Soldados russos feridos são obrigados a voltar para o campo de batalha, aponta investigação
Reservistas convocados e militares voluntários também alegam que foram considerados aptos sem exames completos
Internacional|Do R7
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Militares russos gravemente feridos na guerra contra a Ucrânia afirmam ter sido obrigados a voltar ao campo de batalha antes de passarem pelas avaliações médicas previstas na legislação do país. As denúncias fazem parte de uma investigação da BBC News Rússia, baseada em processos judiciais públicos e relatos de soldados que contestam decisões do Exército.
Um dos casos citados é o de Oleg Shikin, que sofreu múltiplos ferimentos após pisar em uma mina terrestre. Ele teve estilhaços alojados na cabeça, queimaduras no rosto e nas mãos, lesões no tórax, braços e pernas, além de danos em um dos olhos. Durante o tratamento, precisou retirar parte do crânio em uma cirurgia, posteriormente substituída por uma placa de titânio.
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Shikin havia ingressado nas Forças Armadas após aceitar um acordo que lhe garantiu a liberdade de uma colônia penal em troca do serviço militar. Esse tipo de recrutamento passou a ser adotado pela Rússia ao longo dos últimos anos para reforçar o efetivo empregado na guerra.
Após receber alta hospitalar, o militar deveria ser submetido a uma junta médica responsável por definir se ainda possuía condições de permanecer em combate. Em vez disso, segundo documentos analisados pela BBC News Rússia, ele retornou diretamente à linha de frente, mesmo sem ter concluído o processo de avaliação previsto pela legislação.
Posteriormente, Shikin acionou a Justiça Militar alegando que seus direitos haviam sido desrespeitados. O tribunal determinou que seus superiores providenciassem a realização do exame médico adequado. A partir desse ponto, porém, não há mais registros públicos sobre seu paradeiro ou sobre o desfecho do caso.
A legislação russa prevê que militares considerados “inaptos” ou “parcialmente aptos” por uma junta formada por especialistas de diversas áreas possam ser dispensados do serviço durante o conflito. No entanto, segundo a investigação, diversos soldados afirmam que esse procedimento tem sido ignorado ou simplificado.
As reclamações não se limitam aos ex-detentos recrutados para a guerra. Reservistas convocados e militares voluntários também recorreram aos tribunais alegando que foram considerados aptos sem exames completos ou com base em prontuários médicos antigos.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, mudanças adotadas pelo Ministério da Defesa durante a guerra reduziram significativamente o rigor das avaliações médicas. Uma diretriz emitida em 2022 estabeleceu que apenas militares considerados totalmente incapazes durante uma triagem inicial seriam encaminhados para uma junta médica completa.
No ano seguinte, outra norma ampliou ainda mais essa flexibilização ao permitir que médicos de unidades militares — ou até paramédicos — classificassem soldados como aptos, parcialmente aptos ou inaptos após o retorno de hospitais ou períodos de licença médica.
Organizações de direitos humanos afirmam que esse modelo dificulta a dispensa de combatentes, especialmente daqueles recrutados em presídios.
O Ministério da Defesa da Rússia pretende transformar em legislação permanente algumas das regras adotadas durante a guerra.
As mudanças ocorrem em um momento de dificuldades para manter o número de militares no front. Apesar das campanhas de recrutamento direcionadas a presos, estudantes e estrangeiros, além da oferta de salários elevados, veículos independentes russos relatam queda no interesse pelo alistamento.
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