Conheça o bombeiro do 11 de Setembro que não teve a morte contabilizada
Arnold Roma passou anos lutando para que o heroísmo de seu filho, que morreu enquanto salvava civis, fosse reconhecido
Internacional|Danya Gainor, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
O toque impiedoso do telefone de parede arrancou Arnold Roma daquele tipo de sono pesado em que apenas seus plantões hospitalares de 12 horas conseguiam fazê-lo cair. Ele estava em casa após o expediente há apenas cinco horas, de qualquer forma.
Apertando os olhos contra a luz do sol da manhã, que ameaçava consumir sua sala em Staten Island, o homem, então com 49 anos, levou o telefone com fio ao ouvido e, antes mesmo de conseguir abrir a boca para dizer alô, foi recebido por sirenes estridentes do outro lado da linha.
“Um avião acabou de atingir o World Trade Center”, berrou uma voz. Era seu filho, Keith, gritando no receptor em meio a buzinas e ao motor acelerado de um caminhão de bombeiros.
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O pai – enfermeiro, bombeiro voluntário e policial aposentado do NYPD (Departamento de Polícia de Nova York) – estremeceu por um instante enquanto lembranças afetuosas de atender chamados com o filho e andar no caminhão da corporação de bombeiros de Nova Jersey, onde atuavam como voluntários juntos, reluziam em sua mente.
Ele estava acordado agora.
“Pai, eles vão precisar de todo mundo”, disse Keith, de 27 anos. “É melhor você vir para cá.”
“Obrigado, te encontro lá”, respondeu Roma.
Mas essa promessa nunca seria plenamente cumprida. Roma colocou o telefone no gancho, sem saber que aquela era a última vez que falaria com o filho.
Roma chegou ao World Trade Center enquanto ambas as torres permaneciam de pé, cada uma perfurada por aviões Boeing 767, sangrando combustível de aviação e expelindo fumaça que prometia eventualmente derrubá-las.
Keith estava em algum lugar dentro da Torre Norte, seu pai sabia. Seu filho estivera trabalhando naquela manhã na Patrulha 2, um quartel a poucos quarteirões do World Trade Center, como membro da Patrulha de Incêndio de Nova York.
Por quase dois séculos, Nova York teve duas organizações que atendiam a incêndios por toda a cidade: o Corpo de Bombeiros da Cidade de Nova York e a menos conhecida Patrulha de Incêndio de Nova York, uma corporação privada de salvamento contra incêndios hoje extinta, que trabalhava intimamente ao lado do FDNY (Corpo de Bombeiros da Cidade de Nova York), mas permanecia uma entidade separada. Para um observador comum, a única diferença entre eles era a cor dos capacetes, vermelhos ou pretos.
Em 11 de setembro de 2001, na terça-feira, esses capacetes se tornaram mais do que uma distinção entre duas organizações de bombeiros.
Para Roma, eles se tornaram uma bússola na busca por seu filho e, eventualmente, a razão pela qual Keith nunca seria contabilizado em um dos números mais conhecidos da história dos ataques.
No World Trade Center, um chefe dos bombeiros disse a Roma para montar uma área de triagem na Torre Sul.
Tendo sido patrulheiro de incêndio no passado, ele olhou em volta daquele mar de capacetes pretos do FDNY, sem que nenhum dos lampejos dispersos do vermelho da Patrulha de Incêndio fosse seu filho.
Eu vou encontrar o Keith, eu sei, ele disse a si mesmo.
Ele se virou, correndo em direção ao saguão, esquivando-se de estilhaços de vidro que caíam e de corpos em queda livre de trabalhadores encurralados saltando para escapar – e para a morte certa – de uma altura de 90 andares. Ele estava a meros metros de distância quando a Torre Sul começou a desabar ao seu redor.
Roma foi engolido pelo concreto, cegado pelos escombros e inclinado a acreditar que ainda estava vivo apenas porque podia ouvir os gritos sufocados ecoando ao seu redor.
