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Crianças são cerca de 50% de gangues armadas no Haiti, e situação preocupa especialistas

Organizações tentam reintegrar crianças que saem das gangues, mas enfrentam desafios significativos na reconstrução do país

Internacional|Caitlin Stephen Hu, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Estimativas indicam que cerca de 50% dos integrantes de gangues no Haiti são crianças, com 302 menores recrutados só em 2024.
  • A nova Força de Supressão de Gangues (GSF) chega ao Haiti, visando trabalhar junto com a polícia local para combater as gangues armadas.
  • Crianças são atraídas por promessas de comida e dinheiro, muitas vezes se encontram em situações de vulnerabilidade extrema e exploração.
  • Existem preocupações sobre o tratamento das crianças-soldado durante confrontos, com a expectativa de que sejam detidas de forma adequada e tenham acesso a programas de reintegração.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Força de Supressão de Gangues foi enviada ao Haiti para enfrentar o controle das gangues Fildor Pq Egeder/Arquivo/Reuters - 29.08.2026

À medida que uma nova força multinacional se organiza no Haiti, seus policiais e soldados estrangeiros podem se encontrar em breve frente a frente com centenas de crianças.

As crianças representam cerca de 50% dos grupos armados no país, estimam especialistas.


Somente em 2024, pelo menos 302 menores foram “recrutados e utilizados” por gangues em toda a capital, Porto Príncipe, de acordo com o mais recente relatório do secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre crianças e conflitos armados.

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A maioria foi empregada em funções de combate, aponta o relatório.


As marcas deste fenômeno podem ser vistas nas redes sociais das gangues. Na semana passada, durante um ataque que deixou dezenas de mortos em Artibonite, o coração agrícola do Haiti, um vídeo parecia mostrar uma criança de bochechas redondas agitando um fuzil e posando para a câmera. Atrás dela, um homem mais velho disparava repetidamente à distância.

Nesta mesma semana, o primeiro contingente de reforços da nova GSF (Força de Supressão de Gangues, na sigla em inglês) chegou ao Haiti, de acordo com a conta da força no X.


Os planos iniciais preveem que esta força, autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, alcance cerca de 5.500 efetivos para trabalhar junto com a polícia e as forças armadas haitianas.

“Com as operações da GSF, antecipamos que muitas crianças sairão das gangues. Esperamos firmemente que não se tornem vítimas”, disse Geeta Narayan, chefe de operações do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Haiti.


A vida tornou-se cada vez mais difícil no Haiti após anos de crise política e terror de gangues. Dezenas de grupos armados operam sem controle em Porto Príncipe e seus arredores, extorquindo negócios, sequestrando pessoas e expulsando agricultores de suas terras.

E, após anos semeando medo e desespero, eles também estão colhendo novos recrutas jovens: em 2025, atraíram 200% mais meninos e meninas, segundo o Unicef.

“Os grupos armados são muito bons nas redes sociais”, disse Narayan. “Publicam conteúdo atraente, dizendo: ‘Juntem-se a nós, trata-se de o povo se levantar’, com slogans superficiais. Tentam atrair explicitamente as pessoas e, visualmente, mostram dinheiro, ouro, casas bonitas.”

Uma dessas contas, administrada por um líder de gangue de Village de Dieu conhecido como Izo, produz vídeos musicais coloridos nos quais ostenta coletes à prova de balas de estilo militar e armas, junto com sapatos e joias. Ele tem 19 mil inscritos e mais de 2 milhões de visualizações no YouTube.

Os mais vulneráveis ao recrutamento e ao tráfico são as crianças que lutam para sobreviver por conta própria. Em um país com uma rede de proteção social muito fraca, as gangues mais ricas de Porto Príncipe costumam criar sistemas de distribuição de alimentos e moradia para menores sem-teto dentro de seus territórios, afirmando que “cuidam deles”, segundo investigações da ONU.

Depois, podem vir pagamentos em dinheiro, em troca de trabalho para a gangue.

