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EUA e China: América Latina está no tabuleiro da disputa geopolítica das potências

Relação diplomática dos países latino-americanos é moldada por interesses comerciais e estratégicos

Internacional|Gonzalo Zegarra, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Taiwan está monitorando a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, preocupada com seu status político e vendas de armas dos EUA.
  • Os Estados Unidos mantêm relações não oficiais com Taiwan e venderam bilhões em armas, mas sua posição sobre a intervenção militar permanece ambígua.
  • Funcionários de Taiwan expressam ansiedade sobre possíveis concessões que Trump possa oferecer à China em relação à ilha.
  • A China considera a reunificação com Taiwan uma prioridade e realiza manobras militares na região, enquanto Taiwan busca fortalecer sua defesa.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Casa Branca adota postura mais coercitiva, visando diminuir influência da China Evelyn Hockstein/Reuters - 30.12.2025

A esperada reunião entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, tem vários temas prioritários na agenda em um momento de conflitos internacionais.

Mas a disputa geopolítica das duas principais potências mundiais também se desenvolve na América Latina, onde há múltiplos cenários de confronto em áreas comerciais, tecnológicas, logísticas e outros setores.


Alguns países da região têm uma marcada adesão a alguma das partes, enquanto outros tentam manter um equilíbrio estratégico entre Washington e Pequim para tratar de tirar proveito de cada uma.

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A China, com um avanço constante desde o boom das commodities, superou há alguns anos a UE (União Europeia) como segundo parceiro comercial da América Latina e, no caso de vários países, já está acima dos Estados Unidos em volume de intercâmbio.


Por sua vez, a Casa Branca adotou, desde 2025, uma postura mais coercitiva.

A estratégia de segurança nacional que o governo de Donald Trump divulgou no final de 2025 estabelece que uma das prioridades dos Estados Unidos é “expandir” sua presença na região e enfrentar “influências estrangeiras”.


Casos mais significativos

O Canal do Panamá tornou-se o principal foco do discurso hemisférico de Trump contra o gigante asiático. Antes mesmo de assumir seu segundo mandato, ele acusou repetidamente Pequim de “operar” a via interoceânica, que é gerida por uma autoridade independente nomeada pelo governo panamenho. Pequim negou em repetidas ocasiões que tenha interferido nas operações do canal.

Em meio às pressões de Washington, o Panamá anunciou em 2025 sua saída da Iniciativa do Cinturão e Rota, um programa chinês de infraestrutura que, desde 2013, é símbolo de sua ascensão global.


Mas a polêmica segue centrada no canal (cujo tráfego aumentou pelas tensões no Oriente Médio), com declarações cruzadas entre Washington e Pequim.

O governo do Panamá, mais alinhado à Casa Branca, denunciou que a China aumentou a detenção de navios com bandeira panamenha para supostas inspeções, após as autoridades locais assumirem a administração em ambas as extremidades do canal em fevereiro, depois de uma decisão judicial que declarou inconstitucional um contrato com a Panama Ports Company e sua matriz de Hong Kong, CK Hutchinson Holding, grupo que por quase três décadas operou esses terminais.

O porto de Chancay, inaugurado por Xi Jinping em 2024, tornou-se o projeto chinês mais emblemático no Pacífico Sul, como um grande centro logístico que facilitará um gigantesco volume de carga entre a Ásia e a América do Sul.

O terminal, cujo 60% pertence a uma empresa de capitais chineses, despertou o receio de Washington, que este ano lançou uma advertência diante da possibilidade de o governo do Peru perder faculdades de supervisão.

O embaixador dos EUA em Lima, Bernie Navarro, advertiu em fevereiro que o Peru poderia “perder soberania” por esse tema.

De qualquer forma, a China continua seu avanço com eixo em Chancay: a empresa chinesa Junefield assinou um contrato para um novo parque industrial de Ancón, situado entre o terminal e o porto de Callao, com investimentos estimados em mais de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões, na cotação atual) para facilitar o movimento de mercadorias.

