Governo sírio adultera munição dos rebeldes
Por causa da sabotagem, projéteis explodem dentro das armas dos rebeldes
Internacional|Do R7

O governo da Síria, tentando conter uma insurgência de rápida expansão, recorreu a um dos truques sujos do campo de batalha moderno: sabotar cargas de munição de combatentes antigovernistas com projéteis que explodem dentro das armas rebeldes, muitas vezes ferindo e às vezes matando os soldados enquanto destroem muitas de suas armas.
A prática, que segundo os rebeldes foi iniciada na Síria no começo deste ano, é mais um elemento da luta do governo para combater a oposição enquanto o exército da Síria se vê desafiado num país onde, há não muito tempo, representava um poder incontestável. O governo controla o céu e, com aviões e baterias de artilharia, destruiu muitos bastiões rebeldes ao longo deste ano. Mas os rebeldes continuam resistindo, principalmente com armas pequenas.
A munição adulterada oferece uma maneira insidiosa de minar a confiança dos rebeldes em seus carregamentos de munição, enquanto ao mesmo tempo diminui suas fileiras.
"Com isso, você perde tanto o homem quanto o rifle", disse Ghadir Hammoush, comandante de um grupo de combate na província de Idlib, que disse saber de quatro casos em que rifles haviam explodido por munição sabotada.
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A prática envolve principalmente cartuchos de rifles e metralhadoras, mas também os projéteis para lança-granadas e talvez balas de morteiro, segundo entrevistas com mais de meia dúzia de líderes rebeldes na Síria e muitos soldados, além de uma análise de fuzis quebrados e dos conteúdos de um cartucho adulterado. A tática é altamente controversa, na medida em que é potencialmente indiscriminada.
A principal fonte de munição adulterada é o governo sírio, que mistura cartuchos explosivos com balas comuns nos mercados negros onde os rebeldes adquirem armas, afirmaram os comandantes.
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Algumas munições sabotadas também podem ter entrado na Síria pelo Iraque, onde, durante a guerra mais recente, o Pentágono e a CIA entregaram secretamente munição adulterada a grupos insurgentes, segundo diversos veteranos e autoridades dos Estados Unidos.
Os EUA realizam um programa similar no Afeganistão, tentando minar o Taleban. O país ofereceu ajuda humanitária e de comunicação aos rebeldes sírios, mas se recusou a distribuir armas de qualquer tipo.
A prática de produzir e distribuir equipamentos adulterados que explodem em momentos inesperados possui um longo histórico, mas geralmente não é documentada publicamente. Os exércitos da Inglaterra e Alemanha usaram a tática na Segunda Guerra Mundial e, na década de 1960, os EUA desenvolveram munição Kalashnikov explosiva e a distribuíram a guerrilheiros sul-vietnamitas e soldados norte-vietnamitas.
Um documento confidencial de inteligência dos Estados Unidos, analisado pelo New York Times, sugere que a União Soviética experimentou um programa similar no Afeganistão nos anos 80.
Os governos lutam para manter sigilosos seus programas de armas adulteradas, em parte porque eles são potencialmente indiscriminados e muitas vezes abastecem forças inimigas com munição boa, com a qual foi misturada a munição sabotada. A tática também pode colocar em perigo as forças amigas, gerando baixas ou destruindo armas entre tropas do governo — elevando as sensibilidades políticas e corroendo o moral.
Nicholas Marsh, pesquisador do Peace Research Institute Oslo que cobre armas e tráfico de armas, disse que, por essas razões, embora haja muitos precedentes, a tática não é generalizada.
"O problema é o mesmo das minas terrestres", afirmou Marsh. "Não dá para ter certeza de quem vai pegar a munição sabotada e tentar usá-la."
Em muitos casos na Síria, a munição adulterada chegou ao seu alvo pretendido: combatentes buscando derrubar o presidente Bashar Assad. Os ferimentos de Muhammad Saleh Hajji Musa, de 36 anos, nas montanhas de Jebel al-Zawiya, ofereceram um exemplo.
Musa era parte de um grupo que havia cercado um posto de controle do governo. Enquanto atirava com seu fuzil, disse ele, houve uma explosão entre suas mãos. Ele foi derrubado.
