Lula evoca passado sindicalista para projetar sonhos de educação, segurança e emprego
Em discurso emotivo, petista relembra prisão, morte da mãe e greve de 79 em seu primeiro ato de campanha em São Paulo
2026|Do R7
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O candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu neste domingo (16) ao palco principal do estádio 1º de Maio, também conhecido como Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), palco histórico das lutas trabalhistas que marcaram sua trajetória pessoal e a fundação do PT.
Diante de uma plateia estimada em 20 mil pessoas no local e outras 20 mil simultâneas pelo YouTube, o presidente misturou lembranças pessoais e religiosas a promessas de educação, segurança e emprego, num esforço de atualizar essa história para dialogar com a geração atual de eleitores.
Antes de Lula discursar, o clima já vinha sendo construído havia quase duas horas por aliados no palco. Paulo Pimenta, José Guimarães, Gleisi Hoffmann e Simone Tebet discursaram mirando a disputa com Flávio Bolsonaro (PL) e o uso da bandeira dos Estados Unidos pela oposição.
Em seguida, Benedita da Silva e a primeira-dama Janja abriram o bloco de falas femininas que antecedeu o petista já sentado no palco, e depois vieram Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, que resgataram a história sindical do ABC e defenderam o governo federal antes de passar a palavra ao presidente.
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Chapéu Panamá
Lula chegou no palco trajando o já tradicional chapéu Panamá, com camisa social branca de mangas compridas e calça social caqui. começou lembrando o próprio 1979, quando discursou nesse mesmo estádio sem palco, microfone ou megafone. “Eu tive que falar pra vocês e cada um ia repetir o que eu falava até chegar no final”, disse, atribuindo à greve daquele ano o início da mobilização que o projetou como liderança nacional.
Antes de prosseguir, fez referência à sua saúde. Contou sobre o tratamento de radioterapia na cabeça por causa de um câncer de pele, o que o impede de tomar sol, para em seguida retirar o chapéu em saudação e aplausos do público.
O presidente dedicou parte do discurso a homenagens, citando intelectuais que ajudaram a fundar o PT, como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, e lembrando sindicalistas rurais assassinados, como Margarida Alves, morta em 1983 na Paraíba por defender trabalhadores rurais.
Lembrança da mãe
Em um dos momentos mais emotivos, Lula contou que a mãe, dona Lindu, morreu em 1980 enquanto ele estava preso durante uma greve de 41 dias, e que a ditadura militar o liberou para o enterro, algo que, segundo ele, não se repetiu anos depois, já em democracia, quando a Justiça não autorizou sua saída da prisão para o funeral do irmão, Vavá.
“Os homens não são medidos por épocas. Os homens são medidos pelo caráter”, disse.
Contou ainda que dona Lindu nasceu em Pernambuco e criou sozinha oito filhos depois de ser abandonada pelo primeiro marido, atribuindo a ela “tudo” o que é hoje na vida.
Foco nas mulheres
A lembrança da mãe puxou um dos temas mais recorrentes do discurso, o recado às mulheres, que deve ser um dos focos das campanhas presidenciais neste primeiro momento.
“Não abaixem a cabeça nunca, porque nós, homens, precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como servidoras, não como escravas, não como cidadãs de segunda categoria”, disse Lula. “Levantem a cabeça, porque Deus fez a gente igual.”
Religião
O tom religioso, por sinal, também atravessou o discurso do início ao fim. Lula atribuiu a Deus a própria trajetória, dizendo-se “muito agradecido” porque, segundo ele, “Deus fez vocês, e vocês fizeram o Lula ser o que ele é”.
Propostas
Depois de mais de vinte minutos de resgate histórico e pessoal, Lula mudou o tom e passou a apresentar o que chamou de propostas para o futuro, começando pela educação.
