O julgamento de Bo Xilai: bem-vindos ao "show de Truman" chinês
Internacional|Do R7
Paloma Almoguera. Jinan (China), 24 ago (EFE).- O julgamento de Bo Xilai transformou a cidade oriental de Jinan -pequena para as proporções chinesas - no palco de uma espécie de "show de Truman", apesar da tentativa das autoridades de mostrar um julgamento público e independente. Os cerca de sete milhões de habitantes de Jinan vivem estes dias imersos em uma dinâmica muito diferente da tranquila rotina da cidade, cortada pelo rio Amarelo. Desde a última quarta-feira, mais de 200 jornalistas estrangeiros hospedados em vários hotéis da cidade -que dispararam os preços para a ocasião-, rodeiam o Tribunal Popular Intermédio, onde acontece o julgamento. O epicentro da novela é a imensa corte que ocupa quase uma quadra inteira de uma das principais ruas de Jinan, dividida em duas pelas águas estagnadas do rio. Os exércitos de repórteres, que correm de um lado a outro carregando câmeras e tripés, não conseguem registrar muita coisa. Até agora, eles tiveram que se conformar com imagens distantes de Bo quando entra ou sai escoltado do tribunal, embora os carros de vidro fumê dificultem a tarefa. Mas isso não quer dizer que não haja lugar para o espetáculo, em um julgamento que transcorre sob um roteiro rígido, mas no qual Bo improvisa. Acusado de suborno, desvio e abuso de poder, o antigo líder da cidade de Chongqing e aspirante ao governo do país negou as acusações contra ele e insinuou que sua esposa, acusada do assassinato do empresário Neil Heywood -a suposta raiz do escândalo-, está "louca". "Ela mudou, costuma dizer mentiras. Se encontra sob uma condição de loucura", denunciou o acusado. Ela, antes uma advogada de prestígio, foi o ponto alto da audiência até agora, ao protagonizar um vídeo, divulgado na sexta-feira, onde ela se declara contra seu marido. Embora seja um testemunho filmado de dentro da prisão há mais de dez dias, a gravação foi transmitida em uma televisão da sala de imprensa do hotel de Jinan quando os jornalistas aguardavam um comunicado sobre a segunda sessão do julgamento. Sem precedentes, pela primeira vez na China, momentos do julgamento selecionados pelas autoridades são transmitidos através da conta de Weibo -o "Twitter chinês"- do próprio tribunal. Se os cidadãos da blogosfera podem examinar assim o que ocorre no interior da sala de audiências, os jornalistas encarregados de contá-lo são, por sua vez, submetidos ao escrutínio da polícia chinesa. Centenas de agentes uniformizados ou à paisana abordam e fotografam repórteres encarregados de cobrir o julgamento, em um jogo de espelhos no qual os observadores do processo viram os observados, como em um episódio do "Big Brother". Um episódio que, como costuma acontecer na etapa final das séries de grande audiência, teve sua duração dobrada: esperava-se que o julgamento durasse um dia, talvez dois, e parece que continuará pelo menos até este sábado. Talvez, segundo as especulações, a "combativa" reação de Bo tenha surpreendido as autoridades, o que atrasou o processo. Enquanto há quem defenda que Bo tenha realmente fugido do script, outros consideram que sua reação faz parte da encenação, uma manobra do atual presidente, Xi Jinping, para agradar os "príncipes" do Partido Comunista -filhos de líderes revolucionários como ele e Bo- e à ala esquerdista. Só uma coisa parece clara por enquanto: o "show" vai continuar. EFE pav/ld/rsd (foto)