Ainda sem conseguir enxergar, ele cavou para sair dos fragmentos desmoronados e se juntou a outro grupo, machucado e soluçando, trabalhando para escapar dos destroços.
Ele deu seu casaco de proteção a uma civil para cobrir a pele exposta dela, e se revezou ajudando a carregar um bombeiro do FDNY, cujo fêmur quebrado perfurava o macacão.
A corporação de Keith deve ter visto o que acabou de acontecer, pensou Roma enquanto era colocado em uma ambulância. Espero que eles tenham saído correndo daqui.
Mas Keith não tinha saído.
Keith levou trabalhadores da Torre Norte para a segurança. Depois, desapareceu.
O tenente da Patrulha de Incêndio 2, John Sheehan, Keith Roma e o motorista Joe Krasko dirigiram sua viatura do quartel na West 3rd Street até o World Trade Center, e o tenente contatou outras unidades de patrulha pelo rádio para responder ao chamado quando viu a fumaça subindo da Torre Norte.
De toda a cidade, mais de uma dúzia de patrulheiros seguiram para o que se tornaria o Marco Zero e ajudaram a apagar incêndios, resgataram civis encurralados e evacuaram as torres.
Dentro do saguão da Torre Norte, Keith e Sheehan se juntaram a bombeiros forçando portas de elevador e guiando trabalhadores escada abaixo.
“Presenciei Keith carregar pelo menos meia dúzia de pessoas para a segurança”, disse Sheehan. “Descendo os degraus, entregando-as a policiais ou socorristas do EMT (Técnicos de Emergência Médica).”
Então, a cerca de 3 metros de Keith, Sheehan ouviu o que parecia ser um trem de carga, e tudo ficou escuro. A Torre Sul havia desabado, criando um túnel de vento ofuscante no saguão da Torre Norte.
Ele gritou por Keith. Nenhuma resposta.
Gritou de novo. Nada.
Quando o ar clareou o suficiente para ver, Keith havia desaparecido.
Uma parede de escombros estava entre Sheehan e o local onde Keith estivera. Sheehan escapou do saguão, sangrando pela cabeça, e disse aos colegas de patrulha que Keith ainda estava lá dentro.
Quando se viraram para correr em direção à Torre Norte, ela desabou. Dos 16 patrulheiros que atenderam ao chamado naquele dia, Keith foi a única vítima fatal.
Nas semanas seguintes, pelo menos um membro da família da Patrulha de Incêndio sempre podia ser visto procurando pelo irmão desaparecido no Marco Zero, disse Sheehan, hoje com 70 anos e aposentado do serviço de bombeiros, à CNN Internacional.
Roma, pai de Keith, passou três dias no hospital após o 11 de Setembro com graves dificuldades respiratórias, cegueira temporária causada pela poeira e um braço quebrado, desejando a cada noite que o dia seguinte finalmente trouxesse notícias de seu filho.
Ao receber alta, ele nem sequer passou em casa para trocar de roupa. Foi direto para o Marco Zero, ainda sem notícias de Keith.
Lá, Roma assumiu um novo e estarrecedor trabalho: cavar em busca do corpo do filho. Aposentou-se prematuramente de seu emprego de enfermagem no hospital e começou a passar 12 horas por dia, 7 dias por semana, retirando qualquer bloco de concreto móvel na extremidade norte dos escombros à procura de Keith – apesar de seus próprios ferimentos decorrentes do ataque.
Levaria 104 dias até que Roma finalmente visse seu filho novamente.
Na véspera de Natal de 2001, em uma segunda-feira (24), as equipes de resgate descobriram Keith vários andares abaixo de onde a Torre Norte esteve um dia, após vasculharem a pilha de 1,63 milhão de toneladas de colunas de aço, vidros estilhaçados, computadores, concreto, material de escritório avulso e restos mortais deixados para trás depois que aviões sequestrados rasgaram as duas torres que definiam o horizonte de Manhattan.
