Casos de hantavírus aumentam na Argentina, e especialistas culpam as mudanças climáticas
Alta recorde e mortes em ascensão colocam hantavírus no radar após surto em navio
Internacional|Anabella Gonzalez, Gonzalo Zegarra, Caitlin Danaher e Charlotte Reck, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Casos de hantavírus na Argentina quase dobraram no último ano, com o país registrando 32 mortes e o maior número de infecções desde 2018. O aumento ocorre enquanto autoridades argentinas correm para rastrear os passos de um casal que viajou extensivamente pelo país e morreu posteriormente durante um surto do vírus no navio de cruzeiro MV Hondius.
A embarcação deixou o porto de Ushuaia, no sul da Argentina, em 1º de abril e atualmente segue para as Ilhas Canárias, na Espanha.
A expectativa é que chegue ao porto industrial de Granadilla, em Tenerife, no início da manhã de domingo.
Especialistas atribuem o aumento dos casos às mudanças climáticas e à destruição de habitats, já que a doença geralmente é causada pela exposição à urina ou às fezes de roedores infectados.
A temporada atual, iniciada em junho de 2025, já registrou 101 casos confirmados de hantavírus, informou o Ministério da Saúde argentino — em comparação com apenas 57 no mesmo período da temporada anterior.
Além do número incomumente alto de casos, o país também registrou uma das maiores taxas de letalidade dos últimos anos, com o número de mortes representando um aumento de 10 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Esses números não incluem o surto no navio de cruzeiro MV Hondius, cuja origem ainda é desconhecida.
Embora não haja registro de casos de hantavírus em Ushuaia nas últimas décadas, segundo o ministério, o vírus é endêmico em outras áreas da Argentina.
Autoridades acreditam que o casal visitou várias regiões do país, cruzando repetidamente a fronteira com o Chile e também indo ao Uruguai, antes de embarcar no cruzeiro.
Quatro regiões geográficas da Argentina são historicamente áreas de alto risco: o Noroeste (Salta, Jujuy e Tucumán), o Nordeste (Misiones, Formosa e Chaco), o Centro (Buenos Aires, Santa Fe e Entre Ríos) e o Sul (Neuquén, Río Negro e Chubut).
O casal holandês que morreu durante o surto no navio teria passado por Misiones e Neuquén durante a viagem.
Por muitos anos, o hantavírus esteve associado à Patagônia, no extremo sul do país, após um surto letal em 2018 que matou 11 pessoas e infectou dezenas.
Nesta temporada, porém, a maioria dos casos foi registrada na região central, com a província de Buenos Aires liderando com 42 infecções.
O surto no navio foi associado à cepa Andes do hantavírus, uma forma rara, mas potencialmente grave, que em alguns casos pode ser transmitida entre humanos por contato próximo.
Mudanças climáticas na origem?
Na Argentina, o hantavírus costuma se desenvolver em áreas rurais e periurbanas, em locais com cultivos, vegetação alta, umidade ou clima subtropical.
Mas especialistas afirmam que a degradação ambiental causada pelas mudanças climáticas e pela atividade humana está contribuindo para sua disseminação, ao permitir que roedores transmissores prosperem em novas áreas.
“O aumento da interação humana com ambientes naturais, a destruição de habitats, a criação de pequenas urbanizações em áreas rurais e os efeitos das mudanças climáticas contribuem para o aparecimento de casos fora de áreas historicamente endêmicas”, afirmou o ministério.
Fenômenos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas nos últimos anos, também impulsionam essa tendência.
O aumento das temperaturas altera o ecossistema e afeta a presença do rato-de-cauda-longa, principal reservatório do vírus na Argentina e no Chile.
“Esses roedores conseguem se adaptar melhor às mudanças climáticas, o que pode facilitar o aumento de casos que estamos observando”, explicou Eduardo López, infectologista e ex-assessor do governo argentino durante a pandemia de Covid-19.
Incêndios florestais também têm levado humanos e animais a se deslocarem para novas áreas, aumentando o risco, disse Roberto Debbag, vice-presidente da Sociedade Latino-Americana de Vacinologia. Tendências no turismo também têm impacto.
“Quem vai a áreas de risco para turismo, se elas não estiverem limpas de vegetação densa, enfrenta um perigo muito alto”, afirmou Debbag.
O Ministério da Saúde informou que equipes técnicas irão a Ushuaia, na província de Terra do Fogo, para capturar e analisar roedores em áreas ligadas ao trajeto do casal holandês.
No entanto, Juan Petrina, diretor de epidemiologia de Terra do Fogo, disse que o cronograma “não fecha” para que eles tenham contraído a doença ali, citando registros de aeroporto e de embarque que indicam que o casal esteve na região apenas entre 29 de março e 1º de abril.
Ele também classificou como “rumor” a hipótese de que o casal tenha visitado um aterro sanitário em Ushuaia antes do embarque. “O Ministério Nacional da Saúde não conseguiu confirmar isso”, afirmou em coletiva na sexta-feira.
Comparações com a pandemia de Covid-19
Em outro ponto, o surto no navio gerou temores de uma nova pandemia, já que passageiros são de vários países.
“Entendo por que as pessoas fazem essa associação”, disse à CNN a professora Charlotte Hammer, da Universidade de Cambridge. “Temos a memória coletiva da Covid, mas este caso é bem diferente.”
Ela explicou que cepas específicas do hantavírus estão associadas a populações distintas de roedores e que a cepa Andes, identificada no navio, normalmente só é contraída após contato muito próximo com roedores infectados. A transmissão entre humanos é limitada e exige contato prolongado.
“Um navio de cruzeiro é, infelizmente, um ambiente de contato próximo e prolongado em espaços relativamente pequenos”, disse.
“Mas esse não é o cenário habitual”, acrescentou, observando que o vírus não é transmitido apenas ao passar por uma pessoa infectada. “Em termos de potencial de transmissão, é muito diferente da Covid.”
Em um movimento incomum, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, publicou uma carta direcionada aos moradores de Tenerife em sua conta no X.
“Sei que vocês estão preocupados”, disse. “Quando se ouve a palavra ‘surto’ e se vê um navio se aproximando, lembranças afloram — e a dor de 2020 ainda é real.”
“Mas preciso ser claro: isto não é outra Covid-19.”
Tedros afirmou que há um plano detalhado para garantir a segurança dos passageiros e da população local e destacou que o risco de transmissão é baixo, já que não há passageiros sintomáticos a bordo.
Ele também agradeceu ao primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, pela disposição em receber o navio, classificando a decisão como “um ato de solidariedade e dever moral”.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp







