Roupas de academia podem ficar 60% mais caras com investigação do governo, diz indústria
Apuração do MDIC mira fabricante chinesa e pode resultar em taxação superior a 100%, diz indústria têxtil
Economia|Augusto Fernandes, do R7, em Brasília
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O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) investiga uma empresa chinesa por suposta prática de comércio desleal nas exportações para o Brasil de poliamida, matéria-prima usada na fabricação de tecidos para roupas esportivas. Empresas da indústria têxtil e importadoras do material temem que a apuração gere novas sobretaxas sobre o produto, que podem elevar os preços ao consumidor em até 60% e pressionar toda a cadeia produtiva.
Desde dezembro de 2025, segundo resolução publicada no Diário Oficial da União, o Brasil já cobra uma sobretaxa sobre empresas de três países asiáticos (China, Coreia do Sul e Taiwan) que fornecem o insumo para o país. O imposto foi adotado como medida antidumping (estratégia de defesa comercial para combater a concorrência desleal).
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Nos últimos meses, contudo, o governo abriu uma nova apuração sobre uma produtora da China que não tinha sido afetada pela resolução que entrou em vigor no fim do ano passado. O processo mira a Yiwu Huading Nylon Co., Ltd.
Segundo o MDIC, “a investigação foi aberta após análise de petição apresentada pela indústria doméstica e da existência de elementos suficientes de indícios de dumping, dano e nexo causal, nos termos da legislação brasileira de defesa comercial”.
“A investigação teve determinação preliminar positiva e prazo de conclusão prorrogado para dezoito meses a contar de seu início, conforme ato da Secretaria de Comércio Exterior. Caso, ao final da investigação, sejam confirmados dumping, dano à indústria doméstica e nexo causal, eventual direito antidumping aplicável à Huading decorrerá desse processo específico”, informou o ministério em nota enviada ao R7.
Indústria teme prejuízos
Representantes da indústria têxtil e importadores de poliamida que são contra a investigação se reuniram nesta terça-feira (26) com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. O setor apresentou preocupações com os impactos de uma eventual medida antidumping sobre o insumo.
“O ministro reconheceu a complexidade do tema, comprometeu-se a ouvir todos os lados antes de decidir e defendeu uma deliberação colegiada conduzida com equilíbrio e imparcialidade. A questão está na pauta da reunião do Conselho Executivo de Gestão, marcada para quinta-feira, 28 de maio”, disseram os representantes do setor em nota enviada ao R7.
A indústria têxtil afirma que a aplicação da sobretaxa sobre outra empresa que exporta poliamida ao Brasil pode gerar forte impacto sobre a produção nacional de roupas, já que a matéria-prima não é fabricada no Brasil. O setor diz que a investigação do ministério pode resultar em uma nova alíquota de até 108%.
“Uma taxação estimada em 108% sobre o fio elevaria o custo das peças confeccionadas entre 26% e 42% e o preço ao consumidor final em até 60%, com perda de competitividade frente a produtos importados prontos da Ásia”, alerta o setor.
“As empresas signatárias do requerimento empregam mais de 55 mil trabalhadores diretamente, e o setor estima que até 144 mil postos de trabalho seriam impactados ao longo da cadeia, com risco real de migração de parte da produção para Paraguai ou China”, acrescenta o grupo.
Segundo o setor, o país consome cerca de 80 mil toneladas anuais do insumo e depende integralmente da importação para abastecer a indústria. Atualmente, o produto custa em média US$ 2,52 por quilo, segundo os empresários. Com a nova sobretaxa em discussão, o valor poderia receber acréscimo de até US$ 2,72 por quilo.
“A aplicação de uma sobretaxa dessa magnitude sobre um insumo sem produção nacional cria um desequilíbrio estrutural na cadeia. O impacto não se limita à indústria; ele chega ao varejo, ao consumidor e ao emprego”, afirma José Altino Comper, presidente do Sintex, sindicato formado por empresários da indústria têxtil e do vestuário, em uma base territorial que abrange 18 municípios do Vale do Itajaí (SC).
Sobretaxas em vigor
As sobretaxas instituídas no fim de 2025 são cobradas de empresas asiáticas que exportam fios têxteis de filamentos contínuos de nylon — poliamida 6 e poliamida 6,6 — com título inferior a 50 tex.
A cobrança é feita por meio de alíquota específica em dólares por tonelada, com valores que variam conforme a empresa exportadora e o país de origem.
Para produtos vindos da China, as alíquotas variam entre US$ 167,98 e US$ 1.860,68 por tonelada. No caso da Coreia do Sul, os valores vão de US$ 77,85 a US$ 2.085,16 por tonelada. Para Taiwan, a taxa varia de US$ 159,91 a US$ 2.583,01 por tonelada.
À época da prorrogação das medidas, o governo argumentou que as investigações confirmaram a prática de dumping nas exportações para o Brasil e os danos causados à indústria nacional.
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