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‘Minha primeira reação foi de desespero’: fã de ‘folia’, cientista que projetou vitória de Lula com 2,5% de urnas cita surpresa

Brasileiro Rodrigo Mahlmeister, de 31 anos, criou um algoritmo que simulou e acertou os resultados do primeiro e do segundo turno

Entrevista|Vivian MasuttiOpens in new window

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O cientista brasileiro Rodrigo Mahlmeister, 31 anos Divulgação

Foi com apenas 2,5% de urnas apuradas que o pesquisador Rodrigo Mahlmeister, 31 anos, projetou, neste domingo (25), a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A surpresa do brasileiro, que faz doutorado na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, veio seguida de tensão — já que nenhum instituto de pesquisa previu que Lula ganharia mais de 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

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“Quando ele apareceu à frente nas primeiras projeções do modelo, minha primeira reação foi de desespero. Como a projeção é divulgada a um público amplo, o risco de apontar como vencedor um candidato que acabasse derrotado seria grave”, conta o pesquisador, que criou com sucesso um algoritmo responsável pela simulação do resultado no primeiro turno.

Ele foi o único que cravou o placar, quando Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, e Lula, 45,16%. Essa projeção certeira gerou ainda mais expectativa sobre o desempenho de sua ferramenta no segundo turno.

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“Fiquei extremamente tenso, senti que minha reputação estava em jogo, e minha maior preocupação era gerar esperança e, em seguida, frustração em parte do público”, completa o pesquisador.

Em conversa com o R7, Mahlmeister explicou o modelo preditivo usado em ambos os pleitos, contou um pouco de sua trajetória e falou até sobre o gosto por Carnaval, Bob Dylan e Leonard Cohen.

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R7 Entrevista - Você “previu” o resultado das eleições com pouco mais de 2% das urnas apuradas. Como explicar isso para o público leigo?

Primeiro, uma distinção importante: o modelo não prevê como as pessoas vão votar. Quando a apuração começa, os votos já estão todos nas urnas. O que o modelo faz é estimar o resultado das urnas que ainda não foram contadas.

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O placar parcial do TSE engana porque a ordem da apuração não é aleatória. Em certos momentos chegam mais urnas do Nordeste, em outros mais do Sul ou de cidades pequenas. Por isso o modelo não olha o placar: compara cada lugar com ele mesmo. A referência é o segundo turno de 2022, que também opôs o PT ao bolsonarismo. Se as primeiras urnas mostram que Lula está indo um ponto melhor do que em 2022 nos municípios já apurados de São Paulo, é razoável supor que algo parecido acontece nos municípios paulistas que ainda faltam. Uma cidade bolsonarista e uma cidade petista podem ter resultados muito diferentes, mas costumam se mover na mesma direção.

O modelo estima essa variação por estado e por região, aplica-a a cada município ainda não apurado e soma tudo. No começo, com poucas urnas, as pesquisas servem de ponto de partida e perdem peso à medida que a apuração avança. Dois por cento do eleitorado são cerca de 3 milhões de pessoas, espalhadas por centenas de municípios, e isso costuma bastar para medir a direção do movimento. Antes da eleição, testei o método reproduzindo, minuto a minuto, as apurações de 2018 e de 2022. Com cerca de 2% das urnas, a projeção já ficava próxima do resultado final. Além do número, o site mostrava uma faixa de incerteza, que se estreitava conforme a apuração avançava.

“Fiquei extremamente tenso, senti que minha reputação estava em jogo, e minha maior preocupação era gerar esperança e, em seguida, frustração em parte do público”

(Rodrigo Mahlmeister, pesquisador brasileiro)

R7 - Em algum momento teve temor de ele não se concretizar? Porque nem mesmo os institutos de pesquisa previram essa virada.

