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Câmeras desativadas e inspetores bloqueados: órgão de vigilância nuclear pede ajuda para monitorar o Irã

AIEA enfrenta dificuldades devido à falta de acesso e transparência

Internacional|Davis Winkie, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A ONU acusa o Irã de não cumprir salvaguardas nucleares, desativando câmeras de monitoramento e dificultando inspeções.
  • Após a saída dos EUA do acordo nuclear de 2015, o Irã desafiou gradualmente as salvaguardas, enriquecendo urânio acima dos limites.
  • A AIEA enfrenta dificuldades em monitorar o programa nuclear iraniano devido à falta de acesso e transparência do Irã.
  • O Conselho de Segurança da ONU pode impor novas sanções ao Irã, mas enfrenta possíveis vetos de Rússia e China.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Conselho de Segurança da ONU está avaliando novas sanções contra o Irã Sayed Hassan/Getty Images via CNN Newsource

A agência de vigilância nuclear da ONU (Organização das Nações Unidas) está pedindo ao organismo que responsabilize o Irã por não cumprir as salvaguardas destinadas a impedir o desenvolvimento de armas nucleares, anunciaram autoridades diplomáticas na quarta-feira (9).

Trata-se do capítulo mais recente de um esforço de mais de uma década para monitorar o Irã, período em que o país passou da conformidade à sabotagem dos esforços de inspeção – como a desativação de câmeras de monitoramento e “revistas físicas excessivamente invasivas” de inspetores –, de acordo com diversos ex-funcionários, diplomatas e mais de uma década de documentos da ONU revisados pela CNN Internacional.


O acordo nuclear de 2015 do Irã com os Estados Unidos e outros países estabeleceu o regime de inspeção nuclear mais invasivo do mundo, supervisionado pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). E, durante anos, o programa nuclear de Teerã cumpriu as determinações dos inspetores da agência.

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No entanto, nos anos seguintes à retirada do presidente Donald Trump desse acordo, o Irã desafiou gradual e sistematicamente suas salvaguardas nucleares, de acordo com relatórios contemporâneos da AIEA, e a agência concluiu posteriormente que o Irã não declarou locais relacionados a materiais nucleares.


“Os iranianos estavam realmente jogando na defensiva e consistentemente dificultando o acesso da AIEA, apresentando informações que eram risivelmente falsas ou inverossímeis”, disse um ex-diplomata dos EUA a quem a CNN Internacional concedeu anonimato para discutir livremente o tema sensível.

O órgão de vigilância nuclear da ONU às vezes minimizou os problemas por razões políticas, incluindo tentativas de ser menos confrontador com o Irã, disseram à CNN Internacional um ex-funcionário da AIEA e um ex-diplomata dos EUA.


A saga demonstra as limitações do monitoramento e da verificação diante do descumprimento coordenado, levando os principais especialistas a argumentarem que mesmo uma solução diplomática completa para a guerra, incluindo um novo acordo nuclear, não será suficiente para impedir o Irã de obter uma bomba nuclear.

“Acho que, por razões técnicas e políticas... se o Irã quiser obter a bomba neste momento, ele vai conseguir”, afirmou James Acton, físico que chefia a divisão de política nuclear do Carnegie Endowment for International Peace.


Acton disse à CNN Internacional acreditar que “há uma chance de 50 a 50 de o Irã obter a bomba” nos próximos três anos.

23 governadores que integram a AIEA votaram na quarta-feira para denunciar Teerã ao Conselho de Segurança, com Rússia, China e Níger votando contra a medida, que decorre de uma resolução de junho de 2025 que declarou o Irã em não conformidade com as salvaguardas nucleares.

Essa resolução ocorreu sete meses antes da atual guerra com o Irã e dias antes dos ataques dos EUA contra instalações nucleares iranianas na Operação Midnight Hammer.

A última vez que Teerã foi denunciada ao Conselho de Segurança ocorreu no início de 2006, e o órgão da ONU respondeu com uma série de ações, incluindo sanções contra o regime.

Não está claro se o Conselho de Segurança responderá de forma semelhante ao relatório de quarta-feira; a Rússia e a China são membros permanentes do colegiado e podem vetar unilateralmente as ações propostas.

A missão diplomática do Irã junto à AIEA classificou a resolução como “política” e “adotada de forma não consensual” em uma publicação nas redes sociais.

AIEA e o JCPOA

O acordo de 2015, conhecido como JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global), ocorreu após 20 meses de intensas negociações. O JCPOA impôs limites rigorosos ao programa nuclear do país — especialmente em torno da atividade de enriquecimento de urânio — que seriam verificados de forma independente pela AIEA.

O JCPOA estabeleceu limites rigorosos com duração de uma década ou mais sobre os estoques de urânio enriquecido do Irã e fez com que o país enviasse a maior parte de seu excesso de urânio para a destruição na Rússia.

O acordo restringiu a fabricação de centrífugas de enriquecimento, o reprocessamento de plutônio, o projeto de armas nucleares e outras áreas correlatas.

O pacto também permitiu à AIEA implementar o esquema de monitoramento mais invasivo do planeta: lacres, câmeras, sensores, inspeções presenciais diárias e um mecanismo para investigar instalações nucleares secretas suspeitas.

Quando o acordo entrou em vigor em janeiro de 2016, a AIEA certificou que os iranianos estavam cumprindo seus termos.

E, até meados de 2019, o Irã permaneceu em conformidade com as exigências de acesso do acordo e com as salvaguardas sobre suas centrífugas de enriquecimento e estoques declarados de urânio, apesar de Trump ter abandonado o JCPOA em maio de 2018.

Mas a conformidade iraniana começou a ruir em 2019, segundo os relatórios da AIEA, publicados aproximadamente a cada trimestre.