Keith foi encontrado em meio a um grupo de civis que, segundo as equipes de busca, ele estaria escoltando para a segurança quando as torres vieram abaixo.
Tornou-se uma tradição após o 11 de Setembro que, quando um bombeiro morto era identificado nos escombros, sua unidade o homenageava carregando seu corpo para fora.
Sheehan e outros homens da Patrulha 2 receberam o aviso, desceram a longa rampa, vários andares terra adentro na pilha de destroços, e ajudaram a trazer Keith de volta à superfície.
“Quero dizer, era Natal, e foi provavelmente uma das piores coisas que já vivenciei na minha vida”, disse Sheehan.
No serviço de combate a incêndios, ele explicou, os plantões de Natal eram sempre agitados.
“Mas isso – isso era algo diferente. Foi simplesmente horrível”, disse Sheehan. “Mas ele merecia essa honra.”
No topo dos escombros, Roma ajudou a carregar o corpo sem vida do filho – ainda vestido com o casaco da Patrulha de Incêndio e calças de suspensório – pelo Marco Zero até uma ambulância.
Depois de mais de três meses sob pedras e ferragens, Keith não parecia o mesmo, mas Roma não precisou ver a carteira ou o documento de identidade em seus bolsos para saber que era seu filho. Ele simplesmente sabia.
Roma fez um último trajeto com luzes e sirenes ao lado de Keith naquele dia, segurando o capacete vermelho do filho, agora manchado por detritos.
Enquanto transitavam, uma melodia solene e familiar preencheu as ruas de Nova York, repletas de quarteis de bombeiros, cujos interfones soavam quatro toques quíntuplos de sino – um sinal em homenagem a um bombeiro morto em serviço.
Roma então descarregou pessoalmente o corpo do filho no necrotério da 30th Street.
Mas, para Roma, a agonia pelo filho não terminou naquele dia. Apenas mudou, evoluindo para uma nova busca por respostas – ainda mais longa.
Por 25 anos, Roma viveu o estranho ritual de ver o país lembrar os ataques de 11 de Setembro e homenagear seus heróis a cada aniversário, mas sem que o nome de seu filho fizesse parte do número que todos conhecem.
343
O número rapidamente se tornou parte do vocabulário nacional, estampado em memoriais, pronunciado em cerimônias e repetido a cada mês de setembro como o número de bombeiros do FDNY mortos no World Trade Center.
De fato, Keith não era um bombeiro do FDNY. Ele pertencia à Patrulha de Incêndio de Nova York e atuava como bombeiro voluntário em Nova Jersey.
Por isso, quando o FDNY contabilizou suas vítimas – que também incluíam um socorrista, um paramédico e um capelão –, o jovem de 27 anos foi deixado de fora.
Por um quarto de século, essa distinção tem acompanhado Roma, que telefonou, escreveu cartas, contestou e suplicou para que seu filho recebesse o mesmo reconhecimento dos bombeiros do FDNY com quem compartilhou o mesmo destino.
“Todos os dias em que estou acordado na minha vida, esse número me entristece”, disse Roma à CNN Internacional.
Apesar de ter morrido após atender à ocorrência, ajudando a desenrolar mangueiras e carregar vítimas para a segurança, a condição de patrulheiro fez com que o nome de Keith ficasse fora do memorial que margeia o Ten House na Liberty Street, o quartel mais próximo das Torres Gêmeas, e ausente do monumento de mármore negro dentro do museu dos bombeiros da cidade, que exibe as fotos dos 343 heróis. Seu nome raramente é pronunciado nas homenagens do 11 de Setembro pelo país.
“O 11 de Setembro colocou tantos heróis em evidência, e continuamos a lamentar por todos eles”, declarou Amanda Farinacci, comissária adjunta de comunicação social do FDNY, à CNN Internacional em comunicado por e-mail.
“O número 343, mantido pelo FDNY por décadas, provém da quantidade de membros ativos do FDNY mortos nos ataques ao World Trade Center.”
