Nova tempestade entre Argentina e Brasil ameaça afetar Mercosul
Internacional|Do R7
Natalia Kidd. Buenos Aires, 5 jun (EFE).- A nova frente de conflito entre Brasil e Argentina devido a negócios de empresas brasileiras em solo argentino ameaça afetar as relações políticas bilaterais e a própria dinâmica do Mercosul. Se o bloco sul-americano, integrado também por Uruguai, Paraguai e Venezuela, se viu no passado abalado muitas vezes pelas recorrentes guerras comerciais entre Argentina e Brasil, agora a tempestade no horizonte é no aspecto empresarial. Os primeiros trovões surgiram em março, quando a Vale suspendeu um milionário projeto na Argentina que o governo de Cristina Kirchner considerava estratégico. Agora a atmosfera entre as duas maiores economias do Mercosul voltou a se aquecer após a decisão da Argentina de rescindir ontem o contrato de concessão que a América Latina Logística (ALL) tinha para administrar duas linhas férreas de transporte de carga. "Este é um tema complicado na relação com o Brasil. A Argentina também não está se comportando muito bem com o Mercosul em geral. E tudo isso vai complicar as negociações dentro do bloco", disse hoje à Agência Efe Fausto Spotorno, economista-chefe do Centro de Estudos Econômicos Orlando Ferreres. Segundo o especialista, decisões polêmicas adotadas pela Argentina, como restrições cambiais e comerciais e impedimentos ao giro de dividendos ao exterior, complicam não só empresas de seus parceiros no Mercosul, mas o próprio bloco em suas negociações internacionais, como a que desde 1999 está aberta com a União Europeia. "A atividade do Mercosul está paralisada nos temas centrais, os comerciais e econômicos. O coração do bloco é a relação Argentina-Brasil, e se a agenda entre esses dois países estiver parada, isso se transfere ao Mercosul", disse hoje à Agência Efe Mauricio Claverí, coordenador de Comércio Exterior e Negociações Internacionais da empresa de consultoria Abeceb. O comércio bilateral nunca foi fácil, mas nos últimos anos foi motivo de rixas recorrentes, seja por impedimentos específicos ou por exigências da Argentina devido ao déficit em suas trocas comerciais com o Brasil, que em maio registrou um salto anualizado de 36%, para US$ 329 milhões. "A Argentina tem uma situação interna particular. Os desequilíbrios e os problemas que tem no mercado cambial necessariamente precisa compensar através da manutenção de uma balança comercial positiva, o que significa ter um controle muito estrito sobre as importações, incluindo as do Brasil", disse Claverí. O especialista argumentou que a relação bilateral desde o ponto de vista comercial "não é boa e está cheia de atritos e conflitos nos últimos anos. Mas a isso se somaram dificuldades no canal dos investimentos, que era o âmbito onde estava ocorrendo a integração, com investimentos cruzados e integração produtiva". Claverí declarou que a rescisão do contrato com a ALL tem, segundo o que foi expressado ontem pelo governo argentino, um "fundamento" - um suposto descumprimento do contrato de concessão - e, portanto, "não se pode pensar em uma intencionalidade de afetar o Brasil com a medida". "Mas acontece que este tipo de ação ocorre em um mau momento, onde a relação bilateral já era complexa, e é um mau sinal do ponto de vista da recomposição da relação", advertiu. Esta relação que os governos dos dois países garantem ser "estratégica", já evidenciava sinais de desencontro, como a quase paralisação dos contatos oficiais em nível técnico e reuniões de alto nível que já não parecem ser tão efetivas como antes. As presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner se reuniram no final de abril em Buenos Aires em meio a crise pelo episódio da Vale, mas o encontro não reativou o megaprojeto de mineração, com o qual a Argentina esperava fortes investimentos, a geração de milhares de postos de emprego e milionárias exportações. "Quando as presidentes se reuniram, os resultados não foram muito significativos e até vazou (informação) de que não tinha sido muito amistoso o encontro", declarou Claverí. Dilma e Cristina voltarão a se ver na próxima cúpula do Mercosul, que será realizada em agosto, em Montevidéu - um encontro que pode dar o que falar. EFE nk/id












