'É o sentimento de sair e se sentir covarde', diz professor orientado a deixar Ucrânia
Ruben Dargan deixou o país há uma semana e disponibilizou estoque de alimentos para ucranianos que não puderem se deslocar
Internacional|Fabíola Perez, do R7

A televisão ligada no noticiário internacional transmite os últimos ataques da Rússia à Ucrânia. No hotel em que está hospedado em Istambul, capital da Turquia, o professor de jornalismo do Instituto Ucraniano de Humanidades, Ruben Dargan Holdorf, assiste perplexo à escalada da invasão russa do país em que vivia há oito meses e que teve de deixar na quinta-feira (17).
“É o sentimento de sair e se sentir covarde”, diz. “Recebi uma recomendação da Rede de Instituições de Ensino Superior e me recomendaram sair da Ucrânia, disseram que tinha de ser imediatamente e me deram a passagem para Istambul.”
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Desde então, Ruben e a mulher Lia vivem em um hotel sem saber ao certo qual será o próximo destino. Na manhã desta quinta-feira (24), ele conta que foi acordado com a esposa por mensagens do filho, que vive nos Estados Unidos, alertando sobre os bombardeios russos.
“Entrei em contato com todos os amigos que deixamos lá e eles disseram que escutaram o ruído das aeronaves e bombas”, diz ele, que vivia próximo do aeroporto de carga de Antonov, na capital Kiev. “Conversei com uma aluna de quem eu havia corrigido um trabalho recentemente e ela me disse que estava apavorada porque os pais estavam em Lugansk e não sabia quando veria os pais novamente. Ela havia comprado uma arma.”
Deixar o país é uma decisão que, segundo o professor, tem sido muito discutida entre os estrangeiros que vivem na Ucrânia desde que as ameaças da Rússia ganharam força. “É um sentimento estranho, em casa tivemos uma conversa muito importante. Entendemos que não há o que possamos fazer por lá. Nós representaríamos uma preocupação a mais para o exterior neste momento. Mas ao mesmo tempo fica um peso na consciência por ter conseguido sair”, diz. Dargan relata ainda que essa sensação era comum entre as famílias estrangeiras que deixaram a Ucrânia nos últimos dias.
“Hoje pela manhã entrei em contato com amigos que estão lá e disse que a chave do meu apartamento está com a reitoria do instituto. Avisei a ela que, quem não puder se deslocar até o mercado, fizemos um estoque de alimentos. Meu congelador e meus armários estão cheios para alimentar cerca de quatro pessoas por duas semanas.”
Para os próximos 30 dias, período previsto para permanecer em Istambul, Dargan e a esposa levaram apenas roupas e documentos. “Enviei mensagens de conforto, de amizade, mas é uma sensação muito ruim saber que eu estou bem aqui e eles não.”
Enviei mensagens de conforto%2C de amizade%2C mas é uma sensação muito ruim por saber que eu estou bem aqui e eles não. A dor que vamos sentir é muito grande%2C principalmente por perder o contato. A internet vai desaparecer
Com a possibilidade de acirramento dos ataques nas próximas horas e nos próximos dias, Dargan diz que um dos maiores temores é a falta de comunicação com os amigos e conhecidos. “A dor que vamos sentir é muito grande principalmente por perder o contato, a internet vai desaparecer”, afirma. Além disso, a lei marcial, que consiste na substituição das leis do país por leis militares, também preocupa os ucranianos. “Praticamente todos os jovens serão convocados e terão de pegar em armas.”
Segundo Dargan, os jovens ucranianos hoje não viveram situações de guerra como os pais e avós. “O avião em que embarcamos estava lotado de jovens saindo do país para não pegar em armas”, afirma. A guerra entre Rússia e Ucrânia, acredita o professor, evidencia a “crueldade de políticos” e a ineficiência de organizações internacionais que intermediaram negociações. Além disso, o professor diz ainda que a liberdade será valorizada como nunca. “Os jovens que vivenciarem esses conflitos saberão o quão importante é defender a liberdade.”
Apesar das incertezas em relação aos próximos dias, o professor afirma que gostaria de poder voltar à Ucrânia para continuar o trabalho que vinha desenvolvendo. “Gostaria de cumprir meu papel, é algo que mudou muito a nossa vida, estar num programa diferenciado numa área de conhecimento.” Esse, segundo ele, parece ser o sentimento da maior parte dos ucranianos. “Todos pensam em resistir e estar lá, mas nenhum deles tem experiência militar.”

O governo de Vladimir Puttin ordenou uma ação militar na Ucrânia, nas áreas separatistas que ele já havia reconhecido como áreas independentes. O governo da Ucrânia, no entanto, fala em invasão total. Ataque é considerado o mais grave na Europa desde a...
O governo de Vladimir Puttin ordenou uma ação militar na Ucrânia, nas áreas separatistas que ele já havia reconhecido como áreas independentes. O governo da Ucrânia, no entanto, fala em invasão total. Ataque é considerado o mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (Foto mostra efeitos dos ataques na cidade de Chuguiv, no leste do país)
































