CECÍLIA 2
Internacional|Do R7
B-. Perda de legitimidade do sistema Uma revolução das expectativas não correspondidas adequadamente tem uma tradução política direta: o sistema perde legitimidade diante dos cidadãos, que vê como o Estado não é capaz de brindá-los com segurança física, jurídica nem serviços públicos adequados, e às vezes como no caso da Venezuela e Argentina, nem sequer controlar a inflação. Como assinala também o Barômetro das Américas, "em 2012, cerca de 65% dos brasileiros percebiam que o sistema político era corrupto e (o Brasil) ocupou o 22º posto entre os 26 países nas Américas no 2012 em matéria de apoio às instituições políticas nacionais". Essas duas dinâmicas, insatisfação com as políticas públicas dos governos e pouco apego às instituições, estiveram presentes nos protestos dos últimos anos na região. O Chile deu o tiro de largada nos protestos com a "revolução pingüim" em 2006-07, o mal-estar pelo mau funcionamento do Transantiago depois e nesta década pelos protestos universitárias em 2011 que tanta dor de cabeça deu a Sebastián Piñera. Havia por trás de tudo isso uma "revolução de expectativas" não cumpridas pelo Estado diante de classes médias emergentes. "Parte deste problema é causado pelo êxito da Concertação: em 20 anos ampliou muito o acesso à educação. O ensino médio se tornou universal e cresceu a educação universitária. Mas com um sistema de créditos com taxas de 10% ao ano, o problema explodiu, e aconteceu agora porque os estudantes estão terminando de cursar a universidade. Em 1990, um de cada cinco chilenos em idade universitária tinha esse nível de educação; hoje é um em dois", comenta Patrício Navia, professor da Universidade Diego Portais. O sucesso econômico que não garante a tranquilidade nem a satisfação social, mas confirma a mudança experimentada pelo Chile. Como refletiu o economista e intelectual Sebastián Edwards no diário La Tercera "Chile é um país apanhado. Apanhado por um mal-estar que não termina, por uma desconfiança profunda com os políticos e as instituições, por uma melancolia persistente". "A política anda mal", diz o homem da rua. "Há uma crise institucional", repetem as mulheres nos supermercados. "O modelo neoliberal fracassou", gritam os estudantes nas manifestações. E acrescenta: "As famílias chilenas se orgulham do que cada uma delas alcançou durante o último quarto de século: de sua ascensão à classe média, do título universitário de uma de suas filhas, das férias sonhadas, da bolsa de estudos que ganhou o sobrinho. No Chile atual convivem a satisfação pessoal e o mal-estar social. Para muitos é um contra-senso, mas é assim". Já na Argentina, em 2001 durante o famoso "que se vão todos", se viveu um primeiro capítulo dessa "rebelião de classe média". Agora, voltou a reaparecer nos panelaços de 2012 e 2013 contra o governo de Cristina Kirchner. A analista e historiadora Beatriz Sarlo concordava com este diagnóstico quando sublinhava que "os manifestantes, que vinham desse vasto setor com muitas diferenças que são as camadas médias (que começam, recordemos, com salários de 5000 ou 6000 pesos), não protestavam somente porque não podiam comprar dólares. Levavam outras palavras de ordem e transformar todas elas em um pretexto de que era a vontade de ter divisas a preço oficial implica em desprezá-las totalmente. É a versão simétrica a dos que afirmam que quem acompanhou as manifestações kirchneristas foram "pelo plano e pelo choripan" (sanduíche de rua tradicional na Argentina).