Em julho de 2019, os inspetores relataram que o Irã havia acumulado urânio de baixo enriquecimento suficiente para romper o teto de material nuclear estabelecido pelo JCPOA.

Naquele outono, Teerã retomou o enriquecimento utilizando centrífugas avançadas em instalações onde o acordo havia proibido tais trabalhos.

Em 2020, o Irã impediu os inspetores da AIEA de acessarem dois locais suspeitos de terem sido utilizados para atividades nucleares antes da assinatura do JCPOA.

O acesso da AIEA foi ainda mais reduzido depois que o parlamento do Irã aprovou uma lei em dezembro de 2020 que cortou a cooperação com o órgão regulador em relação às disposições reforçadas de monitoramento e verificação.

A lei, aprovada após Israel matar um importante cientista iraniano, também ordenou a aceleração do programa nuclear de Teerã — incluindo o enriquecimento de urânio a 60% de pureza —, a menos que os EUA reduzissem as sanções. O patamar de 60% é um limiar essencial que permite o processamento rápido subsequente para material de nível bélico.

O Irã concordou inicialmente em manter os equipamentos de monitoramento da AIEA instalados e armazenar os dados localmente, mas esse acordo ruiu em meados de 2021 — naquele verão, os iranianos desativaram as câmeras de monitoramento, destruindo uma delas em uma oficina de centrífugas em Karaj, antes de exigir que a agência retirasse todos os seus equipamentos de monitoramento do JCPOA cerca de um ano depois, em junho de 2022.

Membros das forças de segurança do Irã também intimidaram inspetores da AIEA por meio de “revistas físicas excessivamente invasivas” em 2021, afirmou a agência.

A AIEA descobriu um conjunto não declarado de centrífugas na instalação nuclear de Fordow em janeiro de 2023, que enriquecia urânio com até 83,7% de pureza, nível próximo ao de uso militar (cerca de 90%).

A descoberta ocorreu quando um experiente inspetor russo notou uma alteração sutil na tubulação da centrífuga, disse o ex-diplomata dos EUA. Meses depois, o Irã expulsou aquele inspetor e diversos outros especialistas em enriquecimento de urânio da AIEA do país.

Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, descreveu a expulsão dos inspetores como um “golpe muito sério” na capacidade da agência de monitorar o programa nuclear do Irã.

A relação se deteriorou ainda mais nos anos seguintes, com o Irã e a AIEA trocando acusações de espionagem.

A interferência, a continuidade do enriquecimento e a falta de transparência em relação a locais nucleares não declarados levaram a agência a aprovar uma resolução declarando o Irã em violação de seus compromissos de não proliferação em junho de 2025.

Israel desferiu ataques contra o Irã no dia seguinte à aprovação da resolução, e os EUA bombardearam três instalações nucleares cruciais em Fordow, Natanz e Isfahan menos de duas semanas depois.

Os representantes do Irã contestaram as alegações da AIEA no passado e criticaram com força a resolução de encaminhamento de quarta-feira, baseada nas conclusões de junho de 2025.

Em declaração prévia à votação, os iranianos sustentaram que a agência nunca “comprovou o desvio de materiais nucleares”.

Os diplomatas de Teerã afirmaram que os EUA e outros Estados ocidentais patrocinadores do envio ao Conselho de Segurança “derramam lágrimas de crocodilo sobre a proliferação, enquanto, hipocritamente, evitam até mesmo uma simples condenação verbal de agressões massivas e sem precedentes contra instalações nucleares pacíficas sob salvaguardas, crimes de guerra brutais e crimes contra a humanidade”.

O que vem a seguir?

Desde fevereiro de 2026, quando os EUA e Israel iniciaram a campanha aérea contra o Irã, a AIEA não pôde visitar nenhuma instalação nuclear iraniana além da usina nuclear de Bushehr.

Os inspetores também não visitaram as instalações nucleares bombardeadas anteriormente pelos EUA e por Israel em junho de 2025. A ausência de acesso agrava a interrupção ocorrida no início de 2021 no monitoramento da produção, circulação e instalação de centrífugas por parte da AIEA.

Autoridades da AIEA ressaltaram que o apagão nas inspeções quebrou a “continuidade de conhecimento” da agência sobre o urânio, as centrífugas de enriquecimento e outros itens associados sob vigilância. Isso significa que a entidade não pode atestar o estado, a quantidade ou a localização desses itens.

Restabelecer essa linha de base de monitoramento representa uma tarefa monumental para a agência, de acordo com especialistas que conversaram com a CNN Internacional.

Eric Brewer, ex-diretor de contraproliferação do Conselho de Segurança Nacional, que atualmente pesquisa não proliferação na organização sem fins lucrativos Nuclear Threat Initiative, disse à CNN Internacional que “a AIEA está partindo de uma defasagem bastante expressiva no que diz respeito à compreensão do panorama no território do Irã”.

“Eles precisariam de um monitoramento muito mais robusto e de um período muito mais longo para retornar e estabelecer uma nova base de monitoramento a fim de tentar remontar as peças do quebra-cabeça”, declarou Brewer.

Caberá, em última instância, ao Conselho de Segurança determinar se o Irã enfrentará novas sanções e medidas internacionais pela suposta violação do tratado de não proliferação.

Após o último relatório dessa natureza, em 2006, o organismo aprovou uma série de resoluções que viabilizaram sanções econômicas devastadoras contra Teerã.

Contudo, com os EUA atualmente adotando ações militares e econômicas contra o Irã, não está claro que efeito teriam medidas adicionais, tampouco se eventuais resoluções do Conselho de Segurança sobre o assunto conseguiriam superar o poder de veto exercido por Rússia e China.

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