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Brasileiro reúne relatos para lutar contra a negação do Holocausto

"Enquanto tivermos sobreviventes, temos mais força para combater a mentira dos que negam", diz Eduardo El Kobbi, que produz exposição e documentário

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Kobbi e foto de amiga de A. Frank
Kobbi e foto de amiga de A. Frank

Eles estão cada vez mais enfraquecidos com o envelhecimento. Mas, em suas vozes cansadas, a força do argumento, do testemunho e, muitas vezes, da alegria ressoa mais alto. Vibrante, em defesa da vida. Os sobreviventes dos campos de concentração nazistas resistiram também para contar uma história de atrocidades. Com a nobre missão de fazer com que ela nunca mais se repita.

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Enquanto ainda estiverem vivos, o relato deles é o mais direto. É a prova viva do sofrimento. Mas, em breve, quase todos tendo mais de 90 anos, não estarão mais aqui para testemunhar. Com essa preocupação, o produtor brasileiro Eduardo El Kobbi, de 56 anos, está filmando depoimentos de pessoas que resistiram ao nazismo na Segunda Guerra Mundial. De origem judaica, El Kobbi é presidente do KKL Brasil, um braço do KKL israelense, organização de preservação do meio ambiente voltada também a causas humanitárias.

O sr. Jan esteve em cinco campos
O sr. Jan esteve em cinco campos

El Kobbi já acumula 5 mil fotos e mais de 35 horas de gravação. Com as imagens, está produzindo um documentário e uma exposição itinerante, intitulados "Rostos do Holocausto". O objetivo é levar a exposição a locais públicos, de cada cidade onde ocorrerem concertos regidos pelo maestro italiano Francesco Lotoro, com músicas compostas em campos de concentração. Este é outro projeto que ele está apoiando.


A primeira exposição será no próximo dia 21, no foyer do auditório do Memorial da América Latina, em São Paulo, quando Lotoro regerá a Orquestra Jazz Sinfônica na apresentação destas músicas. Será a abertura da comemoração dos 75 anos de libertação dos campos de concentração. Todos os entrevistados deverão comparecer.

"Toda semana gravo com um sobrevivente. Há depoimentos incríveis e emocionantes. Enquanto temos sobreviventes, temos mais força para combater a mentira dos que negam. Mas é uma missão permanente da humanidade fazer com que a gente nunca se esqueça do que aconteceu no Holocausto. Não só para os judeus, mas para a humanidade. Foi uma vergonha que nunca pode ser apagada para que nunca se repita", diz.


Visita marcante

El Kobbi abraçou essa ideia principalmente depois de ter visitado os campos de concetração nazistas, em 2018, quando realmente se colocou no lugar daqueles que por lá passaram.

"O projeto (das imagens e do apoio ao concerto) surgiu depois que eu visitei Auschwitz e Birkenau, onde participei da Marcha da Vida (evento que leva pessoas a conhecerem a realidade dos campos). Foi em um ano bem especial, quando milhares de pessoas se encontraram na porta do local, vindas de todos os lugares do mundo. Foi emocionante", diz.


Ele revela que ficou chocado com o que viu. O impacto foi tão grande que o levou a se engajar de forma ativa nesta empreitada. 

"Passei a dedicar parte do meu tempo e do meu dinheiro para esta causa. Tive lá minha primeira experiência em campos de concentração. Assim como a maioria das pessoas, eu achava que entendia e sabia o que era o Holocausto e, quando entrei em Auschwitz e Birkenau, percebi que não fazia nem ideia. Minha imaginação não consegue chegar a tanta criatividade, desta máquina de morte que foi criada no Holocausto", conta.

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Comunicativo, El Kobbi transmite otimismo em suas palavras. Neste trabalho, ele também busca revelar um lado menos sombrio da tragédia, realçando a energia vital dos sobreviventes, a força para seguir em frente.

"Sempre destaco a alegria e não a tristeza no rosto deles. Eles sobreviveram, vieram para outro país, fizeram família, tiveram filhos, netos e construíram uma nova vida", afirma.

Outras iniciativas têm ocorrido neste sentido. A mais divulgada é a do cineasta Steven Spielberg, que fez um documentário e idealizou a USC Shoah Foundation - Instituto de História Visual e Educação, em Los Angeles.

Uma exposição semelhante à de El Kobbi, do fotógrafo ítalo-alemão Luigi Toscano, foi vandalizada em maio último, em Viena. Mas o recrudescimento do antissemitismo é o principal estímulo para que o brasileiro busque divulgar ainda mais o seu projeto.

"É para as pessoas pensarem, é para provocar o questionamento mesmo. É a melhor maneira de se combater o antissemitismo. Infelizmente estamos vendo o crescimento do antissemitismo no mundo, com cenas que já vimos e com direitas radicais em países da Europa que estão se consolidando novamente. Então, nada mais importante do que cada um fazer a sua parte para criar um movimento de resistência e de lembrança, para que isso nunca mais aconteça. Esse é o único caminho que temos para encontrar paz e criar um mundo melhor e mais justo."

A própria lista

A primeira pessoa filmada por ele foi a sobrevivente Nanette Blitz Konig, de 90 anos, que foi amiga de Anne Frank.

"Ela foi colega de carteira da Anne Frank. E também encontrou Anne, doente e à beira da morte, no campo de Bergen-Belsen. É a sua maior representante hoje. Ela tem muita energia para divulgar essa mensagem. Dá pelo menos duas palestras por semana. Tem carisma e as pessoas logo se aproximam dela, a escutam, a admiram. Há muitas escolas com o nome Anne Frank e esse nome é muito bem-vindo."

O produtor ressalta que se surpreendeu quando se deparou com sobreviventes que nunca tinham contado a própria história. Em outros casos, a supresa foi o ânimo demonstrado por essas pessoas, como o sr. Jan Strebinger, 88 anos, ex-prisioneiro de cinco campos de concentração.

"O documentário foi ganhando força e importância. Alguns nunca haviam sido entrevistados antes. Outro depoimento obtido é o do senhor Jan, que passou por cinco campos de concentração. Passar por um campo e conseguir sair é como ganhar na loteria. Agora passar por cinco, é algo inacreditável. E ele vê tudo isso com um toque leve, até brinca e conta a história de que, com o número que foi tatuado em seu braço, chegou ao Brasil e ganhou no jogo do bicho", diz El Kobbi, com o bom humor que lhe é característico.

Seu trabalho se assemelha, até certo ponto, ao de pessoas como Oscar Schindler, industrial alemão que mudou de lado e, deixando de ser espião e membro do Partido Nazista, salvou da morte 1.200 judeus durante o Holocausto, colocando-os como funcionários de suas fábricas de munições e de esmalte, na Polônia e República Checa.

No fim do filme A Lista de Schindler (1993), dirigido por Spielberg, o protagonista lamenta ter começado muito tarde sua ação salvadora e se pergunta por que não incluiu mais pessoas. Até se culpa.

A diferença é que El Kobbi nunca foi espião, nunca precisou mudar de lado. E ainda pode reunir mais e mais depoimentos, numa corrida contra o tempo para aumentar sua própria lista. E, de certa maneira, tornar imortais os sobreviventes.

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