Neruda não foi envenenado, dizem especialistas, mas investigação continua
Internacional|Do R7
Gérard Costumar. Santiago do Chile, 8 nov (EFE).- Especialistas chilenos e estrangeiros que examinaram os restos mortais de Pablo Neruda confirmaram nesta sexta-feira que o poeta morreu de câncer e não foi envenenado, mas a família do autor insiste na tese de homicídio, e o juiz que investiga o caso se mostrou disposto a realizar outros exames. O magistrado Mario Carroza reconheceu que as análises feitas até o momento não permitem descartar ainda a possibilidade de Neruda ter sido assassinado, por isso a ação seguirá aberta e provavelmente serão solicitadas novas provas mais específicas para tentar detectar outras substâncias, como armas biológicas. Os resultados dos exames toxicológicos realizados nos restos do poeta, que morreu em 23 de setembro de 1973 em uma clínica de Santiago, revelaram a ausência de "agentes químicos relevantes", explicou em entrevista coletiva Patrício Bustos, diretor do Serviço Médico Legal (SML) do Chile. As análises confirmaram a presença de "substâncias derivadas de produtos farmacêuticos" utilizados para tratar o câncer de próstata, doença que Neruda sofrida e que durante anos foi aceita como a causa de sua morte. Uma equipe interdisciplinar de analistas chilenos e estrangeiros trabalha na perícia dos restos mortais desde abril, quando o corpo do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971 foi exumado de seu túmulo na cidade litorânea de Ilha Negra, no Chile. O legista espanhol Francisco Etxeberria, que participou das análises, assegurou que foi feito "o que era tecnicamente possível" e se obteve uma "verdade pericial e científica" que deve ser complementada com o resto dos elementos da investigação judicial. Já o toxicólogo espanhol Guillermo Repetto reconheceu que existe a possibilidade de Neruda ter sido atacado com agentes químicos ou biológicos, como gás sarin ou toxina botulínica, embora estes compostos desapareçam rapidamente do organismo e seja impossível comprová-los. "Não podemos descartar, mas não é possível detectar nenhuma substância neste momento, só descartar que exista indício de uma morte não natural", disse Repetto. O juiz Mario Carroza, responsável pela investigação, admitiu que para poder descartar definitivamente a tese do assassinato "é necessário ter todos os antecedentes, e neste momento não sabemos se os temos". "A investigação não vai ser encerrada se existirem dúvidas e se for necessário realizar novas perícias, elas vão ser feitas", disse Carroza, que abriu a investigação em 2011 a partir de uma denúncia do Partido Comunista, do qual Neruda era militante. O advogado Eduardo Contreras avaliou positivamente o trabalho realizado pelos peritos, mas anunciou que solicitará que sejam realizadas outras provas para detectar elementos bioquímicos, além dos testes toxicológicos já realizados. "Se fechou uma etapa muito importante em que se trabalhou com muita seriedade, mas isto não é tudo do caso Neruda em absoluto", disse o advogado. Contreras colocou a possibilidade de que o caso não se resolva nunca do ponto de vista científico, por isso insistiu em avançar nas outras áreas da investigação, como o papel dos médicos que atenderam Neruda na Clínica Santa Maria antes de morrer. O antigo motorista do poeta, Manuel Araya, declarou em 2011 à revista mexicana "Processo" que Neruda foi envenenado por agentes da ditadura de Augusto Pinochet com uma injeção na clínica. Contreras garantiu que o poeta foi tratado pelos mesmos médicos que são processados pelo homicídio do ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva (1964-1970), que morreu em 1982, supostamente envenenado nessa mesma clínica. Também atenderam Neruda dois médicos que trabalhavam ao mesmo tempo na Colônia Dignidade, enclave alemão dirigido pelo ex-oficial nazista Paul Schaefer que funcionou como centro de detenção e tortura durante a ditadura, sustentou Contreras. "Com o que avançamos já não tenho dúvidas que mataram Neruda. São muitas coincidências", finalizou o advogado. EFE gs/cd (foto)