Roma acredita que o número deveria ser 344, mas, acima de tudo, deseja apenas que a bravura do filho seja lembrada.
“Se não fosse pela luta da minha família e pelos companheiros da Patrulha de Incêndio, a memória de Keith teria sido simplesmente descartada”, disse Roma.
Ele afirmou: “Se eles apenas o incluíssem, o mundo saberia que ele morreu como um herói.”
Patrulha de Incêndio foi a precursora do FDNY
Antes de existirem a Patrulha de Incêndio de Nova York ou o FDNY, havia homens munidos de sacos.
Quando um incêndio atingia um prédio em Nova York, havia mais com o que se preocupar além do fogo. A fumaça podia estragar a mobília, a água podia arruinar mercadorias e tudo o que sobrevivesse às chamas ainda poderia ser perdido no caos do resgate que normalmente se seguia.
Então, grupos de pessoas começaram a comparecer aos locais munidos de sacos de lona, cobertores e uma seleção peculiar de ferramentas, prontos para resgatar o que pudessem, numa tradição que remonta aos anos 1700.
A primeira metade do século 19 trouxe os primeiros indícios do que viria a ser a Patrulha de Incêndio de Nova York, à medida que brigadas voluntárias de patrulhamento e salvamento de bens evoluíam para operações cada vez mais organizadas, de acordo com Timothy Regan, autor do livro “Images of America: New York Fire Patrol”.
Por volta de 1835, a Associação de Companhias de Seguro contra Incêndio contratou quatro homens para comparecerem a todos os incêndios da cidade e protegerem os bens em risco.
A missão era prática, de uma literalidade quase cativante: entrar no prédio, retirar os objetos de valor e impedir que se transformassem em sinistros de seguros.
Os homens, recebendo um salário anual de US$ 250 (cerca de R$ 1,3 mil, na cotação atual), tornaram-se os patrulheiros pioneiros da corporação e, portanto, os primeiros integrantes remunerados do serviço de combate a incêndios de toda a cidade de Nova York.
Suas carroças transportavam vassouras, baldes e lonas protetoras. Passariam mais 30 anos até que Nova York dissolvesse as companhias voluntárias independentes e criasse um corpo de bombeiros municipal assalariado – o embrião do que viria a ser o FDNY.
Corpos de resgate de bens contra incêndio surgiram em todo o país.
Em Nova York, os “patroleos”, como eram chamados carinhosamente, continuaram se deslocando para incêndios em seus próprios veículos, a partir de seus próprios quarteis, ao lado de bombeiros do FDNY por quase dois séculos.
Muitos capitães e tenentes do FDNY – e ao menos um comissário lendário – deram seus primeiros passos na profissão dentro da Patrulha de Incêndio de Nova York.
Aos olhos de um espectador, era quase impossível notar a diferença entre as duas equipes.
Ambas usavam calças e jaquetas pretas de proteção, sinalizadas com faixas refletivas, botas com biqueira de aço e aparelhos de respiração autônoma.
Ambas atendiam aos mesmos chamados ininterruptamente e corriam na direção de edifícios em chamas.
Para a maioria, distinguiam-se unicamente pela cor dos capacetes, visto que os do FDNY vestiam preto, e os membros da Patrulha de Incêndio usavam vermelho.
“Se você voltar e olhar qualquer gravação de incêndio em Nova York, verá os capacetes vermelhos”, disse Roma à CNN Internacional.
Contudo, o limite entre o agente de salvamento e o bombeiro podia se tornar tênue no calor do fogo. Os patrulheiros entravam nos mesmos cômodos tomados por fumaça e encaravam boa parte dos mesmos perigos enfrentados pelos bombeiros ao seu lado, ajudando a esticar mangueiras e a forçar portas para realizar resgates e salvar vidas.
E, à semelhança de muitos bombeiros do FDNY no decorrer dos anos, alguns dos patrulheiros jamais voltaram para casa.
