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Os esquecidos da República francesa

Internacional|Do R7

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Carlos Abascal Peiró. Clichy-sous-Bois (França), 23 jan (EFE).- Enquanto a França digere o drama terrorista, as primeiras análises relacionam os autores dos atentados com o esquecimento dos valores republicanos nas maltratadas periferias urbanas de um país que começa a se reavaliar. Tanto Amedy Coulibaly como os irmãos Kouachi eram franceses. Na última terça-feira, o primeiro-ministro, Manuel Valls, alertava sobre a existência de verdadeiros "apartheids territoriais, sociais e étnicos", fazendo referência às revoltas que dominaram as ruas do país em 2005. Os protestos que eclodiram nos distritos mais humildes - de maioria muçulmana e assolados pelo desemprego e a miséria -, seguramente anunciaram "o conflito que os recentes fatos evidenciaram", concluiu Valls. A pouco mais de 15 quilômetros da sede do governo, no subúrbio parisiense de Clichy-sous-Bois, a comunidade vizinha, Aclefeu, corrobora as intuições do chefe do governo em um escritório orientado por uma cópia desgastada da Declaração dos Direitos Humanos. Atrás de um biombo, pregadas em um tom memorial, as fotos em preto e branco de dois adolescentes. A morte de Bouna Traoré e Zyed Benna durante uma operação policial em 2005 se transformou no estopim da revolta do chamado "cinturão vermelho parisiense", uma onda de protestos que deixou 45 mil veículos incendiados. Com taxas de desemprego duas vezes maiores que a média nacional, os cerca de 30 mil moradores do local, no nordeste da capital, estão cansados de encontrar equipes de televisão farejando suas caixas de correio. "Para ser jornalista é preciso falar muito. E às vezes, quando se fala tanto, acabam esquecendo a verdade", afirma Nadia, uma estudante do ensino médio que às vezes falta às aulas para ajudar na secretaria do coletivo. Suas afirmações têm fundamento. Desde 2005 a imprensa volta regularmente a Clichy-sous-Bois e outros distritos para verificar o mesmo cenário degradado: passeios em más condições, carrocerias de carros queimadas e grupos errantes. Os jornalistas vêm e vão, mas a "decoração" e os "atores" permanecem. No início da década de 60, a descentralização da indústria pesada transferiu as grandes fábricas para os arredores de Paris, onde foram erguidos imensos bairros para abrigar uma mão-de-obra de massa e fundamentalmente imigrante. Mas a partir da segunda metade dos anos 70, a crise do petróleo e outros fatores levaram o emprego para outros países, deixando a periferia em seu estado atual: pobre, associada ao crime e à marginalidade na mídia. "As soluções passam tanto pelo plano urbano como pelo humano", disse à Agência Efe o porta-voz de Aclefeu, Mehdi Bigaderne, se referindo aos esforços do município, que inaugurou há alguns meses uma nova creche e tem promovido reformas em outras estruturas na medida do possível. No entanto, a história catastrófica persiste, mas há quem negue. Nesta semana, o ex-presidente francês e líder do partido conservador UMP, Nicolas Sarkozy, afirmou que não existe o "apartheid" e elogiou a "França rural que não queima edifícios nem destrói carros". "Sarkozy se limitou a dobrar a presença policial e a culpar a imigração. Nunca enfrentou o problema de frente, desde a educação e a assistência familiar", critica Bigaderne, citando uma declaração do então primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault prometendo "limpar a escória" das ruas da periferia. O advogado também não esconde a decepção da comunidade com o atual presidente, François Hollande, "incapaz de assumiu os desafios existentes", apesar do entusiasmo inicial. As pesquisas dão razão a Bigardene: recente levantamento na região mostra que apenas 18% dos moradores acreditar ter ocorrido alguma melhoria no local desde 2005. Não há padarias em Clichy-sous-Bois. É preciso pegar um carro para comprar alguns pães. A paisagem se alterna entre desordenados blocos de cimento e "desertos" transformados em lixões ou cemitérios de automóveis. "Eles estão nos deixando sozinhos. Só me resta tentar convencer meus alunos de que eles são iguais ao resto. O que aconteceu no 'Charlie Hebdo' destruiu anos de trabalho. Agora temos que nos desculpar e repetir que não somos criminosos. O Islã é uma religião de amor e paz", destaca o ativista Benyousseff Bouzidi. Na porta da escola municipal, o veterano professor conta os minutos antes de entrar na sala de aula. "São a França de amanhã", avisa Bouzidi enquanto é rodeado por seus alunos. Depois esfrega as mãos e aperta o passo. A França de amanhã se afasta depressa, senão chegará tarde à aula. EFE cap/lvl/rsd

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