Moradores da Turquia entrevistados pelo R7 acreditam em nova onda de manifestações durante eleição
“O ‘espírito do parque Gezi’ vai acontecer de novo”, diz o turco Alper Aras
Internacional|Marta Santos, do R7*

Depois de dominar a política turca por 11 anos, poucos duvidam que o atual premiê, Recep Tayyip Erdogan, será eleito presidente do país nas eleições deste domingo (10).
Apesar de a Turquia ter um sistema de governo parlamentarista, no qual os chefes de Estado e de governo são pessoas diferentes (presidente e primeiro-ministro, respectivamente), o fato de um dos candidatos à presidência ser o atual premiê poderá significar grandes mudanças na forma de administração do país.
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O R7 conversou com algumas pessoas que moram na Turquia para saber como está o clima no país em relação à votação e ao futuro do país com o novo presidente.
“A expectativa é de que Erdogan vai ganhar de qualquer forma, mesmo com fraudes na contagem, como já aconteceu nas eleições municipais em março deste ano. Ele tem um plano de poder máximo e o colocará em prática a qualquer custo”, diz a brasileira Gabrielle Ugan, autora do blog Minha Turquia.
— Há rumores de que a intenção do primeiro-ministro é ser presidente para tentar alterar, por meio do parlamento, o sistema do país para o presidencialismo. Dessa forma, ele teria todo o poder, já como presidente.
A turca Göksu Gökay, que vive na cidade de Eskişehir, contou que parte da população “está desesperada” com muitas atitudes autoritárias e sexistas do governo e com a perspectiva de haver fraude na contagem dos votos, mas acredita que os turcos não irão se calar diante disso.
— Espero que tenha manifestações todos os dias para a nossa liberdade, para o nosso futuro. Se não, a situação ficará pior a cada dia.
Além de Erdogan, estão concorrendo Ekmeleddin Ihsanoglu, ex-secretário-geral da OCI (Organização da Conferência Islâmica) e o pró-curdo Selahattin Demirtas.
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Para o turco Alper Aras, de 25 anos, a vitória de Erdogan representa “menos liberdade, um país sem futuro”.
— Todo mundo aqui já sabe que o governo do Erdogan é uma ditadura, (...) nós queremos lutar, mas aqui no Oriente Médio tudo é mais difícil.
As eleições serão realizadas cerca de um ano e meio após uma onda de manifestações com episódios violentos tomar conta da Turquia. Tudo começou com um protesto ambiental pacífico contra o projeto de urbanização do parque Gezi, na praça Taksim, em Istambul.
A reação violenta da polícia revoltou a parcela insatisfeita da população turca e fez com que a manifestação englobasse várias outras causas e passasse a ter um caráter político de contestação ao governo.
“Eu acredito que há sim a possibilidade de novos protestos. Os presenciais perderam um pouco a força por conta do medo, mas os protestos virtuais, não há dúvidas de que irão acontecer”, afirma a brasileira Gabrielle.
— Pessoas morreram, foram presas e, até hoje, médicos, jornalistas e advogados estão sendo julgados por terem ajudado manifestantes.
“O ‘espírito do parque Gezi’ vai acontecer de novo. Tudo depende dele. Só que vai ser depois das eleições”, espera o turco Alper.
*Colaboraram Bruna Vichi e Maria Cortez, estagiárias do R7










