Culto ecumênico e batuques encerram semana de homenagens às vítimas da Kiss
Internacional|Do R7
Luísa Dalcin. Rio de Janeiro, 28 jan (EFE).- Um culto ecumênico realizado na Praça Saldanha Marinho, em Santa Maria, reuniu milhares de pessoas e encerrou nesta segunda-feira a programação de homenagens às vítimas da boate Kiss, organizada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) para marcar o primeiro aniversário do incêndio que matou 242 pessoas. Santa Maria tem vivido dias de tributos silenciosos. Embora, há exatamente um ano, as lojas estivessem fechadas e as ruas, desertas, hoje o movimento pelo centro da cidade foi quase normal: apenas alguns estabelecimentos deixaram de abrir as portas, respeitando o luto oficial decretado pela prefeitura para este 27 de janeiro. Quem optou por abrir seu negócio, exibiu em portas e vitrines os laços brancos que enfeitaram a cidade nos últimos dias. Sacadas residenciais ainda deixam cair panos da mesma cor, grupos de pessoas se manifestam com balões e até os taxistas trazem uma fitinha simbólica amarrada na antena do carro. A fachada da boate amanheceu escoltada por flores novas e vistosas. Sob o lema "Santa Maria Floresce", aconteceu o primeiro Congresso Internacional Novos Caminhos - A vida em transformação, no Centro Universitário Franciscano, evento que abriu no último sábado os encontros, debates e homenagens que marcaram o primeiro aniversário da tragédia. Durante três dias, congresso discutiu aspectos técnicos, como segurança e prevenção de incêndios, e apresentou o documentário Janeiro 27, dirigido pelo cineasta santa-mariense Luís Alberto Cassol, diretor do Instituto Estadual de Cinema, em parceria com o diretor Paulo Nascimento. "Por ser de Santa Maria, eu já tinha recebido três convites, logo na primeira semana, para fazer um documentário. Mas eu não me sentia preparado. Isso só aconteceu quando o convite foi feito pelo Seu Adherbal (Ferreira, presidente da AVTSM) e o resto é o que está na tela", declarou o diretor durante a apresentação do filme, no sábado. Além disso, o evento abriu espaço para a abordagem psicossocial, conversas e debates com psicólogos, voluntários, sobreviventes e familiares não só de vítimas da boate Kiss, mas também argentinos que perderam seus filhos em 2004, no incêndio da boate República Cromañon, em Buenos Aires, que compartilharam sua experiência de superação e prevenção que já contabiliza 10 anos. "Onze anos antes, em 1993, aconteceu a mesma coisa na boate Kheyvis (na cidade argentina de Olivos), onde um incêndio provocou 17 mortes. Esta circunstância não teve justiça, prescreveu", relatou Nilda Gómez, mãe de uma das vítimas de Cromañon, em uma mesa redonda com componentes da AVTSM, no domingo . Conforme a imprensa argentina, foi apenas em setembro de 2013, 20 anos depois do incêndio em Olivos, que o município reconheceu sua parcela de responsabilidade no acidente, lançando um projeto para indenizar os pais dos mortos. Segundo Lila Tello, coordenadora de saúde da "Familias por la Vida", associação de pais das vítimas da tragédia portenha que deixou 194 mortos, desde o incêndio em Buenos Aires, 27 pais morreram por causas oncológicas e 16 sobreviventes se suicidaram. "É preciso garantir que não haja mais mortes jovens evitáveis", declarou. O momento mais tenso do Congresso foi o painel sobre o andamento das investigações, também no domingo 26, em que o delegado Marcelo Aragony, responsável pelo caso, e o advogado da AVTSM, Luiz Fernando Smaniotto, questionaram a permissão de funcionamento da boate, e foram ovacionados e aplaudidos de pé, aos gritos de "justiça". Após declarações acaloradas, com quebras de protocolo e queixas revoltadas da plateia, direcionadas principalmente para Marcelo Dornelles, subprocurador de Assuntos Institucionais do Ministério Público e componente da mesa, a sessão foi encerrada abruptamente pelo presidente da Associação, Adherbal Ferreira, que pediu que os presentes dessem as mãos para rezar um Pai Nosso. Durante a noite, em um ato chocante, centenas de pessoas se reuniram sob a chuva em frente à boate, munidos de baldes de tinta e pincéis, e pintaram a silhueta branca de 242 corpos no chão da Rua dos Andradas. Mais tarde, às três horas, horário aproximado do princípio do incêndio, os manifestantes fizeram soar sirenes na Avenida Rio Branco. Pela manhã de hoje um grupo caminhou pela cidade, em direção ao Ministério Público, pedindo justiça, enquanto outro homenageou plantando uma árvore na Universidade Federal de Santa Maria, onde grande parte das vítimas estudava. Durante a tarde, apresentações artísticas na Praça Saldanha Marinho reuniram cerca de cinco mil pessoas, segundo estimativas não oficiais da Brigada Militar. No começo da noite desta segunda, os nomes das 242 vítimas foram lidos, um a um, intercalados com toques de tarol e bumbo. Este ato abriu o culto ecumênico, celebrado por padres e pastores, que emocionou as cerca de duas mil pessoas vestidas de branco presentes. Voluntário da ONG Para Sempre Cinderelas, Ildo Saccol, 60 anos, perdeu na tragédia a filha Vitória, de 22. "Cada um tem uma maneira de reagir. A todo o momento, nós nos lembramos das coisas boas", disse, chegando à tempo de uma celebração religiosa em outro bairro. "Todos que estão envolvidos têm um símbolo, uma foto na camiseta. Hoje em dia, as pessoas não conversam nem com os amigos, ninguém mais tem tempo para nada. Mas quando alguém nos vê com a camiseta, vem dar um abraço. Temos mais amigos a cada dia. Infelizmente foi de uma maneira trágica, mas temos conhecido muita gente", desabafou. A enfermeira Patrícia Bueno, 28 anos, caminha sem pressa entre os presentes, reconhecendo rostos amigos e distribuindo abraços e copos d'água para quem não consegue segurar o choro. "É nesse momento que a gente acaba criando um vínculo", disse Patrícia, que há um ano acompanha a vida de quem mais sofre com a tragédia. Ela coordena o Serviço de Acolhimento das famílias, iniciativa de apoio da Prefeitura, criada na madrugada do dia 28 de janeiro do ano passado. "Percebo que tenho muito a aprender com os familiares. Aprendi a dar mais valor à família e a mim. Estou aprendendo a me concentrar um pouco menos nos planos para um futuro distante e viver um pouco mais o agora", refletiu a enfermeira. A estudante de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Santa Maria, Kelen Ferreira, de 20 anos, tornou-se um símbolo da força dos sobreviventes. A jovem sofreu queimaduras de terceiro grau em 20% do corpo e teve a perna direita amputada. "Passou um filme do ano inteiro na minha cabeça, passou a imagem das minhas amigas. Ainda não dá para acreditar. É triste, mas temos que nos apoiar uns nos outros", disse a estudante ao descer do palco montado na praça de onde assistiu a celebração, participando de algumas leituras. O culto terminou em torno das 21h com abraços coletivos e música. ld/cd (foto)











