Islamitas egípcios tomam as ruas em meio a temor por escalada da violência
Internacional|Do R7
Marina Villén. Cairo, 2 ago (EFE).- Os partidários do presidente egípcio deposto, Mohammed Mursi, voltaram a tomar as ruas do Cairo nesta sexta-feira em um claro desafio às autoridades, em meio ao temor de que seus acampamentos sejam desmontados à força. Milhares de islamitas se reuniram nas praças cairotas de Rabea al Adauiya e Al-Nahda e saíram em passeata pela cidade para reforçar suas reivindicações, sendo a principal delas a restituição da presidência do país a Mursi. As advertências do governo para que ponham um fim aos acampamentos pareceram não surtir efeito, e a Coalizão de Defesa da Legitimidade, que inclui a Irmandade Muçulmana, convocou, inclusive, manifestações no começo da noite em frente a importantes sedes militares e de segurança, como o quartel da Guarda Republicana. Nesta jornada, chamada de "Egito contra o golpe", as manifestações começaram após as orações muçulmanas do meio-dia, durante as quais os sermões dos imãs de Rabea al Adauiya e Al-Nahda estiveram carregados de conotações políticas. "Deus devolva são e salvo o presidente (Mursi) e castigue os traidores", disse o imã de Rabea al Adauiya, para quem o ocorrido no Egito é "uma conspiração para impedir a aplicação da sharia (lei islâmica)". As duas praças se transformaram em fortalezas, com muros de blocos de cimento e sacos de areia ladeando seus acessos, além de montanhas de pedras preparadas para serem lançadas contra a polícia caso decidam desmantelar os acampamentos. Na praça de Al-Nahda, Heba Hassan, responsável do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade, disse à Agência Efe que não permitirão "ser escravizados e que seja restaurado um regime militar golpista novamente". "Confiamos na nossa vitória e no cumprimento da nossa vontade. Não tememos ameaças", afirmou Hassan, que fez questão de insistir que defendem a liberdade e a legitimidade. Perguntada sobre necessidade de um diálogo entre as partes, a representante do PLJ disse que "não há lugar para compromissos" com os "usurpadores e sanguinários". No entanto, o jornal oficial "Al-Ahram" apontou que há conversas entre o governo e os islamitas para evitar um derramamento de sangue. Segundo a publicação, a Irmandade Muçulmana pede a libertação de alguns islamitas detidos após o golpe militar. Já as autoridades exigem a interrupção dos protestos espontâneos e dos discursos que incitam a violência. O líder da Irmandade, Mohammed Badia, pediu hoje que os protestos continuem de qualquer maneira, coincidindo com a chegada do subsecretário de Estado americano, William Burns, em sua segunda visita ao Egito desde o golpe militar. Al-Nahda e Rabea al Adauiya foram os pontos de encontro de várias manifestações, algumas das quais também se dirigiram à chamada Cidade da Produção Cinematográfica, nos arredores do Cairo, onde eclodiram confrontos com a polícia. As forças antidistúrbios usaram gás lacrimogêneo para dispersar centenas de seguidores de Mursi nessa zona diante do temor que os manifestantes invadissem o complexo, informou à Efe uma fonte de segurança. Os islamitas lançaram pedras contra a polícia e bloquearam o tráfego, em protesto pelo que consideram uma campanha de desqualificação contra sua causa promovida por alguns canais com sede nesta cidade. Apesar desses incidentes, que deixaram alguns feridos, os protestos continuaram na maior parte tranquilos, já que ambos grupos não fazem mais que elevar o tom de suas acusações. Vários responsáveis de organizações governamentais de direitos da infância responsabilizaram hoje os islamitas pelo uso de crianças com fins políticos em suas manifestações, inclusive como "escudos humanos". O secretário-geral do Conselho Nacional da Infância e da Maternidade, Nasser al Sayed, denunciou que os islamitas vestiram menores com mortalhas e com roupas que fazem alusão a um futuro martírio. "Estes fatos estimulam o surgimento do ódio nas crianças contra a sociedade, a polícia e o exército", lamentou Al Sayed, ao mesmo tempo em que a presidente do Conselho Nacional da Mulher, Mervat al Talaui, afirmou que "essa exploração das crianças criará uma nova geração de terroristas". Buscando um meio termo, o grande imã de Al-Azhar, a mais prestigiada instituição muçulmana sunita, xeque Ahmed al Tayyip, insistiu hoje que rejeita o uso da violência e defendeu "as soluções políticas e o diálogo" para sair da crise. EFE mv/lvs (foto) (vídeo)












