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Nada de caviar! Chef de navio revela pedidos de brasileiros em alto-mar

Em entrevista exclusiva ao R7, chef Allan Espejo fala sobre os desafios de trabalhar na maior embarcação de passageiros a viajar pelo Brasil

Internacional|Ana Luísa Vieira, do R7*

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Pratos com arroz e feijão estão entre os mais pedidos por brasileiros, diz chef
Pratos com arroz e feijão estão entre os mais pedidos por brasileiros, diz chef

Caviar? Esqueça. Uma clássica paella? Nada disso. O frescor de um bowl de ceviche? Que nada! O que os brasileiros mais pedem quando embarcam em uma suntuosa viagem de navio — seja no mar Mediterrâneo ou no litoral da Bahia — é o bom e velho “arroz e feijão”. Quem garante é o chef Allan Vila Espejo, que trabalha há duas décadas em restaurantes de cruzeiros.

“Isso começou há 20 anos, quando eu embarquei para fazer uma paella em um pequeno cruzeiro gastronômico. Eu senti que o passageiro do Brasil achava legal a paella, o arroz com caviar e tudo isso, mas pedia muito arroz e feijão. Eu avisei a empresa, disse o seguinte: ‘Olha, foi muito legal, as pessoas gostaram, mas elas não estão muito interessadas na paella. Elas querem arroz e feijão mesmo’”, revela Espejo em entrevista exclusiva ao R7.


Comida caseira

Allan Espejo é chef em navios há 20 anos
Allan Espejo é chef em navios há 20 anos

Para a sorte dos brasucas, a companhia comprou a ideia — apenas com algumas ressalvas. “Eles responderam que não poderiam simplesmente oferecer um prato com arroz e feijão. Nós passamos a preparar, então, o que chamamos de ‘Sabores do Brasil’. Não é necessariamente comida brasileira, mas sim caseira. Além do arroz e feijão, tem estrogonofe, filé de peixe grelhado com molho de alcaparra, e coisas que os brasileiros estão acostumados a comer em casa”, conta.


Atualmente, o chef trabalha a bordo do MSC Seaview — maior navio de passageiros a viajar em território brasileiro, com capacidade para 5.200 hóspedes. Dentro da embarcação, é um dos responsáveis por nada menos que 11 restaurantes — entre bufês e sistemas à la carte.

Dificuldades a bordo


O maior dos desafios de trabalhar em um navio tão grande, segundo Espejo, é a distribuição e a higiene no preparo dos pratos. “A distribuição é muito complicada e a higiene tem de estar presente desde que a maçã entra no navio até ela chegar no seu prato. Fazer a comida realmente não é um problema”, relata. Para ilustrar o tamanho da dificuldade, o chef toma como exemplo o arroz.

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“São feitos 200 kg de arroz por dia, 30 kg a cada vez. Não adianta fazer mais ou menos se não os grãos ficam muito moles ou muito duros. Ao tirar da panela, o arroz é colocado em bandejas e, depois, em fornos combinados onde nada é cozido — os aparelhos só mantêm a temperatura do alimento para que não se proliferem microrganismos”, começa.


“Então, o forno é transportado de carrinho, levado de elevador para o restaurante e, até chegar na mesa da pessoa, o arroz pode perder um pouco de umidade. O passageiro, às vezes, reclama que o arroz está seco e diz ‘isso não é arroz!’. Ele não sabe que fazer arroz em um navio não é como fazer o arroz em casa. A questão é que temos quase 70 produtos. Precisamos pensar nesta logística de forma diferente para cada um deles”, completa Espejo.

Descontração e recompensa

Em navio, Espejo é responsável por 11 restaurantes — um de comida japonesa
Em navio, Espejo é responsável por 11 restaurantes — um de comida japonesa

Apesar dos desafios, o chef garante que o trabalho na cozinha do navio tem seus momentos de descontração. Ele conta que um dos episódios mais engraçados que viveu nos últimos 20 anos envolveu um passageiro chinês.

“Ele se sentou à mesa e pediu carpaccio, tartare e outros dois pratos crus. Quando o garçom entregou na mesa, ele disse: ‘Mas isso está cru, eu gostaria que fosse preparado no fogo’. O prato voltou à cozinha e nós grelhamos o carpaccio e o tartare. Entregamos os grelhados e o passageiro, então, perguntou onde estava o arroz”, diz.

O problema, de acordo com Allan Espejo, é que naquele dia o restaurante estava sem arroz: o período era de travessia — quando o navio chega de um país a outro e ainda não foi reabastecido. “Tivemos de descer até a cozinha da tripulação — onde sempre tem arroz —, pegar um pouco de lá e servir ao senhor.”

O malabarismo do chef e de sua equipe parece ter valido a pena. “O passageiro ficou tão satisfeito que deu, como gorjeta, o equivalente a 150 reais. Foi uma boa grana”, finaliza.

*A jornalista viajou a convite da MSC Cruzeiros

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