“Dependendo da natureza das tarefas atribuídas, os pagamentos oscilam aproximadamente entre US$ 100 (cerca de R$ 510, na cotação atual) e US$ 300 (cerca de R$ 1.525, na cotação atual) por atividades como vigiar pessoas sequestradas, coletar informações, saquear residências ou monitorar movimentos policiais”, aponta o relatório da ONU.

“Segundo fontes locais, esses pagamentos costumam ser feitos duas vezes por mês. Pagamentos mais altos, de até US$ 700 (cerca de R$ 3.560, na cotação atual), são concedidos por participar de ‘missões importantes’, como sequestros, roubo de veículos ou confrontos armados com gangues rivais”.

Em 2024, um menor recrutado disse à CNN Internacional que tinha 11 anos e vivia na rua quando uma gangue lhe ofereceu comida para se juntar a eles.

Com o tempo, atribuíram-lhe a tarefa de queimar os corpos de pessoas assassinadas pela gangue, relatou.

Nem todos são atraídos voluntariamente. Em alguns bairros controlados por gangues, as crianças podem ser entregues por pais desesperados na esperança de proteger a elas e à família, disse Narayan. Outras são sequestradas ou forçadas a manter relações sexuais exploradoras com membros de gangues.

Há um limite no que os grupos de ajuda podem fazer para aliviar a pressão sobre as crianças e as famílias haitianas.

Embora os trabalhadores humanitários estejam acostumados a responder rapidamente após ataques de gangues, enviando caminhões de água e estabelecendo abrigos temporários para famílias deslocadas, a magnitude da crise torna difícil imaginar uma reconstrução real.

Mais de 1,4 milhão de pessoas estão agora desabrigadas, e os ataques mortais reduziram moradias, escolas e centros de saúde a cinzas.

Por isso, é necessário abordar a fome e as necessidades humanitárias básicas paralelamente a qualquer medida de segurança, disse Wanja Kaaria, chefe do Programa Mundial de Alimentos no Haiti, que fornece tanto resposta de emergência quanto refeições regulares a cerca de 600 mil estudantes.

“É difícil imaginar uma paz plena quando as pessoas acordam e não têm o suficiente para comer”, afirmou.

Tentativa de frear gangues

A nascente GSF é a tentativa mais recente e ambiciosa da comunidade internacional para quebrar o controle das gangues fortemente armadas no país, com um mandato ampliado para persegui-las de forma mais agressiva.

Até agora, uma equipe avançada de tropas do Chade chegou para reforçar as forças já deslocadas de uma missão anterior autorizada pela ONU, o MSS (Apoio Multinacional à Segurança).

Quando começarem as operações da GSF, as crianças-soldado podem ser enviadas à linha de frente para enfrentar a nova força, disseram à CNN Internacional diversos especialistas em segurança.

Ao mesmo tempo, especialistas em direitos humanos expressaram preocupação sobre como serão tratados os menores vinculados a gangues quando forem confrontados nas ruas.

Segundo números da ONU, pelo menos três dezenas de crianças foram executadas sumariamente desde 2022 pela polícia ou grupos de vigilantes após serem acusadas de associação com gangues; algumas tinham apenas 10 anos.

Narayan disse esperar que as forças de segurança que encontrarem crianças sigam um “protocolo de entrega”, assinado pelo governo do Haiti e pela ONU, que exige que os menores sejam detidos de forma adequada e transferidos para as agências de proteção infantil do país. Não está claro se as tropas da GSF têm treinamento específico para isso.

Para as crianças que conseguem sair das gangues, o Unicef opera um programa chamado Prejeune, que busca ajudá-las a se reintegrar na sociedade civil.

Mais de 500 menores participaram até agora, muitos passando por um processo complexo para superar traumas profundos.

“Há todo um processo de reconciliação que é realizado com a criança e a comunidade”, disse Narayan. “Frequentemente, elas fizeram coisas terríveis, e não é garantido que suas famílias queiram recebê-las de volta.”

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