Quarentena pode deixar distribuidoras com sobras de energia de até 13%, diz CCEE
Economia|Do R7
Por Luciano Costa
SÃO PAULO (Reuters) - Quarentenas adotadas pelo país para impedir a propagação do coronavírus devem resultar em sobras de energia contratada para concessionárias de distribuição de eletricidade em um patamar de até 13%, uma vez que as medidas de isolamento reduzem significativamente o consumo, estimou nesta sexta-feira a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Pela regulação do setor, eventuais custos decorrentes de excesso de energia contratada podem ser repassados aos consumidores até um limite de 7%. A partir desse patamar, as sobras passam a poder gerar prejuízo para as concessionárias de distribuição.
"Cada mês de isolamento social ou quarentena implica em 0,8% de sobrecontratação das distribuidoras", disse o presidente do conselho da CCEE, Rui Altieri, em conferência com jornalistas.
Ele projetou ainda que a retração econômica decorrente das medidas contra o vírus também deve gerar por si só um aumento de mais 0,8% na sobrecontratação das empresas de distribuição.
Com isso, a CCEE estima que as distribuidoras de eletricidade podem encerrar 2020 com média 11% de sobrecontratação, caso as quarentenas durem um mês, ou até 13% caso essas medidas sigam em vigor por três meses.
Para reduzir eventuais perdas, as elétricas podem tentar vender os excedentes por meio de alguns mecanismos regulatórios ou liquidá-las no mercado spot de energia, pelo Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).
O problema é que em um cenário de sobras generalizadas as vendas podem ser difíceis, enquanto o PLD deve ficar em valores mais baixos devido à maior oferta de energia no mercado decorrente dos impactos do vírus sobre a demanda.
Nesta semana, os preços spot caíram ao patamar mínimo permitido pela legislação devido à acentuada redução no consumo.
A CCEE projetou nesta sexta-feira que o PLD médio para a região Sudeste em 2020 deve ficar em 80,7 reais por megawatt-hora, ou 37% abaixo do cenário-base para o ano.
Desde o agravamento do coronavírus no Brasil, na semana iniciada em 19 de março, a CCEE tem visto uma redução média de 8% no consumo de energia, disse Altieri.
Ele apontou que a maior retração foi vista nas indústrias de veículos (-39%), têxtil (-32%) e de serviços (-31%).
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APOIO A DISTRIBUIDORAS
O presidente do conselho da CCEE ainda confirmou que a instituição tem participado de conversas lideradas pelo governo sobre um possível apoio a distribuidoras de energia elétrica por meio de empréstimos.
O ministério de Minas e Energia realizou na véspera uma videoconferência com BNDES, Caixa e Banco do Brasil para discutir a eventual operação.
A reunião contou com participação da CCEE, que em 2014 e 2015 foi utilizada pelo governo como veículo para tomar empréstimos semelhantes sem afetar os níveis de endividamento das empresas de distribuição, em transação que ganhou o nome de "Conta ACR".
"Fala-se muito em uma Conta ACR 2. É uma solução que foi muito boa lá e tem tudo para ser muito boa agora", disse Altieri a jornalistas.
"Se a CCEE vai participar ou não, depende do ministério. Se formos chamados para operar uma eventual conta ACR, vamos fazer, com o mesmo empenho e a mesma competência", acrescentou.
Executivos de distribuidoras estimaram nesta sexta-feira que o setor precisaria de 15 bilhões a 17 bilhões de reais para superar as turbulências decorrentes do coronavírus, que incluem retração acentuada do consumo e expectativas de aumento da inadimplência.
O presidente da Energisa, Ricardo Botelho, defendeu ainda que, além de eventuais empréstimos, o apoio ao setor poderia envolver também recursos do Tesouro e de fundos setoriais.
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(Por Luciano Costa)















