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Antes do bombardeio, policial estranhou a beleza de Hiroshima: "Alguma coisa está errada"

Ele foi servir em sua cidade natal, em um país muito destruído antes mesmo da bomba atômica

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Morita servia em Hiroshima, onde nasceu, no dia da explosão
Morita servia em Hiroshima, onde nasceu, no dia da explosão

Assim que chegou a Hiroshima, em 1945, para servir em sua cidade natal, o policial militar Takahashi Morita, hoje com 89 anos e morando no Brasil, teve um pressentimento. Havia percorrido várias cidades japonesas, desde Tóquio.

E só via destruição. A própria capital japonesa havia sido bombardeada pelos Estados Unidos dias antes, quando mais de 90 mil pessoas morreram, muitas delas sob os olhares atônitos de Morita. Hiroshima era uma pérola no meio da escuridão. Estava intacta, com jardins floridos, ruas limpas, prédios vistosos. Uma rosa, anterior ao cogumelo atômico.


Morita, no entanto, sentiu um calafrio quando se deparou com tanto esplendor cercado por um país quase em ruínas. E, segundo sua filha Yasuko Saito, de 68 anos, disse para si, misturando ao balbucio uma lamentação profética.

— Alguma coisa está errada, algo ainda vai acontecer, não é possível.


Eram tempos dramáticos. A fatídica bomba de urânio, cujo lançamento completa 70 anos neste dia 6 de agosto, foi mais um golpe para uma população exaurida de pânico, dor e sofrimento. Foi um golpe duríssimo, de dimensões até hoje incalculáveis, mas não foi o primeiro. A fome já se alastrava pelo país. Morita já se chocava com a capacidade de destruição do ser humano, principalmente quando, ao servir o exército, mesmo sem combater, ficou dias quase sem comer, doente de desnutrição. Só se livrou do fardo porque passou em um difícil concurso para policial e, na Escola de Polícia, em Tóquio, a comida era farta, conforme conta Yasuko.

— Ele sobreviveu ao bombardeio por ser um dos poucos que estavam bem alimentados, com boa saúde. E pode ajudar os outros, passando três dias inteiros no salvamento, sem comer. Só então foi atendido. Mas antes, ele via muitas injustiças acontecendo, uma delas era justamente essa: enquanto os poucos policiais em formação tinham fartura, os muitos combatentes mal conseguiam comer.


Yasuko Saito fala sobre a bomba jogada sobre Hiroshima como se tivesse vivienciado a cena. A chamada "Little Boy", corpo celeste carregado de fúria foi lançada do B-29. Antes das comportas serem abertas, o mundo era um. Depois, enquanto ela descia em movimento implacável, como o tempo, nada mais poderia voltar para trás. Nem ela, nem a história. Em apenas alguns segundos, uma cidade moderna se transformou em escombros, deixando cerca de 140 mil mortos.

Três dias depois de Hiroshima, foi a vez de Nagasaki ser alvejada, por uma bomba à base de plutônio, causando outras cerca de 80 mil mortes. No fundo, nascida dois anos depois, em Hiroshima, ainda enevoada de radiação, Yasuko é também uma sobrevivente. Sua infância, afinal, foi marcada por histórias que ela ouviu. E outras que presenciou. Lembra-se da luta da mãe, que a levava junto para ficar horas na fila em busca de um alimento.


— Cresci ouvindo histórias sobre o momento da explosão, sobre a rotina na cidade, sobre os planos para o futuro. A maioria que morava em casa e na cidade era sobrevivente. O assunto não era tabu, era conversado abertamente. E o incrível era que a fila em que eu ficava, junto com minha mãe, era para comprar comida, e não ganhar. Na época não havia ajuda.

Associação pela paz

Ela se tornou tão envolvida com o tema, que participa da associação criada pelo pai, a Associação Hibashuka Brasil pela Paz, fundada em 1984, anos depois da chegada da família ao Brasil, em 1956. Em japonês, hibashuka significa "afetado pela bomba atômica". A entidade tem uma série de atividades informativas e ainda busca ajudar famílias de sobreviventes que ainda têm sequelas em função das tragédias. Mas acima de tudo, Yasuko diz que a instituição sonha com a paz entre as nações.

— Meu pai, que era soldado, policial militar, poderia buscar explicações cheias de acusações. Mas ele sempre diz, desde que eu era menina, que a culpa de tudo era da guerra. Não acusava um ou outro país e sim o conflito humano em si. Por isso atuamos até hoje para que não haja mais conflitos no mundo.

O pai dela está neste momento em viagem ao Japão a convite do governo local para participar da celebração dos 70 anos da explosão da primeira bomba atômica. E Yasuko se tornou uma espécie de porta-voz da causa, reivindicando junto ao governo japonês o tratamento integral para as doenças decorrentes da explosão, que só é financiado dentro do Japão. 

— Depois de muita luta conseguimos que o governo japonês financiasse os medicamentos, mas o tratamento ainda não.

Ela diz que isso acaba sendo um problema, já que há várias situações em que japoneses, vindos ao Brasil na primeira leva de imigrantes, retornaram para visitar o Japão e foram vítimas do ataque nuclear americano.

Yasuko argumenta que o auxílio é importante pois a bomba atingiu também moradores de outros países. A primeira leva de imigrantes chegou ao Brasil em 1908, no navio Kasato Maru, para basicamente trabalhar nas lavouras paulistas. 

— Há uma família em que uma parte voltou para Hiroshima antes do ataque. Os filhos ficaram cuidando dos negócios no Brasil. E os que estavam no Japão ficaram um tempo isolados, sem poder voltar. A mãe implorava para retornar ao Brasil. Não havia comida no Japão, as condições eram ruins e ela pedia para os filhos virem buscá-la. Dizia: quero voltar ao Brasil nem que seja só para comer mandioca. A abundância aqui era grande em comparação com o Japão. 

Hiroshima finaliza preparativos para 70º aniversário do bombardeio atômico

Depois do bombardeio, Morita deixou a polícia para retomar uma antiga profissão: relojoeiro. Abriu uma loja em Hiroshima para se recompor, junto com a cidade, vendendo, óculos, máquinas de costura e relógios, que marcavam segundo a segundo, a distância da explosão, a busca de um recomeço. O tempo, assim como as horas, afinal, não pode parar.

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