Enquanto isso, o Peru mantém seus laços com os Estados Unidos, em meio às suas turbulências políticas. Em abril, as autoridades assinaram um contrato de compra de aviões F-16 da empresa americana Lockheed Martin, um polêmico processo que desencadeou a renúncia de dois ministros por desacordos com o presidente.

O Brasil, a maior economia da região e o país mais populoso, é quem tem a relação mais dinâmica com a China, seu parceiro no bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Pequim compra soja, ferro e carne, enquanto empresas chinesas expandiram investimentos em energia e logística.

Trump, também motivado por sua aliança com o ex-presidente Jair Bolsonaro, endureceu seu discurso em relação a Brasília e, no ano passado, impôs tarifas que depois foram retiradas, embora as tensões tenham diminuído após conversas entre os mandatários.

Após uma recente reunião na Casa Branca, Lula declarou que disse a Trump que “necesitava voltar a olhar para os nossos produtos outra vez”, em um momento em que a China compra mais do país sul-americano.

Um dos focos de interesse dos EUA e da China são os minerais de terras raras, um recurso natural pelo qual o Brasil busca investimentos para sua exploração.

“Não temos preferência sobre quem compra todos os minerais; qualquer um que queira trabalhar conosco para nos ajudar a utilizar este recurso natural é bem-vindo a vir ao Brasil”, disse Lula, que aspira a um novo mandato nas eleições de outubro.

Sob o governo do presidente Javier Milei, a Argentina apostou em um forte alinhamento com Washington, sobretudo no discurso.

No entanto, a China continua sendo um dos principais parceiros comerciais do país sul-americano (disputa o primeiro lugar com o Brasil) e o mandatário moderou sua linguagem em relação a Pequim.

Os Estados Unidos vêm desenvolvendo exercícios militares no Atlântico Sul, uma zona altamente estratégica, e realizaram várias visitas de autoridades militares.

O governo de Milei, que se mostrou muito próximo a Trump e viajou várias vezes aos EUA, conseguiu em 2025 um resgate financeiro fundamental de US$ 20 bilhões (R$ 100 bilhões, cotação atual) que permitiu evitar uma crise cambial pouco antes das eleições legislativas.

Mas a Argentina e os EUA têm economias que não se complementam.

Os dois países americanos produzem soja, milho, trigo, carne ou óleo, por isso Washington ficou atrás de China, Brasil e União Europeia entre os principais parceiros comerciais.

Além disso, a estação espacial chinesa em Neuquén e os investimentos estratégicos continuam gerando receio na Casa Branca.

O México, uma das maiores economias da região, estreitou alguns laços com a China, mas sua margem de ação é limitada por sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, que é seu principal parceiro comercial e exerce ali uma influência maior do que em outros países mais distantes.

O assunto é uma das chaves da revisão que os países devem enfrentar este ano do acordo comercial entre México, EUA e Canadá, já que Washington quer evitar que empresas da Ásia, principalmente da China, utilizem seu vizinho do sul como plataforma para entrar no mercado americano sem pagar tarifas.

Em meio a essa pressão, o México anunciou em dezembro fortes aumentos das tarifas sobre as importações procedentes da China e de outros países sem acordos de livre comércio com o México, de até 35% em centenas de produtos.

Em resposta, a China disse que tem direito a tomar represálias, embora não tenha anunciado contramedidas, e os investimentos continuam: por exemplo, a montadora GAC confirmou o início das operações de uma planta de montagem no país para o segundo semestre.

A presidente Claudia Sheinbaum repetiu que aborda a relação com Trump apostando no que chamou de “cabeça fria”, enquanto alguns críticos a acusam de “ceder” diante das exigências da Casa Branca.

O Chile mantém relações fluidas com Washington e, ao mesmo tempo, possui um Tratado de Livre Comércio e aderiu à Iniciativa do Cinturão e Rota, com o que demonstrou capacidade de equilibrar sua diplomacia entre as duas potências, mas é um território fundamental por seus minerais críticos para baterias e a transição energética.