Trinta e um membros da Patrulha de Incêndio de Nova York faleceram ao longo da história da entidade, entre eles Keith Roma.
Uma batalha de 25 anos sem fim à vista
Arnold Roma ouviu falar do número 343 pela primeira vez nos dias posteriores ao 11 de Setembro, enquanto escavava os destroços do Marco Zero em busca de seu filho.
Uma lista de bombeiros desaparecidos circulara entre os oficiais do FDNY na noite de 11 de setembro, antes de chegar, gradualmente, às patentes inferiores.
“As pessoas vinham falar comigo achando que Keith estava de folga naquele dia porque o nome dele não constava na lista, então ele devia estar bem”, relatou Roma.
Dada a proximidade entre as duas corporações, muitos no setor acreditavam que qualquer membro desaparecido da Patrulha de Incêndio estaria incluído na contagem do FDNY, afirmou.
O ex-comissário do FDNY Sal Cassano, que atuava na ocasião como chefe adjunto de operações do departamento, relatou que, na noite dos atentados, começou a telefonar para os quarteis, tentando apurar quem estivera nas viaturas naquela manhã e quem ainda estava desaparecido.
“Nossa primeira contagem superava 500”, afirmou Cassano. Conforme os bombeiros eram localizados em hospitais da região ou tinham seu paradeiro confirmado, o número foi caindo até que o departamento fixou a marca de 343.
Contudo, ninguém telefonou para as bases da Patrulha de Incêndio perguntando sobre eventuais desaparecidos.
“Para ser sincero, nós nem sequer pensamos nisso”, declarou Cassano. “Tínhamos perdido homens, 98 veículos e equipamentos — incluindo caminhões, escadas mecânicas, ambulâncias —, de modo que estávamos sobrecarregados.”
Roma disse que começou imediatamente a ligar para as autoridades do FDNY, incluindo Cassano, questionando por que o nome de Keith não estava no registro. Cassano explicou que não havia como adicioná-lo à relação mantida pelo departamento.
“Foi uma conversa que tivemos na sede; houve muita insistência com gente dizendo: ‘Deveríamos contabilizar a Patrulha de Incêndio’”, lembrou Cassano. “No entanto, havia também membros aposentados que faleceram, e havia quem quisesse incluí-los.”
“Os responsáveis da época disseram: ‘Não. O número representará a quantidade de membros do Corpo de Bombeiros da Cidade de Nova York que estavam na ativa naquele dia, em serviço’”, disse Cassano. “O clima na sala era de profunda apreensão.”
Roma ainda não sabia, mas o número 343 viraria uma obsessão, mobilizando-o em décadas de persistência diante de contínuas recusas.
O FDNY recusou os pedidos da CNN Internacional para uma entrevista ou para detalhar a alegação de que apenas os membros em serviço ativo da corporação entram no levantamento.
Passados 25 anos, impassível, Roma continua recorrendo ao FDNY e a outras instâncias para que reconheçam a atuação de Keith como bombeiro naquele episódio que culminou em seu sacrifício supremo.
“Nós trabalhamos com eles, nós morremos ao lado deles, e eles reconheceram tudo isso; no entanto, a questão principal é que se recusam a reconhecê-lo como bombeiro”, declarou.
Embora não tenha integrado Keith ao cômputo oficial, a corporação concedeu-lhe posteriormente a Medalha do Bombeiro por Sacrifício Supremo do FDNY.
O pai enlutado aponta ainda outros tributos póstumos, entre eles a medalha de morte em serviço da IAFF (Associação Internacional de Bombeiros) – entidade à qual Keith era filiado – e a Medalha de Valor e o certificado Heróis do 11 de Setembro concedidos pela Casa Branca, afirmando que o falecimento de Keith ocorreu “enquanto servia a uma agência de segurança pública na condição de bombeiro”, subscrito pelo então presidente George W. Bush.