Citou a expansão de universidades e institutos federais no país e contou ter perguntado, durante visita a um instituto federal em Pernambuco, quanto custava manter um aluno por ano na instituição. Segundo o reitor, a resposta foi R$ 20 mil, contra os R$ 35 mil que, de acordo com Lula, é o custo para manter um preso no sistema penitenciário de São Paulo. “Investir em educação é muito mais barato do que investir na cadeia”, disse, defendendo a ampliação da escola em tempo integral.
Segurança pública
Na parte sobre segurança, Lula citou a apreensão e destruição de armas durante o mandato, com referência a cerca de 500 mil armas recolhidas, e defendeu que o combate ao crime organizado passa por mirar o dinheiro dos chefes de quadrilha, não apenas prender pessoas em favelas.
“É fácil matar o bandido numa favela. Agora, o cara que manda tá no apartamento de cobertura, tá morando no condomínio”, disse, defendendo uma reformulação da estrutura de segurança pública em parceria com estados e municípios.
Emprego e terras raras
Lula ainda comparou a geração de empregos do próprio mandato à do governo anterior, de Jair Bolsonaro, citando a criação de empregos formais. Defendeu a industrialização de minérios e das chamadas terras raras dentro do país, tema de disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, dizendo que o Brasil não vai “exportar mineral bruto” e que “ninguém vai explorar o nosso território, o nosso minério”, além dos próprios brasileiros.
Também citou a conclusão, ainda neste ano, da obra de transposição do rio São Francisco, projeto que segundo ele remonta a uma ideia do imperador Dom Pedro II, afirmando que a iniciativa vai levar água a 12,5 milhões de pessoas no Nordeste.
Saúde
Em um dos trechos mais duros do discurso, Lula responsabilizou a direita por “400 mil mortes” durante a pandemia de Covid-19, atribuindo o número à “irresponsabilidade da vacina” do governo anterior, argumento recorrente do petista contra a gestão Bolsonaro.
Discursos anteriores
Antes de subir ao palco, o evento preparou uma sequência de discursos de aliados. O primeiro a falar foi o candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, Paulo Pimenta (PT), que relembrou “momentos difíceis do presidente”, em referência à prisão de Lula em 2018, e afirmou que “aqui não vai ter bandeira dos EUA porque é o povo brasileiro quem manda”.
Em seguida, discursou o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, liderança política do Ceará, que resumiu o apoio da região Nordeste à candidatura na frase “o Nordeste está com Lula”.
A candidata ao Senado pelo Paraná, Gleisi Hoffmann, ex-ministra de Lula, foi mais dura com os adversários. “Eles deixaram um legado de morte, não têm nada para mostrar”, disse, sobre a família Bolsonaro. Gleisi afirmou ainda que os rivais “acharam que o PT e a esquerda iam acabar”, mas que “os apoiadores de todos os estados estão em campanha para a reeleição de Lula”.
Por último, a ex-ministra e candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet, reforçou o tom de polarização com a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e criticou o uso da bandeira dos Estados Unidos em atos do rival.
“Enquanto eles falam de pátria, quem defende as cores da bandeira somos nós. Eles desfilam na Paulista com bandeiras dos EUA”, disse. Tebet pediu votos para Lula e para Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo.
O palco foi montado no centro do estádio Vila Euclides, também conhecido como 1º de Maio, em frente a um telão que deve exibir imagens ao longo do evento, com um corredor para que Lula caminhe em direção à tela enquanto discursa.
Também devem subir ao palco a primeira-dama Janja, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e a mulher dele, Lu Alckmin. Segundo o PT, o evento reúne mais de 20 mil pessoas no local onde o presidente construiu sua trajetória política como metalúrgico.
Mulheres abrem os discursos
Lula assistiu aos dois primeiros discursos depois de tomar seu lugar, e ambos foram de mulheres, num aceno da campanha ao voto feminino, que deve ser um dos focos iniciais da disputa presidencial.
