Como doenças causadas pelo 11 de Setembro continuam matando 25 anos depois
Número de mortes relacionadas às enfermidades ultrapassa o de vítimas diretas dos atentados de 2001
Internacional|Do R7
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Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de Setembro, as consequências para a saúde de quem esteve exposto à destruição do World Trade Center continuam sendo registradas nos Estados Unidos. Bombeiros, policiais, paramédicos, trabalhadores da limpeza, moradores e outras pessoas que respiraram a poeira deixada pelo desabamento das Torres Gêmeas passaram a enfrentar, anos depois, cânceres, doenças respiratórias, problemas neurológicos e transtornos de saúde mental.
O número de mortes relacionadas a essas doenças já ultrapassou, em muito, as vítimas registradas no dia dos ataques. Dados do Fundo de Compensação das Vítimas do 11 de Setembro indicam que 9.677 sobreviventes e socorristas haviam morrido de doenças associadas à exposição até 31 de julho de 2026. Desse total, 5.892 mortes foram provocadas por câncer. Os números são superiores às 2.753 pessoas mortas nos ataques em Nova York.
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Consequências da poeira tóxica
Quando as torres desabaram, uma enorme quantidade de materiais foi lançada no ar. A poeira continha componentes provenientes do concreto pulverizado, vidro, metais, materiais de construção, combustíveis e produtos queimados. Entre as substâncias às quais os expostos ficaram sujeitos estavam chumbo, mercúrio, cádmio, dioxinas, PCBs e outros compostos potencialmente nocivos.
Nos primeiros momentos após os ataques, milhares de pessoas permaneceram na região para procurar sobreviventes, retirar destroços e identificar vítimas. Bombeiros e outros socorristas também trabalharam durante semanas e meses na área.
O problema é que muitas das consequências não surgiram imediatamente. Algumas doenças relacionadas à exposição podem levar anos ou até décadas para se manifestar. É o caso de diversos tipos de câncer reconhecidos atualmente pelo Programa de Saúde do World Trade Center, administrado pelo governo americano.
O programa acompanha quase 150 mil pessoas afetadas pelos ataques e oferece monitoramento e tratamento para condições relacionadas à exposição. O grupo inclui tanto socorristas quanto sobreviventes — pessoas que estavam no local, moravam, trabalhavam ou estudavam na região atingida durante os ataques ou nos meses seguintes.
Entre as doenças reconhecidas pelo programa estão problemas respiratórios, cânceres, transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade e outras condições. A lista inclui tumores de pulmão, próstata, tireoide, pele, mama, sistema urinário e outros tipos de câncer.
Os dados mais recentes apontam 57.044 casos de câncer certificados como relacionados ao 11 de Setembro. O câncer de pele não melanoma é o mais frequente, seguido pelos tumores de próstata, mama, melanoma e linfoma.
Bombeiros estão entre os mais atingidos
Os bombeiros de Nova York estiveram entre os grupos mais diretamente expostos. Muitos chegaram ao World Trade Center ainda durante o ataque e permaneceram no local durante o trabalho de resgate e recuperação.
Um relatório divulgado neste mês pelo governo de Nova York e pelo Corpo de Bombeiros da cidade, o FDNY, reuniu 25 anos de acompanhamento médico de profissionais que participaram das operações. Segundo o documento, mais de 10 mil integrantes do FDNY foram certificados com alguma condição física relacionada ao 11 de Setembro. O levantamento inclui bombeiros, paramédicos, policiais e outros funcionários que participaram das operações.
A situação chegou a um marco simbólico neste ano. Em setembro de 2026, o número de integrantes do FDNY mortos por doenças relacionadas ao 11 de Setembro ultrapassou o total de bombeiros mortos no próprio dia dos ataques. São 453 mortes atribuídas a doenças relacionadas à exposição, contra 343 bombeiros mortos durante os atentados.
A diferença mostra como a tragédia continuou produzindo vítimas muito depois do fim das operações de resgate. Enquanto as 343 mortes dos bombeiros ocorreram em poucas horas, as doenças associadas à exposição provocaram uma perda gradual ao longo de 25 anos.
O câncer é uma das principais causas desse segundo ciclo de mortes. Mas não é a única preocupação.
Doenças respiratórias e problemas neurológicos
O sistema respiratório das vítimas também foi profundamente afetado pela exposição. Entre as condições acompanhadas pelo programa de saúde estão asma, sinusite, rinite e doença pulmonar obstrutiva crônica, além de refluxo gastroesofágico e outras doenças que podem comprometer a qualidade de vida.
Dados recentes indicam 3.679 participantes com doença pulmonar obstrutiva crônica, considerada uma das principais condições não cancerígenas registradas entre os integrantes acompanhados pelo programa.
Outro campo de preocupação que ganhou força nos últimos anos é o neurológico. Pesquisas passaram a investigar possíveis relações entre a intensidade da exposição à poeira do World Trade Center e o desenvolvimento de alterações cognitivas e demência em idade mais jovem.
Um estudo publicado na revista JAMA analisou 5.010 socorristas acompanhados entre 2014 e 2023. A pesquisa identificou 228 casos de demência e encontrou associação entre maior exposição à poeira e aos destroços e maior risco de desenvolver a doença antes dos 65 anos. Também foram observados casos de declínio cognitivo e alterações cerebrais entre profissionais que ainda estavam na meia-idade.
Entre os socorristas monitorados em um programa ligado à Stony Brook University, médicos também identificaram casos de demência em pessoas que trabalharam nas operações de resgate e recuperação.
O impacto psicológico também permanece. O Programa de Saúde do World Trade Center reconhece transtornos como estresse pós-traumático, depressão, ansiedade e transtornos relacionados ao uso de substâncias entre as condições que podem estar associadas à exposição e ao trauma vivido em 2001.
Crise de saúde que ainda não terminou
Uma das dificuldades para dimensionar completamente o impacto do 11 de Setembro é que nem todas as pessoas expostas estão inscritas no programa de acompanhamento. Estimativas citadas em levantamentos recentes apontam que centenas de milhares de pessoas tiveram algum grau de exposição à poeira e aos contaminantes na região de Manhattan.
O próprio programa federal foi criado somente em 2010, quase uma década depois dos ataques. A legislação estabeleceu acompanhamento médico e tratamento para pessoas que desenvolveram condições relacionadas à exposição. Em 2015, o programa foi reautorizado até 2090, permitindo que o monitoramento continue por décadas.
A demora entre a exposição e o aparecimento de algumas doenças é justamente uma das razões pelas quais o acompanhamento permanece necessário. Novos diagnósticos continuam surgindo entre pessoas que estavam no local em 2001 ou participaram dos trabalhos posteriores.
Neste ano, às vésperas do 25º aniversário dos ataques, Nova York também tornou públicos mais de 170 mil documentos relacionados à qualidade do ar e à resposta das autoridades após o desastre. Os registros voltaram a alimentar o debate sobre os riscos da exposição à poeira e sobre como as informações sobre a qualidade do ar foram comunicadas à população naquele período.
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