"Pensei que um morteiro havia me atingido", afirmou ele. O rosto de Musa foi gravemente cortado, e sua mão direita foi mutilada. Ele passou meses se recuperando, mas já está combatendo de novo. Sua mão continua torcida e cheia de cicatrizes.
O exército dos EUA e veteranos de operações especiais, envolvidos na distribuição de tal munição no Afeganistão e Iraque, descreveram uma variedade de medidas tomadas para conter a propagação das munições adulteradas mais perigosas a civis.
Nos programas do Pentágono, segundo ele, alguns cartuchos são preenchidos com quantidades relativamente pequenas de explosivos fortes, o suficiente para travar uma arma de fogo permanentemente. Estas são usadas em casos envolvendo munição que corre o risco de chegar a alvos não intencionais — como quando uma caixa de munição adulterada é atirada de um caminhão de transporte para parecer ter sido perdida.
Outros cartuchos levam uma carga explosiva letal. Estes são usados quando a munição passará por poucas mãos, como quando cartuchos explosivos são inseridos nas armas de combatentes inimigos mortos — na suposição de que seus colegas encontrarão tais balas e as usarão posteriormente.
A legalidade dessas táticas é incerta. O Pentágono não quis comentar seus programas de munição adulterada no Afeganistão e no Iraque. "Infelizmente, não poderemos lhe oferecer informações sobre isso", escreveu o tenente-coronel James Gregory, porta-voz do Pentágono, num e-mail.
As autoridades e veteranos que falaram sobre a tática o fizeram anonimamente, pois a prática ainda é confidencial.
Não se sabe se o governo sírio distribuiu balas explosivas de potências variadas. Mas analistas e combatentes concordam que, com o passar do tempo, tais programas se tornam menos eficientes — pois as forças insurgentes acabam descobrindo e contornando o truque. Isso parece estar acontecendo na Síria. Quando foi ferido, Musa disse que os cartuchos sabotados não eram reconhecidos pelos combatentes. Hoje os rebeldes estão familiarizados com as marcas em muitas das munições falsificadas, afirmou ele, e conseguem separá-las.
Isso foi evidenciado por líderes rebeldes em Kafr Takharim, no norte. Quando questionados sobre a munição adulterada, eles mostraram um cartucho suspeito 7.62 x 39 milímetros, a munição padrão para rifles de assalto Kalashnikov. Seu selo sugeria fabricação original em 2006.
A procedência do cartucho não estava clara. Segundo analistas de armas que analisaram uma fotografia para o New York Times, o selo não era comumente visto em munições circulando em conflitos. Um disse que a bala parecia ser iraniana. Outro, Nic R. Jenzen-Jones, da Austrália, disse que era provavelmente síria.
O propulsor dentro do cartucho havia sido substituído por grânulos cor de canela. Bob Gravett, consultor privado de cartuchos explosivos que documentou balas adulteradas em outras guerras, afirmou que a pólvora lembrava TNT granular, talvez misturada a açúcar para aumentar sua capacidade inflamável.
Segundo comandantes rebeldes, oficiais desertores do exército sírio e informantes no governo haviam dito aos rebeldes que os militares sírios estavam fabricando os cartuchos adulterados e distribuindo-os há vários meses.
"Eles têm pessoas especializadas nesse tipo de coisa", afirmou Abu Azab, que comanda um grupo de combate nas montanhas.
Combatentes também afirmaram que os mercados negros estavam cheios de granadas propelidas por foguetes adulteradas, que tiveram o propulsor de seus motores de reforço removido e substituído por uma substância inerte, ou que explodia ao ser lançada.
Além disso, eles disseram que algumas balas de morteiro mataram equipes inteiras numa violenta explosão assim que foram inseridas no tubo — outra possibilidade de armadilha.
Essa tática foi fundamental nos esforços americanos para matar ou dissuadir equipes de morteiro inimigas no Afeganistão e Iraque, segundo três veteranos dos EUA com experiência com esses explosivos, e ajudava a deter ataques em postos de controle americanos.
Abu Azab, o comandante de Jebel al-Zawiya, sugeriu que o programa de munição adulterada do governo sírio, embora ainda possa evoluir, estava menos eficiente do que no passado.
"Nós paramos de comprar nos mercados negros, e conseguimos o que queremos através da captura", explicou ele. E acrescentou: "Ainda temos alguma munição que compramos há muito tempo."