No primeiro turno, eu estava muito confiante no modelo, que também se aproximou muito do resultado final por volta de 2,5% da apuração. Era um resultado próximo do que eu esperava, já que as pesquisas da última semana apontavam um forte movimento de voto útil em direção a Flávio.

No segundo turno foi o oposto. Embora todas as pesquisas indicassem empate técnico, elas sugeriam que Flávio tinha mais chance de ganhar. Quando Lula apareceu à frente nas primeiras projeções do modelo, minha primeira reação foi de desespero. Como a projeção é divulgada a um público amplo, o risco de apontar como vencedor um candidato que acabasse derrotado seria grave. Fiquei extremamente tenso, senti que minha reputação estava em jogo, e minha maior preocupação era gerar esperança e, em seguida, frustração em parte do público.

Eu tinha dois modelos rodando ao mesmo tempo. O primeiro havia se mostrado mais preciso nos testes até 5% da apuração; o segundo, no restante. O plano era usar o primeiro até 5%, fazer uma transição gradual entre 5% e 15% e, a partir daí, usar apenas o segundo.

“Quando Lula apareceu à frente nas primeiras projeções do modelo, minha primeira reação foi de desespero”

Também estava previsto divulgar a projeção a partir de 0,5% da apuração, com o primeiro modelo. Acontece que era justamente ele que dava Lula com 51,8%, enquanto o segundo dava algo entre 51,4% e 51,6%. Achei pouco crível uma vantagem de quase quatro pontos para Lula e, no desespero, deixei o primeiro modelo de lado.

Passei a usar o segundo, mais conservador, e segurei a divulgação até 2% da apuração. Eu estava muito inseguro em mostrar Lula na frente, mas não havia muito mais o que fazer. Segui em frente e postei no Twitter que estava inseguro, mas que precisava ser transparente com o dado que estava vendo.

Em resumo, sim, tive grande temor de que o resultado não se concretizasse. Até uns 15% ou 20% da apuração, fiquei nessa tensão, sem entender bem o que estava acontecendo. Em retrospecto, vejo que deveria ter confiado mais no método: deveria ter deixado o primeiro modelo rodar até 5%, e poderia ter divulgado a projeção antes dos 2%.

R7 - Falando em institutos, por que você acha que essa onda da esquerda não foi captada pelos cientistas políticos e estatísticos brasileiros às vésperas do pleito?

Temos analistas muito competentes à frente de institutos de pesquisa sérios, que nos próximos dias devem discutir essa surpresa melhor do que eu. Até agora, não vejo motivo para acreditar que tenha havido erro de mensuração: os institutos sérios usam métodos confiáveis. O cenário entre sexta e sábado parecia ser, de fato, de ligeira vantagem de Flávio.

Como em toda disputa apertada, a eleição foi decidida pela escolha dos indecisos, feita no sábado ou no próprio domingo, e as últimas pesquisas indicavam aumento na parcela de indecisos. Com as informações que temos, a diferença entre urna e pesquisa parece ter dois motivos. Não chamo essa diferença de “erro” enquanto não se constatar um equívoco de mensuração. O primeiro motivo é a escolha de última hora dos indecisos, que pendeu para Lula. O segundo é um comparecimento maior do que qualquer um previa, institutos de pesquisa, inclusive. A queda da abstenção e dos votos brancos e nulos não explica sozinha a virada, mas, ao que tudo indica, ajuda a explicar como Lula abriu quase quatro pontos de vantagem sobre Flávio.

E por que os indecisos penderam para Lula no último fim de semana? Não sabemos. O noticiário da reta final foi especialmente desfavorável a Flávio, com novas notícias sobre as investigações envolvendo lavagem de dinheiro. Algumas análises apontam também que o debate da Globo pode ter repercutido mal para ele, mesmo que Flávio tenha demonstrado mais desenvoltura que Lula. São hipóteses plausíveis, mas dificilmente teremos uma explicação definitiva para esse movimento.

