mais fácil dar aulas nessa área. Minha intenção é daqui quatro anos ser menos revisora e mais confeiteira.
A confeitaria ainda não rende tanto quanto a revisão porque eu não trabalhei muito a parte da divulgação. Como eu saí tem dois meses [do trabalho fixo], ainda estou organizando a rotina de casa para poder pegar mais encomendas, então faço divulgação somente em Facebook e Instagram.
Estou começando. Me vejo mais na área de rede social nesse momento do que propriamente como estabelecimento de confeitaria. Apesar de trabalhar com isso, ainda não é infelizmente a maior parte do meu salário, mas esse é o meu foco. Ganho em média R$ 1.000 por mês com confeitaria. Somando a revisão, entre R$ 2.500 e R$4.000, dependendo da demanda. Aos poucos vêm aumentando os ganhos com confeitaria. Por isso a meta de 40 anos...
A questão de dar aula num ateliê em casa é também por isso, para ficar mais conhecida e ganhar mais credibilidade. A intenção é firmar mais o meu nome e, até o fim do ano que vem, abrir um canal no Youtube para poder fazer as receitas usando a minha marca.
O meu projeto na pós vai ser na área de culinária especial: o trabalho do confeiteiro para quem tem restrição, como diabete e hipertensão. A meta é nos próximos três ou quatro anos poder virar só Diva.