“Keith era simplesmente uma pessoa de coração puro”, afirmou Sheehan, que fora tenente de Keith na Patrulha 2. “Ele sempre dava mais de si – chegava adiantado para os turnos, jantava com a equipe mesmo nas noites de folga e tornava o trabalho agradável.”
O marco de 25 anos do atentado terrorista desencadeou uma nova sequência de tributos, com os organizadores expandindo as homenagens para conferir maior relevância à data.
A família Roma receia que, novamente, fique impedida de homenagear o filho nos mesmos moldes assegurados às famílias dos outros 343 integrantes.
“Quero ver o Arnold (Roma) manter essa luta, pois, se dependesse de mim, eu batalharia até meu último suspiro”, pontuou Cassano.
Sheehan declarou que jamais se conformou com o número 343, o qual, segundo ele, confere um tom excessivamente categórico às estatísticas de fatalidades e ignora inúmeras outras perdas.
“Eu seria o primeiro a apoiar o número 344”, observou Sheehan. “Mas há uma atenção desmedida sobre os 343; afinal, o que dizer das centenas de outros companheiros mortos em decorrência de câncer e enfermidades ligadas ao 11 de Setembro, que também se encontravam naquelas torres, inclusive outros homens da Patrulha de Incêndio?”
O próprio Sheehan enfrentou múltiplos quadros oncológicos decorrentes do 11 de Setembro e é obrigado a comparecer diversas vezes ao ano ao Programa de Saúde do World Trade Center.
Arnold Roma também passa por avaliações clínicas periódicas para acompanhar a redução de sua capacidade pulmonar, problemas gastrointestinais, estresse pós-traumático, quadros de ansiedade e outras sequelas surgidas após os episódios: “Eu revivo tudo isso cem vezes ao dia”, contou.
Assim, se não houver outro espaço, Keith segue homenageado cotidianamente no lar onde Roma vive atualmente com a esposa, na Pensilvânia. O capacete vermelho de Keith, ainda coberto de fuligem, e uma fotografia dele sorrindo repousam com dignidade em lugar visível.
“Todos os dias, às 15h44, entro no quarto, presto continência a ele e reverencio o número 344”, disse. “Faço isso há 25 anos e não pretendo parar agora.”
Patrulha de Incêndio, o “segredo mais bem guardado de Nova York”
Ao longo de uma trajetória de três séculos, o papel da Patrulha no universo de combate a incêndios nova-iorquino tornou-se tão interligado ao FDNY que sua memória passou a integrar os costumes da própria corporação.
O capitão Albert S. Johnston, filho de um dos quatro pioneiros da corporação de salvamento, foi agraciado com três medalhas de salvamento do FDNY durante seus 40 anos de carreira no órgão no começo dos anos 1900.
A condecoração podia contemplar integrantes do FDNY ou da Patrulha de Incêndio. A honraria foi rebatizada mais tarde para Medalha Albert S. Johnston e permanece sendo outorgada aos bombeiros do FDNY até hoje.
Em 1968, o patrulheiro Ed Pospisil, da Patrulha de Incêndio 3, chefiou a operação destinada a encontrar os corpos de 12 bombeiros do FDNY que pereceram em um grande incêndio na East 23rd Street ocorrido no ano anterior.
Entre eles figuravam companheiros com quem dividira anos de profissão.
Pelos serviços prestados, Pospisil foi laureado com o tributo máximo acessível a um patrulheiro: a Medalha Albert S. Johnston do FDNY, criada em honra a um membro da Patrulha de Incêndio, mas quase nunca concedida a um patrulheiro.
“Estar na Patrulha foi a melhor atividade profissional que tive na vida”, garantiu Pospisil, atualmente chefe de bombeiros aposentado de Hartford, aos 85 anos. “Qualquer veterano ainda vivo concordaria com isso.”
Para aqueles homens, a Patrulha de Incêndio ia além de uma engrenagem de salvamento bancada por seguradoras. Tratava-se de uma corporação com toques de sino, viaturas e costumes próprios. Reunia veteranos empenhados em repassar o ofício aos mais novos.
