Puxado por desconto em conta de luz, alívio da inflação é momentâneo, avaliam analistas
Inflação perdeu força e marcou 0,16%, a menor taxa para janeiro desde 1994; resultado pode ser explicado pelo bônus de Itaipu
Economia|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

Apesar da perda de ritmo da inflação em janeiro, o alívio pode não seguir uma tendência para os próximos meses. O resultado esporádico pode ser explicado, principalmente, devido ao bônus de comercialização da Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional, o que permitiu uma redução na conta de energia dos brasileiros. Para economistas ouvidos pelo R7, ainda é cedo para apontar uma queda constante. O impacto positivo do desconto na conta de luz já foi sentido em janeiro, mas não deve se repetir nos meses seguintes.
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No mês passado, a inflação oficial do país perdeu força e marcou 0,16%, a menor taxa para mês desde 1994. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) apresentou uma redução em relação a dezembro, quando os preços aumentaram 0,52%.
Nos últimos 12 meses, o avanço acumulado está em 4,56%, acima da meta estipulada pelo próprio governo, de 4,5%. Vale ressaltar que a desaceleração não indica uma queda no preço dos produtos, mas sim, que, em média, subiram em menor velocidade. O que explica os altos valores dos alimentos.
Em um lado otimista, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia Benito Salomão entende que apesar das altas previsões do mercado para inflação, ele acredita que a taxa pode ficar dentro da meta. Porém, deve haver continuidade no padrão de ciclo de aperto monetário.
“Esses fatores esporádicos eles podem acometer a inflação tanto para acelerar quanto para desacelerar. E neste caso, em janeiro, ela foi desacelerada. Apesar disso, as expectativas ainda estão apontando para uma inflação bastante elevada para o final do ano, mas eu sou um pouco mais otimista. Acho que podemos fechar o ano com a inflação dentro da meta”, completou.
Impactos da conta de luz
O repasse de R$ 1,3 bilhão referentes ao bônus de comercialização da parte brasileira da Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional, aprovado para reduzir a conta de luz, foi o principal responsável pelo resultado.
O economista Hugo Garbe explica que o resultado da desaceleração pelo bônus de Itaipu reduziu os custos de energia elétrica para os consumidores. “Como a energia tem um peso importante no índice de inflação, essa queda ajudou a segurar os preços em geral”, comenta.
Apesar de prematura qualquer afirmação sobre a permanência da desaceleração, o analista diz que o Banco Central tem mantido a taxa de juros elevada para conter a inflação, o que pode ajudar a segurar os preços, principalmente dos alimentos, principal dor de cabeça do governo.
“Mesmo com a desaceleração da inflação geral, os preços dos alimentos seguem altos. Isso acontece porque a alimentação tem seus próprios fatores de pressão, como o clima, que afeta a safra de diversos produtos, e os custos de produção e transporte. Além disso, a demanda por alguns alimentos segue forte, o que mantém os preços elevados”, explica.
O especialista destaca que cenário dos próximos meses vai depender de vários fatores, incluindo o comportamento dos preços dos alimentos, a política de juros e o ritmo da economia.
Em complemento, o especialista em administração e mestre em governança corporativa Marcello Marin indica, ainda, possíveis fatores que podem contribuir para a aceleração da inflação em fevereiro, como o Carnaval e aumento dos combustíveis.
“Em fevereiro, é provável que a inflação volte a mostrar uma leve alta, principalmente porque não teremos mais o benefício imediato do bônus de Itaipu. Além disso, o preço de alimentos e combustíveis, que costuma ser mais instável, pode exercer pressão. Outro ponto é que eventos como o Carnaval costumam aumentar a demanda por serviços, o que pode influenciar nos preços. Apesar disso, tudo indica que a inflação continuará moderada, mas sem grandes quedas como vimos em janeiro”, explicou.
Vilões da inflação
Nos últimos 12 meses, o abacate foi o produto que exerceu a maior alta no período (68,77%). Na lista, itens como cafezinho, etanol e transporte por aplicativo também pesaram nas contas dos brasileiros.
Além disso, frutas como tangerina (68,56%), laranja-lima (68,59%), laranja-pera (34,52%) e limão (30,48%) estão no topo da lista de maiores altas em 12 meses. As carnes (21,17%) também ficaram no topo do ranking de vilões da inflação. Os destaques ficaram com pá bovina (27,29%), acém (25,98%) e patinho (25,28%). O lagarto e o filé mignon também tiveram altas expressivas (23,21% e 22,46%, respectivamente).
Queridinhas dos brasileiros, a alcatra (20,49%) e a picanha (12,36%) também encareceram, assim como a carne de porco (18,92%) e o contrafilé (20,61%).
Outro subitem em destaque foi o café moído, que exerceu o quarto maior impacto individual sobre a inflação e teve alta de 50,35% no acumulado dos últimos 12 meses. O cafezinho já preparado e servido em padarias, lanchonetes, bares e restaurantes aumentou 10,49%.
Alta dos alimentos
Com o preço dos alimentos, o governo federal tenta frear alta e estuda medidas para reduzir o valor dos produtos.
Em janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que realizaria reuniões com atacadistas, donos de supermercados e produtores para encontrar uma solução “para garantir que a comida chegue mais barata, de acordo com o poder de compra”.
Por enquanto, não há uma proposta definida, mas integrantes do Executivo falam em eventual redução de alíquotas de importação de produtos na comparação dos mercados nacional e internacional e sobre o custo de intermediação da empresa com o trabalhador em relação ao cartão alimentação.
A ideia é o Executivo abaixar a taxa para os produtos que estejam mais caros no Brasil e mais baratos no exterior. A proposta remonta ao período das enchentes no Rio Grande do Sul, no ano passado.