R7 - Analisando agora com mais calma: a que você atribui uma virada tão expressiva do Lula? Se pudesse elencar três fatores, em ordem de importância, quais seriam?

1. Lula parece ter absorvido uma parcela maior dos votos da terceira via (cerca de 9 milhões no primeiro turno) do que as pesquisas indicavam: algo em torno de 60%. Parte desses eleitores eram os indecisos que escolheram seu candidato no sábado ou no domingo.

2. Houve uma queda histórica da abstenção e dos votos brancos e nulos, o que provavelmente favoreceu Lula. Em alguns estados do Norte, onde Flávio é forte, como Acre e Roraima, a abstenção até subiu, o que pode ter ajudado Lula na margem.

3. Lula conseguiu manter a votação em seus redutos e avançou até em redutos de Flávio: cresceu cerca de três pontos no Paraná, em Santa Catarina, em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul.

São três forças que atuaram em conjunto e se concentraram em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.

R7 - Esse modelo preditivo que você desenvolveu pode ser usado em outros países? Qual a funcionalidade dele para a sociedade a partir de agora?

Depende muito da qualidade dos dados. No Brasil, o sistema de votação é muito avançado e organizado: os resultados de cada seção são públicos, e a apuração é rápida e transmitida em tempo real. Se os Estados Unidos tivessem essa qualidade e essa agilidade, seriam um ótimo candidato para testá-lo, já que lá concorrem sempre as mesmas duas forças. É o que acontece no Brasil desde 2018, com a disputa entre o bolsonarismo e o PT.

Quanto à utilidade pública, eu sinceramente era cético até este domingo. Uma projeção dessa pode aplacar a ansiedade por 2 a 3 horas, em uma apuração que já é muito rápida. E a utilidade para por aí, não vai além disso.

Mas, com as centenas de mensagens que tenho recebido entre ontem e hoje, eu vejo que realmente ajudou todo mundo a entender o que estava acontecendo, com uma apuração que foi atípica em termos da ordem das seções entrando em cada estado. E, principalmente, ajudou a entender o que ia acontecer no final da noite. Com a quantidade de pessoas me agradecendo, eu reconheço que, pelo menos nessa eleição (talvez a mais imprevisível da nossa democracia?), a utilidade pública foi mais relevante.

R7 - Que outro tipo de tendência social ou econômica ele pode prever?

É um método muito voltado à apuração de eleições, e ainda não pensei em aplicações em outras áreas. A lógica é usar o que já foi contado, comparado com o histórico de cada lugar, para estimar o que falta. Em princípio, ela serve para qualquer contagem que chega aos poucos, mas não saberia apontar um outro uso concreto.

R7 - Você é novo e bem-sucedido. Como foi que você escolheu construir uma carreira acadêmica nessa área? Foi acontecendo ou foi planejado?

Tive o privilégio de estudar em boas escolas e de entrar em ótimos programas de universidades públicas, na graduação e na pós-graduação. Isso me abriu a chance de chegar a uma boa universidade nos Estados Unidos para o doutorado. Tudo foi acontecendo aos poucos, sem muito planejamento. Mas, desde a graduação, fui pendendo para a carreira acadêmica, porque ela me desafia mais e exige mais rigor teórico e metodológico.

R7 - Agora, uma pergunta mais amena… Quais seus hobbies? Gostos musicais? Como é a vida de um gênio da estatística?

Faço questão de dizer que não sou nem especialista em estatística. Usei o que todo estudante de economia aprende, somei meu conhecimento de ciência política e fui testando vários métodos, com a rapidez que o Claude, a inteligência artificial da Anthropic, proporciona, até chegar ao mais preciso.

Gosto bastante de sair e de pular Carnaval, jogar tênis, organizo uma festa em São Paulo chamada Bagatela e ouço principalmente Bob Dylan e Leonard Cohen.

Meu dia a dia de trabalho se resume à escrita e à programação (voltada à análise de dados).

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