A candidata do PT ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva, defendeu a presença de mulheres no Senado como pauta que ultrapassa a “questão da mulher”. “É importante que as mulheres estejam no Senado, não apenas como o tema da mulher, mas o tema do Brasil, da democracia, da liberdade”, disse, antes de fazer o resgate biográfico de Lula como “torneiro mecânico” fundador do PT.
Em seguida, a primeira-dama Janja da Silva discursou dizendo que, antes de se casar com Lula, “já era uma Silva”, e associou o próprio sobrenome à luta coletiva das mulheres brasileiras. “Nunca estamos sozinhas, porque, quando uma mulher avança, ela leva com ela todas as mulheres.”

Janja fez tributo a Marisa Letícia, primeira esposa de Lula, e às mulheres que sustentaram a militância sindical do marido nas greves do ABC em 1979, dizendo que coube a elas o papel de “alicerce” pouco lembrado da história do PT. Segundo Janja, foi Marisa quem “bordou a primeira bandeira do PT”.
A primeira-dama cobrou um “país com um presidente que cuide das mulheres” e não apenas alguém que “pense só nas mulheres como alguém que cuida”, defendendo políticas de creche, escola em tempo integral e saúde em todas as fases da vida.
“Queremos alguém que siga caminhando e cuidando com as mulheres, para que as mulheres também tenham tempo e oportunidade para se cuidar, para descansar, para se divertir”, disse. Ela fechou o discurso afirmando que as mulheres são “a maioria da população”, “a maioria do eleitorado” e “guardiãs da democracia”, pedindo a reeleição de Lula. Em seguida, convidou o cantor gospel Cléber Lucas para um momento musical no palco.
Alckmin e Haddad
O vice-presidente e candidato à reeleição na chapa de Lula, Geraldo Alckmin, iniciou o discurso descrevendo as greves do ABC de 1979, que tiveram como palco o estádio da Vila Euclides.
Disse, na ocasião, que os grevistas atuaram como um “time” que “não entrou para empatar, porque jogou contra a ditadura, contra a opressão, contra a carestia”, citando trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes e juristas como parte dessa mobilização. “Quem marcou o gol foi o Brasil”, disse, chamando Lula de “a camisa 10 da esperança” daquele momento.
Alckmin também citou outros nomes da chapa e de aliados no estado, como Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva, e fez um balanço econômico do governo.
Segundo ele, cresceram “a renda”, “o PIB”, “a educação”, “a saúde” e “a proteção ao meio ambiente” no mandato atual. Alckmin citou fábricas fechadas no governo anterior, de Jair Bolsonaro, como da Mercedes-Benz em Iracemápolis e a Ford na Bahia. Segundo ele, as fábricas foram reabertas sob novas marcas, como a GWM e a BYD, além de acordos comerciais do Mercosul com Singapura e a União Europeia, que, segundo ele, elevaram as exportações brasileiras.
Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, destacou a trajetória de Lula. “O nome do Lula apareceu aqui nesse estádio 47 anos atrás”, disse, lembrando que o petista tinha 33 anos quando começou a se destacar como liderança operária.
Ex-ministro da Fazenda, Haddad citou a retomada do crescimento, do emprego e o controle da inflação no atual mandato, além do investimento em universidades e no SUS, “depois do completo descalabro do governo anterior”.
Relembrou a experiência de ter sido ministro para descrever o estilo de governar de Lula: “Todo santo dia era um assunto diferente, era um ministro sendo convocado”, disse, citando cobranças sobre falta de creche, violência doméstica e saúde bucal da população.
O ex-prefeito também elogiou a postura de Lula diante de autoridades e do empresariado. “Ele nunca baixou a cabeça para nenhum líder político, para nenhum banqueiro, para nenhum empresário. Sempre tratou todo mundo igual”, disse. “Você viu o Lula tratar o faxineiro, a faxineira, do mesmo jeito que tratava um bilionário, tratava um empresário, sem distinção, sem preconceito, querendo construir um mundo melhor.”
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