Um caso mais silencioso do que o de outras nações, é eixo de uma competição para garantir o suprimento estratégico de cobre e lítio.

No ano passado, o Chile anulou a licitação de uma empresa chinesa para a elaboração de passaportes depois que Washington advertiu que poderia cancelar o programa Visa Waiver, que autoriza a entrada no país norte-americano sem visto.

Em fevereiro, antes da mudança de governo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou os vistos de três funcionários do Chile que participaram da concessão para a construção de um cabo submarino de fibra óptica unindo a China ao país sul-americano, um tema que agitou a transição presidencial e continua em avaliação.

O ultradireitista José Antonio Kast assumiu em março com um discurso mais afinado ao de Washington, embora sem mudanças radicais em sua política externa.

A diplomacia do presidente do Equador, Daniel Noboa, é outro exemplo de um delicado equilíbrio entre as duas potências.

Sua gestão tem sido marcada pela luta contra a violência e o crime organizado, motivo pelo qual fortaleceu sua cooperação em segurança com Washington e expressa sua proximidade ideológica. Ao mesmo tempo, defende a relação comercial com a China, fundamental para a economia do país.

Os EUA aumentaram a assistência tecnológica, a coordenação militar e as operações conjuntas, e Noboa o defende como um parceiro estratégico contra o narcotráfico e a insegurança.

O mandatário participou em março da cúpula presidencial “Escudo das Américas” convocada por Trump na Flórida, mas deixou claro que não esfriará os vínculos com Pequim.

De fato, Noboa adiantou que planeja voltar a viajar em agosto para a China, onde já esteve em junho passado.

A captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro e a guinada do governo chavista para uma postura mais tutelada por Washington abalou os interesses da China na Venezuela.

Durante anos em que as sanções de Washington pressionavam Caracas, o gigante asiático manteve seu apoio político e fortaleceu os vínculos energéticos, mas a operação de 3 de janeiro modificou o tabuleiro.

Embora a China viesse reduzindo sua exposição financeira no país sul-americano, comprava mais da metade do petróleo que a Venezuela exportava (com o qual se pagava parte da dívida), e que agora está em grande medida controlado pelos Estados Unidos e seus interesses energéticos.

Assim, a influência de Pequim no país sul-americano vem se reconfigurando diante do crescente papel de Trump, que está limitando as possibilidades da China.

Quando o Departamento do Tesouro levantou significativamente as sanções sobre o sistema bancário público venezuelano, a licença excluiu expressamente entidades chinesas, assim como da Rússia, Irã, Coreia do Norte e Cuba.

A mesma proibição foi estabelecida quando aliviou as sanções ao setor petrolífero.

No caso do Paraguai, a disputa ocorre principalmente no plano diplomático: é o único país sul-americano que reconhece oficialmente Taiwan, um ponto delicado da rivalidade entre Estados Unidos e China.

O presidente Santiago Peña visitou a ilha na semana passada, o que foi criticado por Pequim, que pressiona Assunção para que rompa relações com Taipé.

O tema é debatido no Paraguai, já que setores empresariais e agroexportadores consideram que poderiam ser beneficiados com um melhor vínculo com a China, mas os Estados Unidos estão interessados em que essa postura se mantenha como está.

A Colômbia, que nas últimas décadas foi um dos aliados mais próximos dos EUA, principalmente em temas de segurança, aprofundou seus vínculos com a China durante o Governo do presidente Gustavo Petro.

No ano passado, assinou um acordo de intenção para se unir à Iniciativa do Cinturão e Rota e, posteriormente, declarou que a decisão ocorreu também “porque não nos insultavam lá nem nos ameaçavam”, em alusão às críticas de Washington.

Semanas depois, o governo de Trump descertificou a Colômbia na luta contra o narcotráfico, atribuindo a medida ao mandatário colombiano.

A China ganhou protagonismo em obras de infraestrutura no país, incluindo a construção da Linha 1 do Metrô de Bogotá e a rodovia de Urabá.

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