Craig Buccieri compreendia a rotina de uma unidade de combate muito antes de envergar os uniformes da patrulha.
Em 1973, depois de passar anos da infância no quartel onde o pai atuava, habituado aos sinos e ao vaivém do efetivo, ele prestou o concurso, realizou os treinamentos e ingressou na Patrulha 2.
“Frequentei quartéis desde pequeno, conseguia identificar as batidas dos sinos de olhos fechados, e grande parte daqueles rapazes da Patrulha eram irmãos para mim”, recordou Buccieri. Com o tempo, ele migraria para o FDNY, vindo a se aposentar no posto de tenente.
Àquela altura, a corporação alcançara uma dimensão incomparavelmente maior do que o grupo com sacos de lona que primeiro surgiu nos episódios da metrópole mais de cem anos antes.
As décadas sucederam-se nos arquivos: de desenhos a lápis retratando carroças puxadas a cavalo a imagens granuladas em preto e branco, chegando à saturação das películas fotográficas dos anos 1970, nas quais as viaturas avançavam, cortando a paisagem de uma cidade em transformação.
Em todas as épocas, a Patrulha dos capacetes vermelhos seguia nos registros, adaptando-se às transformações do município.
O antigo endereço da Patrulha 2, frequentado por Keith, hoje uma propriedade privada, segue em pé no Greenwich Village, conservando os tijolos à vista na fachada e o portal arqueado por onde as carruagens tracionadas a cavalos aguardavam chamados, logo abaixo de uma escultura de pedra em honra a Mercúrio, divindade romana associada à velocidade.
Em sua era de ouro, o órgão mantinha quase 400 patrulheiros distribuídos em várias unidades e protegeu patrimônios avaliados em dezenas de milhões de dólares ao longo dos anos, englobando mais de mil peças de valor inestimável preservadas durante o incêndio de 1958 nas dependências do MoMA (Museu de Arte Moderna).
Com o fechamento da última brigada similar da Filadélfia, em 1962, a organização de Nova York tornou-se a única do gênero remanescente no território americano.
Com o aprimoramento técnico dos corpos de bombeiros, mudanças construtivas nos edifícios e um custo anual que chegou a aproximadamente US$ 8,5 milhões (cerca de R$ 46 milhões, na cotação atual), o argumento que levava as seguradoras a manter a unidade foi perdendo força.
Em 2006, o Conselho de Seguradoras contra Incêndio de Nova York, conglomerado responsável pelo financiamento da entidade, avaliou que o encargo financeiro já não se justificava.
Encerrando quase dois séculos de atividades, as batidas dos sinos cessaram e os veículos deixaram as garagens em sua despedida definitiva.
Inúmeros profissionais que envergaram aquela farda resistiram ao seu desaparecimento.
Arnold Roma despontou como uma das figuras mais ativas na tentativa de reestruturar a corporação, sustentando que a metrópole não havia simplesmente perdido uma ferramenta ultrapassada do ramo de seguros.
Perdera uma unidade de pronta-resposta qualificada, cuja atribuição consistia em conter o avanço do fogo e mitigar os estragos provocados.
A iniciativa colheu manifestações favoráveis na prefeitura de Nova York e nos gabinetes de Washington.
Em 2011, o senador Chuck Schumer comunicou a liberação de mais de US$ 100 mil (cerca de R$ 540 mil, na cotação atual) oriundos de verbas federais para viabilizar o plano da Patrulha de Staten Island, enquanto propostas no Legislativo estadual ganhavam fôlego para reativar o quadro.
Nada disso se concretizou. O projeto travou nos trâmites legais e a verba não bastou para restituir os serviços.
O legado da Patrulha permanece resguardado em registros visuais, narrativas de antigos companheiros de plantão e na memória dos patrulheiros que atenderam ao toque de seus sinos.
E, para Arnold Roma, vive no empenho inabalável em perpetuar a coragem demonstrada por Keith.
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